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09/08/2006

"World Trade Center": presos sob as torres destruídas e a história de 11 de setembro

The New York Times
A.O.Scott
Como Hollywood reagirá? Essa pergunta surgiu pouco depois dos ataques de 11 de setembro -de fato, surgiu chocantemente rápido, se não me falha a memória.

Era impossível banir o pensamento, mesmo no meio do horror e da confusão daquele dia, que os ataques representavam um cenário de filme tornado grotescamente literal. Qual outra referência tínhamos para arranha-céus queimando e aviões seqüestrados? Depois, nossos olhos e mentes foram tão rapidamente saturados com as imagens de fato, infinitamente repetidas -o impacto do segundo avião, as nuvens de fumaça saindo do topo das torres gêmeas, os cidadãos em pânico cobertos de cinzas- que a própria noção de reconstrução cinematográfica parecia mais do que redundante.

Todos sabiam que não era um filme. E ao mesmo tempo, ninguém duvidava que, nalgum dia, seria.

E agora, com a proximidade do quinto aniversário, é. Por um tempo, muitos filmes pareciam lidar com 11 de setembro de forma oblíqua ou alegórica. Mas "Vôo United 93", de Paul Greengrass, e "World Trade Center", de Oliver Stone, em vez de buscarem significados e metáforas, representam uma volta ao literal.

Os filmes retornam à experiência imediata após 11 de setembro, pegam uma perspectiva estreita e a enchem com máximo de detalhes. A maior parte do filme de Stone acontece no local das torres gêmeas; ele não compartilha da estética clínica quase documentária de Greengrass. Sua sensibilidade é de grandiosidade visual, emoção e drama exagerado.

Um crítico poderia usar muitas palavras para descrever os filmes de Stone -enlouquecedores, brilhantes, irresponsáveis, provocativos, longos- mas sutil provavelmente não estaria na lista. Isso faz dele o homem certo para o serviço, pois não havia nada de sutil nas emoções de 11 de setembro.

Mais tarde, haveria complicações, nuances, zonas cinzentas, enquanto o evento e suas conseqüências foram inevitavelmente puxados para a onda turva e raivosa da política americana. Mas esse território Stone evita, de forma pouco característica.

"World Trade Center" é apenas o segundo filme depois de "Reviravolta" que ele dirigiu inteiramente a partir do roteiro de outra pessoa, o primeiro de Andréa Berloff a ser produzido e que impõe uma disciplina salutar em alguns dos impulsos mais selvagens do diretor. As ambições intelectuais incontroláveis que animam os trabalhos de Stone mais vigorosos-"Platoon", "Wall Street", "JFK" - e mais confusos - "Alexander", "Assassinos por Natureza"- aqui são controladas. No entanto, o cuidado sóbrio deste projeto faz ressaltar algumas das forças do diretor.

Realmente não há outro no cinema americano que passe tão rápida e enfaticamente da escala íntima para a épica, saturando até momentos de silêncio com emoção feroz. Ele edita como um maestro conduzindo Beethoven, ligando imagens e seqüências em um estado de eloqüência agitada.

O roteiro de Andréa Berloff é composto em cima do sentimento forte e simples, trazido à vida com clareza vívida pela cinematografia de Seamus McGarvey. "World Trade Center" é, da primeira à última cena, quase insuportavelmente comovedor. Não poderia ser diferente, dados os fatos da história e as memórias que revolve.

O filme concentra-se na história de dois policiais da Autoridade Portuária, John McLoughlin e Will Jimeno, que ficaram presos debaixo dos destroços das torres, aonde tinham ido ajudar na evacuação depois do choque do primeiro avião. A narrativa começa antes da madrugada de 11 de setembro e cobre praticamente as 24 horas seguintes; ela se alterna entre os homens e suas famílias, especialmente as mulheres, que passaram horas agonizantes esperando notícias dos maridos.

O sargento McLoughlin, interpretado por Nicolas Cage, tem um ar silencioso e observador. Veterano do atentado a bomba de 1993 contra o World Trade Center, ele corre para o local do acidente no dia 11 de setembro sabendo que não existe plano adequado para lidar com uma catástrofe dessa magnitude. Jimeno (Michael Pena), iniciante, é cheio de vontade e ansioso; seu rosto mostra o desejo de se provar no cargo e matizes de medo -com o passar do tempo, a preocupação de errar dá lugar a um terror muito mais profundo.

Presos debaixo de toneladas de cimento e metal contorcido, eles ficam conversando para ajudar a afastar o desespero e o sono, e você tem a sensação que é sua primeira conversa real, uma troca de lugares comuns diante da morte. McLoughlin e sua mulher, Donna (Maria Bello), têm quatro filhos; Jimeno e sua mulher, Allison (Maggie Gyllenhaal), estão esperando o segundo. Enquanto os dois conversam, as banalidades da vida doméstica assumem um vulto quase sagrado.

Em um filme de Oliver Stone, os atores são estimulados a colaborar com suas próprias nuances, e a delicadeza e sensibilidade das atuações em "World Trade Center" complementam as pinceladas audaciosas do diretor. Bello revela a força de Donna sem exagerá-la, enquanto Gyllehaal sugere uma personalidade complicada e difícil por baixo do pânico e do sofrimento.

Cage vira toda sua intensidade para dentro, fazendo o papel de um homem consciente sobre sua própria reticência. ("As pessoas não gostam de mim porque não sorrio muito", diz ele.) Ele parece mais velho e mais desgastado do que em outros filmes e usa o estoicismo de seu personagem cansado como uma camisa velha.

Pena, que fez o papel do chaveiro de bom coração em "Crash" é mais amigável e alegre -Jimeno naturalmente torna-se o irmão falante de McLoughlin. O contraste de temperamento entre dois atores mantém o filme em sua parte intermediária longa e difícil.

Os dois policiais e suas mulheres passam a maior parte do "World Trade Center" em estados diferentes de paralisia. Os homens estão fisicamente imobilizados, enquanto as mulheres, cercadas por amigos e familiares bem intencionados, não podem ajudar seus maridos nem saber com certeza o que houve com eles. Então elas ficam sentadas ao lado do telefone ou na frente da televisão, abatidas, enquanto um vendaval de atividade caótica engolfa Nova York.

É essa combinação de ação frenética com impotência chocada que o "World Trade Center" reproduz mais efetivamente. Os detalhes estão todos lá -o papel de escritório caindo como neve; as vozes de Tom Brokaw e Aaron Brown improvisando uma interpretação coletiva de algo que ninguém poderia ter imaginado; os rostos brevemente vislumbrados de George W. Bush e Rudolph W.Giuliani, projetando liderança da tela da televisão. No entanto, o ponto do filme não é tanto construir uma réplica visual do desastre, e sim mergulhar o público novamente na sensação de choque, terror, revolta e pesar. E também na solidariedade e preocupação com o outro -o amor- que fizeram parte de 11 de setembro.

O filme não é apenas sobre as vítimas do ataque e suas famílias, mas também sobre aqueles que os resgataram, notavelmente David Karnes (Michael Shannon), que deixa seu emprego em Connecticut, coloca seu uniforme de Marine e vai para o local do acidente em busca de sobreviventes. Karnes é o único personagem do filme que, em meio à fumaça e ao sofrimento, articula um desejo de vingança.

Mas Stone e Berloff, como Greengrass, mantêm distância da política posterior -ou até anterior- a 11 de setembro. Os dois homens enterrados sob as torres nem sabem o que as derrubou, e todos estão muito ocupados para começar a descobrir o vocabulário exótico que eventualmente adquirimos. Este filme não tem nada a dizer sobre Osama Bin Laden, Al Qaeda ou jihad. Isso vem depois.

No 11 de setembro do "World Trade Center", os sentimentos transcendem a política, e a recriação impressionantemente fiel da realidade emocional do dia produz um tipo curioso de nostalgia. Não é que eu acredite que alguém gostaria de viver aqueles momentos de agonia novamente, mas que a onda extraordinária de sentimento de fraternidade que os ataques produziram parece preciosa. E também muito distante do presente.

Stone pegou uma tragédia pública e tornou-a em algo que é ao mesmo tempo genuinamente emocionante e terrivelmente triste. Seu filme oferece uma volta angustiante ao episódio desastroso do passado recente e serve de refúgio da realidade feia e deprimente do que veio depois.

Ficha técnica:

"World Trade Center"

Dirigido por Oliver Stone; escrito por Andrea Berloff, baseado nas histórias reais de John e Donna McLoughlin e William e Allison Jimeno; diretor de fotografia, Seamus McGarvey; editado por David Brenner e Julie Monroe; música de Craig Armstrong; produção Jan Roelfs, Michael Shamberg, Stacey Sher, Moritz Borman e Debra Hill; Paramount Pictures. Duração: 129 minutos.

Com: Nicolas Cage (John McLoughlin), Michael Pena (Will Jimeno), Maggie Gyllenhaal (Allison Jimeno), Maria Bello (Donna McLoughlin), Stephen Dorff (Scott Strauss), Jay Hernandez (Dominick Pezzulo) e Michael Shannon (Dane Karnes) Deborah Weinberg

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