UOL Notícias Internacional
 

10/08/2006

Será que ela pinta?

The New York Times
Natasha Singer

em Nova York
Escondido em um segundo andar no meio de Manhattan, o Ted Gibson é o tipo de salão onde as pessoas sentem-se confortáveis em pedir aos cabeleireiros conselhos pessoais. Mas no mês passado, Alexandra Meyers, britânica que mora em Nova York, encontrou-se fazendo perguntas incomuns ao seu colorista, Jason Backe.

"Perguntei a ele: 'A tinta de cabelo pode causar câncer ou outras doenças sérias? Seria mais seguro se eu voltasse a usar uma cor mais escura, para não ter que pintar os cabelos com tanta freqüência?'" lembra-se Meyers, morena natural que disse que pinta meticulosamente seu cabelo de louro a cada duas semanas para cobrir as raízes escuras. "Eu não quero ser alarmista, mas acho que temos que ter certeza que os procedimentos de beleza não necessários não fazem mal à saúde."

Meyers começou a reconsiderar sua cor de cabelo no mês passado, depois que viu um segmento na ABC "The View", sobre um novo estudo que concluiu que o uso da tinta de cabelo pode aumentar ligeiramente o risco de ter linfoma, um grupo de cânceres do sistema linfático. Enquanto alguns epidemiologistas advertiram que as conclusões não são causa de preocupação imediata, as manchetes dos tablóides como "Vale a pena morrer pelo visual?" fizeram os clientes correrem aos cabeleireiros para se assegurarem.

"Fui bombardeado de perguntas, o que é estranho porque normalmente as pessoas só fazem questões sobre saúde se estiverem grávidas", disse Backe, concorrido colorista cujo serviço custa em média US$ 500 (em torno de R$ 1.100). "Espero que a tinta de cabelo não dê câncer, porque fico coberto nisso todos os dias."

O alarme nacional foi gerado pelas notícias do estudo que foi recentemente publicado no American Journal of Epidemiology, sobre uma possível ligação entre tintura de cabelo e câncer. A notícia ressaltou a disparidade entre a pesquisa médica e sua cobertura na imprensa. Apresentadores de televisão como Matt Lauer, do "Today", estimularam o medo dizendo ao público que 10% dos casos de linfoma nas mulheres podem ser causados pelo uso de tinturas de cabelo. Mas, apontando para décadas de pesquisa com tinta de cabelo, muitos epidemiologistas dizem que o novo estudo não é causa de preocupação.

"Se os resultados forem verdadeiros, e esse é um grande se, significam que, no grande esquema da vida, pintar os cabelos pode envolver um remoto risco à saúde, menor do que atravessar a rua, andar de carro, não usar cinto de segurança ou dirigir bêbado. Mas esse é um grande se, porque ninguém provou que a tintura de cabelo causa linfoma", disse Joseph K. McLaughlin, presidente do Instituto Internacional de Epidemiologia, centro de pesquisa biomédica em Rockville, Maryland.

Ainda assim, louras, morenas e ruivas falsas estão se perguntando se estariam dispostas a passar para o preto ou -imagina- até o grisalho. Para os que vêem a tintura de cabelo como parte de sua personalidade, juventude e atratividade, a mera sugestão de que o tratamento de beleza pode ser arriscado parece constituir uma ameaça à auto-imagem.

"Para qualquer mulher que depende da tintura de cabelo para criar uma identidade à qual as pessoas respondam positivamente, oferecendo empregos, namorado ou aprovação social, ter que mudar a cor do cabelo é como dizer que terá que jogar fora parte de você", disse Rose Weitz, professora de estudos da mulher na Universidade Estadual do Arizona que é autora de "Rapunzel's Daughters: What Women's Hair Tells Us About Women's Lives" (As filhas de Rapunzel: o que os cabelos das mulheres contam sobre suas vidas).

A tintura de cabelo já foi considerada um tratamento de beleza arriscado pelas americanas, mas tornou-se popular nos anos 60 quando a Clairol começou a fazer anúncios de tintas para cabelo para serem usadas em casa, com slogans como: "Será que ela pinta? Uma cor de cabelo tão natural que somente seu cabeleireiro sabe com certeza!"

Atualmente, 54% das americanas entre 13 e 69 anos pintam os cabelos, de acordo com a Clairol. As americanas gastaram cerca de US$ 1,6 bilhão (em torno de R$ 3,52 bilhões) em tintas para o cabelo em 2005, de acordo com a Euromonitor International, firma de pesquisa de mercado que acompanha a venda de cosméticos.

O alarme sobre a tintura de cabelo soou pela primeira vez em 1975, quando Bruce N. Ames, professor de bioquímica da Universidade da Califórnia em Berkeley publicou um artigo que concluiu que 89% das tintas permanentes de cabelo testadas causavam danos genéticos em bactérias. Ele defendeu que mais estudos fossem feitos para saber as fórmulas poderiam ser carcinogênicas para seres humanos.

Em 1979, o Departamento de Alimentos e Drogas (FDA) pediu aos fabricantes que colocassem nos rótulos de seus produtos que continham um componente suspeito a advertência: "Atenção - contém um ingrediente que pode penetrar na pele e causa câncer em animais de laboratório." Em vez disso, as empresas preferiram remover o ingrediente, um derivado de alcatrão de carvão, e a agência reconsiderou a exigência da advertência no rótulo.

De acordo com o site da agência, vários outros ingredientes que podem ser usados em fórmulas de tinas para cabelo causaram câncer em animais e penetram na pele humana. A indústria de cosméticos diz que as tinturas são seguras, enquanto grupos ambientais alegam que podem ser arriscadas.

Se há algum risco, as pesquisas até agora demonstram ser pequeno. Entre várias dezenas de estudos publicados nas últimas duas décadas, alguns demonstraram ausência de ligação com linfoma. Em outros, a incidência de linfoma parecia ser maior entre as pessoas que fizeram uso prolongado de tintas permanentes e escuras (que usam maiores concentrações de tinta e criam uma reação química maior do que os tons de louro temporários) ou que começaram a pintar o cabelo antes das mudanças nas fórmulas.

Uma análise de 79 estudos com tinturas para o cabelo, publicada no ano passado na revista Journal of the American Medical Association, revelou que o uso de tintura para cabelo "não tem efeito" sobre o risco de câncer de mama ou bexiga e que tem um "efeito limítrofe" sobre o risco de linfoma. A revisão concluiu que, apesar de não ter sido provado que a tintura de cabelo leva ao câncer, a ligação merece maior investigação. Os autores do artigo defenderam mais estudos com cabeleireiros, que sofrem exposição mais intensa e freqüente às tinturas do que os consumidores.

"O peso geral das evidências científicas é muito convincente de que a tintura é segura", disse John Bailey, vice-presidente executivo de ciência da Cosmetic, Toiletry and Fragrance Association, um grupo da indústria com base em Washington. "A indústria nunca usaria ingredientes que tivessem alguma sombra de preocupação sobre segurança."

O estudo divulgado no mês passado, entretanto, voltou a despertar o medo.

Os pesquisadores europeus entrevistaram 2.300 pacientes com linfoma e cerca de 2.400 pessoas sem linfoma. O estudo revelou que os que já haviam usado tintura tinham 1,19 vezes mais chance de ter linfoma do que os que nunca haviam usado esses produtos. Os que pintavam o cabelo antes de 1980 apresentaram 1,37 vezes mais linfomas.

"Esses números são assustadores", advertiu os telespectadores Ann Curry, apresentadora do "Today".

Mas muitos epidemiologistas consideram os índices negligenciáveis.

"Comparados com os fatores de risco para outras doenças, esses números são muito pequenos", disse Barnett Kramer, diretor para prevenção de doença dos Institutos Nacionais de Saúde em Bethesda, Maryland. Por comparação, ele disse, fumar provoca entre 10 e 60 vezes mais chance de ter câncer de pulmão.

Como o estudo depende da memória de longo prazo das pessoas em relação aos seus hábitos, a conclusão de que a tintura de cabelo está ligada ao linfoma pode se tornar errada, acrescentou Kramer.

Silvia de Sanjose, pesquisadora do Instituto Catalão de Oncologia em Barcelona e principal autora do estudo, disse em entrevista telefônica que as pessoas devem ficar aliviadas em vez de preocupadas com seus resultados.

"Se nossos dados estiverem corretos, temos certeza que a tintura de cabelo não é um fator de risco importante para linfoma", disse Sanjose. Ela pinta os cabelos há cinco anos e planeja continuar, disse ela. "As pessoas deveriam estar felizes e confortadas que o efeito observado foi menor."

Dr. Michael J. Thun, diretor de pesquisa epidemiológica da Sociedade de Câncer Americana em Atlanta, disse que, se o estudo se provar correto, significa que as mulheres americanas que pintam os cabelos podem aumentar ver seu risco de ter linfoma não Hodgkin aumentar de 13,6 de cada 100.000 mulheres por ano para cerca de 17 entre cada 100.000 por ano.

"A incerteza quanto ao risco da tintura de cabelo é substancial", disse Thun.

Ainda assim, como muitos americanos pintam os cabelos, é uma questão de saúde pública que merece estudo, disse Kathy J. Helzlsouer, epidemiologista e professora de oncologia da Johns Hopkins University.

Certamente, muitos consumidores estão querendo ter certeza.

"Eu definitivamente fiquei confusa com as pessoas perguntando: 'É seguro pintar o cabelo? Meu cabelo vai me matar?'", disse Kathy Galotti, do salão de Louis Licari em Manhattan. Durante seus 24 anos como colorista, ela teve que responder perguntas similares toda vez que surgia uma nova tinta, disse ela. "Talvez gere alguma preocupação, mas não parece mudar os padrões de comportamento das pessoas."

Sentada em uma cadeira de cabeleireiro com seus papelotes, Margot Weinshel, psicóloga de Manhattan, concordou.

"Será assustador o suficiente para que eu pare de pintar meu cabelo e decidir parecer velha?" disse Weinshel, 58, que pinta seu cabelo mensalmente há 25 anos. "Até provarem que há uma ligação direta, não estou preocupada."

Jacki Donaldson, blogger de Gainesville, Flórida, que discute câncer de mama no site thecancerblog.com, disse que pacientes de câncer talvez mudem sua rotina. Depois de ver o segmento no "Today", ela decidiu parar de pintar seus cabelos.

"Recentemente pintei meu cabelo que nasceu depois da quimioterapia de marrom", escreveu. "Acho que vou deixar minhas mechas artificiais ruivas desbotarem e aproveitar o cabelo moreno que cobriu minha careca."

Outros, como Meyers do Ted Gibson, estão esperando outras pesquisas antes de voltar a suas cores naturais.

"Tantas coisas que fazemos diariamente -passar as férias sob o sol, usar produtos químicos, tomar suplementos- têm riscos", disse Meyers. "Gostaria de ver alguma prova verdadeira sobre a tintura de cabelo antes de mudar minha rotina."

Beleza e bebê podem coexistir

Quando clientes grávidas perguntam se pintar o cabelo é seguro, Julie Deane, diretora de cores do Grettacole Salon em Wellesley, Massachusetts, imediatamente sugere que perguntem aos seus obstetras.

"Alguns médicos pedem que parem de pintar o cabelo durante a gravidez ou no primeiro trimestre", disse Deane. Outros sugerem que as clientes evitem as tintas que possam tocar no couro cabeludo, ou limitar as cores a algumas luzes, disse ela.

Esses médicos estão sendo cuidadosos. De acordo com um guia publicado pelo Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas, uma associação médica de Washington, tintas de cabelo são consideradas seguras mesmo na gravidez.

"Não há evidências que mostrem que as substâncias químicas das tinturas de cabelo na pele da mãe atinjam o bebê", disse Gideon Koren, diretor do programa Motherisk, centro especial do Hospital para Crianças Doentes em Toronto, que pesquisa e aconselha as mulheres sobre riscos de produtos químicos, drogas e doenças durante a gravidez.

Ainda assim, Koren algumas vezes aconselha as mulheres ansiosas sobre possíveis exposições químicas a evitarem colorir os cabelos durante o primeiro trimestre, uma época delicada do desenvolvimento.

"Nunca se mostrou que elementos da pintura de cabelo usada pela mãe afetam o bebê", disse Koren. "Mas se a criança depois desenvolver problemas, a mãe pode procurar uma causa e culpar-se por usar tintura de cabelo."

O site do FDA oferece conselhos práticos para minimizar a exposição: usar luvas quando aplicar o produto, não deixar a tintura na cabeça por mais tempo que necessário e enxaguar toda a tinta.

Para acomodar as preocupações de mulheres grávidas, alguns cabeleireiros como Deane colocam o produto cuidadosamente para que não toque no couro cabeludo -apesar de deixar ligeira sombra de raízes não pintadas.

"Não acho que vai pegar, nem para as grávidas", disse Deane. Deborah Weinberg

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