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10/08/2006

Por favor, não me faça sair de férias

The New York Times
Stephanie Rosenbloom
Em algum lugar em uma praia distante, um telefone celular toca, um BlackBerry zumbe e um laptop emite bips.

Esse é um réquiem eletrônico para as férias norte-americanas.

"Eu praticamente não saio de férias", diz Elen Kapit, agente imobiliária de Manhattan. "E quando o faço, levo o meu computador, o meu PalmTop, o meu e-mail e o meu telefone".

Os hábitos de Kapit são típicos dos trabalhadores de hoje, que procuram mensagens de e-mail no trabalho, nos intervalos de parasailing ou após darem um mergulho na piscina do hotel. Eles vêem um final de semana prolongado como uma grande excursão, e estão dispostos a sacrificar dias de férias, recusando-os.

Mas mesmo enquanto as férias norte-americanas estão morrendo, a ansiedade em torno delas aumenta, segundo pesquisas feitas com trabalhadores, divulgadas no ano passado. Os funcionários estão ponderando cada aspecto das suas férias. Eles temem que o fato de sair de férias prejudique as suas carreiras, assim como que o descanso resulte em um acúmulo de trabalho por fazer. E se, mesmo assim, eles finalmente resolvem dar uma escapada?

"Você pensa nessa grande viagem fantástica, e descobre que ela não tem nada a ver com aquilo que imaginou", diz Randi Friedman, publicitária de Manhattan que compara as expectativas quanto às férias com aquelas das noivas com relação ao casamento.

"Nada nunca será bom, porque temos um nível de expectativa demasiadamente alto", garante Friedman. "E esse é o problema".

De fato, as expectativas quanto à maravilha que deveriam ser as cada vez mais curtas férias norte-americanas atingiram níveis geralmente condizentes com as vésperas de Ano Novo.

Talvez a ansiedade associada à expectativa de diversões de férias seja inevitável, ao se levar em conta todas as incertezas quanto ao local de destino, ao que fazer, a quanto tempo ficar sem trabalhar, além da dúvida quanto à própria idéia de tirar férias. Essa ansiedade tem início muito antes da compra das passagens de avião, e ocorre por uma série de razões.

"Há um grande aumento do número de pessoas que teme perder o emprego", afirma Ellen Alinsky, presidenta do Instituto de Famílias e do Trabalho, uma organização sem fins lucrativos dedicada a pesquisas sobre a força de trabalho norte-americana. Em 1977, 45% das pessoas se sentiam realmente seguras nos seus empregos, enquanto somente 36% tiveram tal sensação nos últimos anos, diz ela, citando as pesquisas da sua organização.

Kapit, que trabalhou com propaganda durante 20 anos, antes de se tornar agente de vendas da Imobiliária Bellmarc Realty, diz que quando as grandes empresas eram mais leais aos seus funcionários, a situação era diferente.

"Como nenhuma companhia se preocupa com quem está despedindo, e com o tempo de serviço do funcionário, todos estão pisando em ovos", diz ela. "E foi por isso que eu deixei o meu emprego em uma grande corporação". Agora ela faz a sua própria agenda, e trabalha freqüentemente na sua própria casa próxima a Hampton Bays, na zona leste de Long Island.

Mas vários funcionários relutam em tirar férias por razões que pouco tem a ver com a segurança do emprego. Alguns se consideram indispensáveis. Muitos são competitivos. "Existe a sensação de que o excesso de trabalho é a insígnia da coragem", diz Galinsky, acrescentando que as pessoas muitas vezes competem para ver quem trabalha até mais tarde e por mais tempo.

Os trabalhadores ambiciosos podem até mesmo relutar em pedir que colegas os ajudem enquanto estão de férias. "Eles querem controlar tudo", explica Jennifer Sullivan, porta-voz da CareerBuilder.com, o site de empregos na Internet. "Essas pessoas provavelmente trabalham várias horas durante as férias, ou simplesmente não tiram férias".

Mas não são os cruéis patrões dickensianos ou as desalmadas políticas corporativas que impedem os trabalhadores de desfrutar - ou pior, de tirar - as suas férias.

"A maioria das pessoas trabalha sem parar porque quer", diz Galinsky. "Isso é basicamente algo que estamos fazendo com nós mesmos".

Ambição, medo de ser despedido, sensação de indispensabilidade e um sentimento auto-imposto de culpa ajudam a explicar por que os trabalhadores não usam todos os dias de férias a que têm direito, e por que muitos preferem ficar longe do trabalho menos de duas semanas, mesmo que possam gozar de um período bem maior de férias.

Erin Krause, porta-voz do website de viagens Expedia.com, que publica a pesquisa anual online Privação de Férias, afirma: "Os norte-americanos não estão utilizando todos os dias de férias disponíveis, e esta tendência parece estar se agravando. Não estamos tirando vantagem do tempo que os nossos patrões estão nos concedendo".

Isso é especialmente surpreendente ao se considerar que os trabalhadores de tempo integral dos Estados Unidos contam com uma média de 3,9 semanas de férias e feriados anualmente. Mas isso é muito pouco quando comparado aos países europeus, incluindo o Reino Unido (6,6 semanas), a França (sete semanas) e a Itália (7,9 semanas), segundo estatísticas de 2004 compiladas pela Organização para o Desenvolvimento e a Cooperação Econômica.

Um estudo divulgado no ano passado pelo Instituto de Famílias e do Trabalho revelou que os trabalhadores norte-americanos têm uma média de 16,6 dias de férias pagos, mas que mais de um terço desses indivíduos (36%) não pretende gozar férias integrais (os dados para a pesquisa realizada com 1.003 adultos que estavam empregados em tempo integral ou em meio expediente foram coletados pela Harris Interactive pelo telefone, entre 7 de outubro e 15 de novembro de 2004. A pesquisa tem uma margem de erro de 2% para mais ou para menos).

O estudo também revelou que somente 14% dos norte-americanos tiram férias de duas semanas ou mais. "Eu não creio que tiraria mais de duas semanas de férias, a menos que não tivesse nada para fazer", diz Kapit. "E neste caso eu provavelmente me preocuparia com a possibilidade de nunca mais ter nada para fazer".

Nem mesmo aqueles que estão no topo da pirâmide corporativa, e que contam com generosos períodos de férias, usam necessariamente esses dias de lazer.

"A realidade é que, quanto mais responsabilidade a pessoa tem, menos tempo de férias ela tira", escreveu no ano passado Anderson Cooper na revista "Details". "A pessoa tem muito a perder. Estou convencido de que um grande motivo pelo qual tenho o meu próprio programa na CNN é o fato de eu sempre ter me prontificado a substituir pessoas que estavam de férias. Agora, se eu deixar a minha cadeira de âncora por muito tempo, tenho medo de que Eve Harrington pegue o meu lugar".

Mas mesmo quando os trabalhadores superam a sua ansiedade quanto à duração das férias, muitos se deparam com a angústia da separação - pensando com que freqüência devem manter contato com o escritório.

Cerca de uma em cada cinco pessoas faz algum trabalho durante as férias, segundo o estudo do Instituto de Famílias e Trabalho.

A redução do número de funcionários, a volatilidade do mercado de trabalho e a mudança do perfil do país, de uma economia industrial para um sistema baseado nos serviços e no conhecimento, ajudaram a criar aquilo que Galinsky descreve como uma modalidade de trabalho "fogo rápido". As pessoas esperam respostas instantâneas às suas mensagens de e-mail a todo momento, estando ou não de férias. A fronteira entre o trabalho e a vida doméstica é atualmente fluida, diz ela, acrescentando: "Nós planejamos a vida fora do trabalho da mesma forma que planejamos a vida no emprego".

E isso pode não ser uma coisa boa. O estudo do Instituto de Famílias e Trabalho revelou que funcionários que trabalham excessivamente estão mais propensos a cometer erros, e a ficar com raiva dos patrões e dos funcionários que não trabalham tanto. Esses funcionários também têm mais tendência a apresentar níveis altos de estresse, a experimentar sintomas de depressão clínica, a ter problemas de saúde e a negligenciar os cuidados consigo.

E muitos funcionários continuam trabalhando durante as férias para garantir que não ficarão soterrados de trabalho ao retornarem.

"As férias não proporcionam aquela chance de relaxar e recarregar as baterias", diz Sullivan, que supervisionou o estudo anual sobre férias do CareerBuilder.com.

Sair de férias não é uma garantia de relaxamento. Segundo o estudo do Instituto de Famílias e Trabalho, 50% dos norte-americanos precisam de dois dias para começar a relaxar, e 50% precisam de mais de dois dias.

E existe ainda a questão das expectativas inflacionadas. Dois anos atrás, Friedman, a publicitária de Manhattan, agendou as suas primeiras férias oficiais em quatro anos. Em breve ela estava sofrendo de um caso grave de síndrome de expectativa de férias.

Friedman, que adora o seu trabalho e que se define em grande parte por ele, imaginava céus ensolarados e temperaturas tropicais em Cabo San Lucas, no México. Mas, quando chegou lá, o céu estava nublado, as temperaturas noturnas ficavam abaixo dos 20ºC e choveu durante um dia inteiro. A sua fantasia de férias não incluía o uso de suéteres e passeios debaixo de uma sombrinha. "Eu me senti terrível", confessa a publicitária.

Sullivan diz que os funcionários de hoje colocam muita pressão sobre si no sentido de terem as melhores férias do mundo.

"Eles programam uma série de atividades, todo mundo precisa estar feliz e sorrindo, e o clima tem que estar perfeito", diz ela.

Como diz Friedman, "Essa é a sua viagem única".

Friedman admite que, assim como muitas pessoas obcecadas por trabalho, ela é a pior inimiga das suas próprias férias. Tão logo o avião aterrissou no México, ela checou o seu BlackBerry e o seu telefone celular, para ver se não havia nenhuma mensagem do trabalho. Ao chegar ao hotel, a primeira coisa que fez foi localizar o centro de negócios. A seguir, ela passou grande parte dos seus dois primeiros dias de férias trancada no quarto, desejando que o tempo estivesse mais quente e ensolarado.

Mas ela recebeu um golpe bem diferente no hotel, ao ligar a televisão e ver que um tsunami havia devastado a Ásia. De repente, a sua fantasia exagerada de férias se tornou insignificante.

"Foi aí que coloquei as coisas em perspectiva", conta Friedman.

Ela não deixou de checar o BlackBerry e o telefone celular durante todo o período que passou em Cabo San Lucas. Mas Friedman acabou se divertindo, apesar dos suéteres.

"A vida é muito curta para que não apreciemos todos os momentos", diz ela. "Descobri que o motivo pelo qual trabalho tão arduamente são essas férias". Danilo Fonseca

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