UOL Notícias Internacional
 

10/08/2006

Começa recontagem no México enquanto protestos prosseguem

The New York Times
James C. McKinley Jr.

em Zapopan, México
Um funcionário eleitoral estava distribuindo as cédulas como cartas de baralho gigantes em uma mesa coberta de feltro, na quarta-feira, quando a mão de Humberto Mejía investiu contra a pilha como uma cobra dando bote. "Espere!" gritou o advogado do Partido Revolucionário Democrático de esquerda.

Ele avistou uma cédula do candidato esquerdista, Andrés Manuel López Obrador, colocada erroneamente junto às cédulas de seu rival conservador, Felipe Calderón. "Nós contamos apenas dois locais de votação nesta manhã", disse Mejía, "e eu já encontrei mais dois votos para Andrés Manuel".

Pode não parecer muito, mas como Calderón venceu na apuração oficial no mês passado por apenas 243 mil entre 41 milhões de votos dados -uma margem de menos de 1%- cada voto conta.

Por todo o México, juízes, autoridades eleitorais e representantes dos partidos deram início ao lento processo de recontagem de centenas de milhares de cédulas de cerca de 12 mil seções eleitorais. Mais de 180 magistrados supervisionaram a abertura dos pacotes contendo as cédulas da eleição de 2 de julho que serão recontadas em 149 dos 300 distritos eleitorais e em 25 dos 32 Estados.

É um exercício que poderá determinar o curso do país. López Obrador e seus simpatizantes ampliaram sua campanha de desobediência civil para exigir a recontagem de todas as 130 mil urnas e estão ameaçando dificultar o governo de Calderón caso não sejam atendidos.

Na quarta-feira, centenas de esquerdistas bloquearam as entradas dos bancos na Cidade do México, um dia após tomarem os pedágios das estradas que levavam para fora da capital.

Com o aprofundamento da crise política, mexicanos de todas as vertentes políticas esperam que a recontagem parcial acabe de uma vez com as alegações de López Obrador de fraude disseminada ou as corrobore, o que poderia forçar a Justiça a ordenar uma recontagem maior.

No sábado, um tribunal eleitoral composto de sete membros encarregado de ratificar os resultados e declarar o presidente eleito, rejeitou a alegação de López Obrador de que ocorreram irregularidades suficientes na eleição para provocar a recontagem de todas as urnas. A decisão deixou os juízes com pouca margem para ordenar a abertura de mais urnas, apesar de ainda ser possível, disseram especialistas em lei eleitoral.

Em vez disso, os juízes ordenaram a abertura das urnas em cerca de 9% das seções eleitorais após concluírem que López Obrador tinha apresentado evidência de erros aritméticos e, em alguns casos, de fraude.

López Obrador reagiu furiosamente, dizendo que os juízes deveriam "retificar sua decisão". Ele anunciou na segunda-feira que não mais organizaria marchas para exigir apenas uma recontagem, mas "para mudar esta realidade de injustiça e opressão que tem feito tanto mal ao país".

Um ex-prefeito da Cidade do México, ele se queixou de que está havendo parcialidade, com o presidente Vicente Fox fazendo campanha contra ele e os magnatas dos negócios pagando por propagandas ilegais de ataque.

Ele também disse que os mesários, que são escolhidos aleatoriamente, aumentaram propositalmente os totais de Calderón nos Estados do norte, onde o Partido Ação Nacional conservador e o Partido Revolucionário Institucional moderado se uniram para impedir que López Obrador chegasse ao poder.

Calderón disse que sua vitória é legítima e qualquer recontagem é desnecessária e provavelmente causará mais mal que bem.

Especialistas em lei eleitoral disseram que apesar da recontagem parcial ser bem menos do que López Obrador queria, ela representa uma grande concessão ao seu partido. Além disso, a recontagem dos votos em quase 12 mil locais de votação poderá trazer à tona uma série de erros que daria mais força aos defensores de uma nova recontagem total.

"Isto nos dirá se é verdade ou não que houve manipulação dos números", disse Lorenzo Córdova, um professor de Direito especializado nos estatutos eleitorais mexicanos.

John Ackerman, outro professor de lei eleitoral na Cidade do México, disse: "Qualquer alteração significativa dos votos provocará um grande clamor social para ampliação da recontagem".

Mas os especialistas em lei eleitoral disseram que o tribunal eleitoral terá dificuldade para justificar a ampliação da recontagem devido à forma como seus membros redigiram sua decisão. Basicamente, a decisão diz que os votos não devem ser recontados apenas porque um partido político suspeita que a apuração foi manipulada, mas sim que deve haver evidência empírica. Os juízes teriam que alterar tal precedente para ordenar uma recontagem mais ampla.

Muitos especialistas concordam que a recontagem parcial dificilmente
alterará os resultados a menos que a teoria de López Obrador de que ocorreu uma ampla fraude esteja correta. Seriam necessárias grandes mudanças nos resultados em todas as 12 mil seções eleitorais a favor de López Obrador para superar a diferença.

No 6º Distrito Eleitoral em Jalisco, a magnitude de até mesmo uma recontagem parcial dos votos estava evidente. Após cinco horas de trabalho, o juiz José Manuel Mojica tinha conseguido abrir apenas 3 dos 247 pacotes de votos. Ele estava sentado à uma mesa revestida de feltro verde com dois advogados, um representando López Obrador e o outro Calderón, enquanto o chefe do distrito eleitoral e um dos conselheiros locais contavam os votos manualmente. Um secretário fazia as anotações.

Vários problemas surgiram, fazendo com que o juiz esfregasse sua testa. Em uma seção, foram contados 100 votos a menos do que os entregues aos
apuradores. "Eu estou perdendo muitos votos", disse Mojica aos advogados.

Em outra seção eleitoral, dois votos nulos, nos quais mais de um candidato foi marcado, foram incluídos na pilha de Calderón, algo prontamente apontado pelo advogado de López Obrador.

Além disso, o envelope que supostamente deveria guardar os votos nulos
estava faltando no pacote. Ele foi encontrado no envelope contendo votos da seção eleitoral vizinha.

Mojica também teve que lidar com as brigas entre os advogados sobre se
alguns dos votos, marcados com canetas com tinta que borrava e dobrados, eram válidos. A tinta às vezes se espalhava para o quadrado de outro candidato e os advogados disputavam a validade de várias destas cédulas, até que Mojica disse que deixaria tal decisão ao tribunal.

Ao todo, após cinco horas de trabalho, Mejía descobriu dois votos para López Obrador e um voto nulo que foi contado erroneamente para Calderón, uma mudança potencial de três votos.

Enquanto a tarde passava, a única coisa certa eram os dedos doloridos dos funcionários eleitorais encarregados da recontagem. O tribunal ordenou que a recontagem seja concluída no domingo e isto está começando a parecer pouco tempo.

"É muito difícil", disse Yolanda Hernández, a presidente do conselho do 6º Distrito. "E estamos apenas começando." George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    15h49

    0,12
    3,145
    Outras moedas
  • Bovespa

    15h57

    0,38
    64.929,68
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host