UOL Notícias Internacional
 

09/08/2006

Índia vê ameaça crescente de células terroristas domésticas

The New York Times
Somini Sengupta*

em Nova Déli
Os ataques a bomba do mês passado contra sete trens de transporte público em Mumbai fizeram mais do que enfurecer os indianos contra o Paquistão, por este fracassar em conter os grupos terroristas que operam em seu território.

Eles também ressaltaram uma ameaça cada vez maior para a Índia: um pequeno mas crescente quadro mortal de muçulmanos indianos jovens e freqüentemente de alto grau de instrução que estão sendo atraídos diretamente para operações terroristas.

A escala e coordenação dos ataques de 11 de julho, disse um alto funcionário do governo indiano, sugere que pelo menos uma célula terrorista, composta de menos de uma dúzia de moradores locais e provavelmente dirigidos e financiados por militantes baseados no Paquistão, pode ter executado os atentados, que mataram 183 pessoas.

No passado, disse o funcionário, agentes indianos ajudaram militantes estrangeiros no que ele chamou de forma benigna, às vezes fornecendo pouco mais que abrigo ou comida. "A mudança é que alguns deles realmente sabem o que estão fazendo", disse o funcionário, que falou sob a condição de anonimato porque a investigação ainda está em progresso.

O surgimento de células terroristas domésticas mais sofisticadas traz repercussões graves não apenas para a segurança nacional, mas também para a política doméstica, para as relações hindu-muçulmanas e para a diplomacia com o Paquistão.

Talvez mais importante, ela toca no conceito próprio da Índia de maior democracia secular do mundo, capaz de incluir uma hoste de pessoas e religiões.

"Uma pequena parcela da comunidade muçulmana indiana se radicalizou", disse C. Raja Mohan, um colunista do jornal "Indian Express" e membro do Conselho de Segurança Nacional da Índia. "Isto é o que torna isto um desafio difícil para o país lidar como um todo."

A polícia prendeu oito homens de Mumbai, antiga Bombaim, por envolvimento com os ataques, apesar de nenhuma informação específica ter sido revelada sobre as possíveis ligações com os atentados. Entre eles estava um médico de medicina islâmica tradicional e um engenheiro de software autodidata, que a polícia disse que tinha conquistado um emprego na empresa americana de bancos de dados e software Oracle.

Segundo as autoridades indianas, seis dos presos teriam treinado em campos terroristas no Paquistão dirigidos pelo grupo militante Lashkar-e-Tayyaba. Vários foram associados a um grupo radical doméstico, agora proibido, chamado Movimento Estudantil Islâmico da Índia.

Apesar de todo o apontar de dedos ao outro lado da fronteira, os ataques forçaram a Índia a confrontar a preocupante inquietação entre os muçulmanos em casa, cuja maioria esmagadora até o momento têm resistido aos apelos para ingresso no radicalismo islâmico.

"Isto ainda é verdadeiro em grande, grande parte", disse o conselheiro de segurança nacional da Índia, M.K. Narayanan. "Mas o que tem acontecido é que uma tentativa muito, muito clara de recrutar muçulmanos indianos está em andamento atualmente."

Tais esforços, ele disse em uma entrevista para a rede de TV "CNN-IBN", estão cada vez mais direcionados a muçulmanos indianos de alto grau de instrução e, de forma mais preocupante, para elementos dentro das forças armadas.

Altos dirigentes de Lashkar entrevistados em Rawalpindi, Paquistão, disseram que não mais que 50 indianos em média freqüentam os campos de treinamento militar e religioso no Paquistão e na parte controlada pelos paquistaneses da Caxemira a cada ano.

Mas eles confirmaram que um esforço ativo de recrutamento está de fato em andamento na Índia.

É impossível determinar até que ponto o ainda aparentemente pequeno número de recrutas é motivado por queixas essencialmente indianas -especialmente as perseguições em 2002 contra muçulmanos no Estado de Gujarat, que deixaram 1.100 mortos- ou pela ideologia de um Islã global.

Mas cada vez mais, muitos aqui temem, os dois correm o risco de se fundir.

De fato, disse Narayanan, a lembrança da violência antimuçulmana na Índia é uma ferramenta de recrutamento poderosa. "Freqüentemente", ele disse, "a motivação é 'você sabe o que aconteceu em Gujarat".

O "Business Standard", um jornal de língua inglesa, pediu à Índia, em um editorial na semana passada, para que comece a olhar para dentro do próprio país para o que chamou de "jihad doméstica", sugerindo que culpar apenas o Paquistão pelos ataques em solo indiano não é mais suficiente.

"O esforço nacional deve cuidar para que mesmo se o Paquistão se esforçar para plantar as sementes do mal neste país, ele não encontrará um solo receptivo", concluiu o editorial.

Quão hospitaleira a Índia, lar de cerca de 140 milhões de muçulmanos, pode ser como solo fértil para o extremismo ainda continua sendo assunto para debate.

Alguns analistas na Índia argumentam que se não fossem os esforços dos
militantes baseados no Paquistão, os muçulmanos indianos careceriam dos
recursos para executar ataques terroristas de grande escala.

"Toda a liderança que está criando a violência na Índia está no Paquistão", insistiu Ajai Sahni, um analista de inteligência em Nova Déli que dirige um site na Internet chamado South Asia Terrorism Portal. "Se você remover o Paquistão do problema e o afluxo de fundos, não haveria o problema dos grupos subversivos na Índia."

Mas em uma visita aos bairros muçulmanos de Mumbai após os atentados de 11 de julho, o que podia ser claramente sentido era temor e ressentimento, alimentados mais do que qualquer outra coisa pela suspeita da polícia. A polícia revirou estes bairros em busca de pistas e suspeitos. Eles bateram às portas exigindo que pais entregassem seus filhos para interrogatório, provocando ainda mais rancor.

"Agora ficou muito difícil viver como muçulmano neste país", reclamou Aslam Ansari, 58 anos, no corredor de um prédio de apartamentos arruinado, ocupado principalmente por muçulmanos, em um bairro central chamado Mominpura. "Nós temos que suportar. Não temos para onde ir."

Entre os presos estava um dos vizinhos de Ansari, um médico chamado Tanvir Ansari, 32 anos, que segundo a polícia viajou para o Paquistão para treinamento no uso de armas e explosivos. Os dois não são parentes e Aslam Ansari insiste que seu vizinho é inocente.

Entre os presos também estavam dois irmãos de Mira Road, um bairro de
maioria muçulmana no norte de Mumbai.

Faisal Shaikh, 30 anos, o irmão mais velho, foi descrito pelos
investigadores como uma ligação crucial dos indianos com o
Lashkar-e-Tayyaba. Foi seu irmão mais novo, Muzamil, 23 anos, que foi
contratado pela Oracle em Bangalore. A polícia disse que ele acompanhou seu irmão até o Lashkar, e ao Paquistão, via Irã, para treinamento.

Células dormentes ligadas às organizações baseadas no Paquistão entraram no radar da inteligência indiana há pelo menos 10 anos. De lá para cá, atentados a bomba, prisões e apreensões de armas ofereceram pequenos vislumbres de seu possível tamanho e força.

Em 2003, um casal de Mumbai com supostas ligações com o Jaish-e-Muhammad, um grupo paquistanês fora-da-lei, foi acusado de envolvimento em dois ataques poderosos com carros-bomba, incluindo um diante do importante monumento Portal da Índia daqui, que matou pelo menos 50 pessoas.

A polícia disse na época que o casal foi acusado de plantar as bombas nos porta-malas de dois táxis como parte de um grupo local que se chamava Força de Vingança de Gujarat.

No ano passado, a polícia de Déli prendeu um engenheiro mecânico acusado de conspirar para atacar centros financeiros e militares em nome do Lashkar.

E, em maio, um grande carregamento de armas e explosivos militares expôs o que a polícia chamou de célula dormente composta por cerca de uma dúzia de pessoas, que operava em Aurangabad, uma cidade provincial a cerca de 320 quilômetros a nordeste daqui.

Como no passado, as prisões nas últimas três semanas apontavam para o
Movimento Estudantil Islâmico da Índia. A polícia diz que vários dos presos por ligação com os ataques de 11 de julho já foram membros do movimento. Seus líderes negam qualquer envolvimento com os ataques de 11 de julho.

"Alguns destes módulos foram descobertos aqui", disse o comissário de
polícia de Mumbai, A.N. Roy. Ele disse que os ex-membros da organização "são solo fértil para o fornecimento de soldados locais".

Fundado há 30 anos para promover o ensinamento islâmico para jovens
indianos, o grupo começou a defender a resistência armada há mais de uma década, após um bando de hinduístas radicais ter derrubado a Mesquita Babri, de 400 anos de idade, em 1992 na cidade de Ayodhya, no norte da Índia, provocando uma série de conflitos entre hinduístas e muçulmanos por todo o país.

As tensões persistentes nesta cidade são profundamente preocupantes. Desde os ataques de julho, mesmo jovens muçulmanos indianos com a mente voltada para suas carreiras se queixam de que estão sob vigilância constante.

Aqueles que exibem barbas e barretes se preocupam com quantas vezes serão revistados na estação de trem. Aqueles que vivem em enclaves muçulmanos vêem a polícia batendo às suas portas.

Um jovem lembrou de uma faixa que foi colocada em seu bairro, exortando os inimigos da Índia a deixarem o país. "Nossa identidade é o principal
problema", disse Abdul Hannan Khan, um estudante universitário de 21 anos que planeja uma carreira em publicidade.

É a mesma rotina após cada ato terrorista, disse o Abdul Qayyum, 20 anos, lembrando os tumultos de Gujarat, que ocorreu após um incêndio no trem que transportava peregrinos hindus, matando 59 pessoas. Ainda não se sabe se o incêndio foi deliberado ou acidental e ele continua emaranhado em disputas políticas.

Na mente de Qayyum, não há dúvida quanto à lição de Gujarat, onde ele morava na época. Ele disse que a violência que ocorreu lá foi o evento mais importante de sua vida.

"Eu aprendi que, como minoria, nós muçulmanos estamos desprotegidos", ele disse, rapidamente acrescentando: "Na situação atual, os muçulmanos de todo o mundo não estão protegidos".

*Arif Jamal, em Lahore, Paquistão, contribuiu com reportagem para este
artigo George El Khouri Andolfato

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