UOL Notícias Internacional
 

11/08/2006

Israel adia ataque maior enquanto ONU busca acordo

The New York Times
Steven Erlanger e Warren Hoge*

em Jerusalém
Israel advertiu moradores do Sul de Beirute na quinta-feira
(10/8) para deixarem suas casas e adiaram sua operação militar enquanto diplomatas buscavam completar negociações em torno de uma resolução da ONU para deter os combates.

Em Nova York, embaixadores dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU -Reino Unido, China, França, Rússia e EUA- não conseguiram chegar a um acordo na quinta-feira sobre a resolução. Mas o embaixador americano John R. Bolton disse que o trabalho continuaria noite adentro e que a votação poderia ser feita na sexta-feira.

Os embaixadores estavam se concentrando em uma fórmula que faria os israelenses partirem em fases, enquanto o Exército libanês e uma força da ONU, Unifil, entrariam na área.

Um alto membro do governo Bush disse na quinta-feira à noite que as posições francesa e americana eram próximas, e que portanto a secretária de Estado Condoleezza Rice iria para Nova York na manhã de sexta-feira para tentar fechar o acordo.

Mas Vitaly I. Churkin, embaixador russo, disse que seu país tinha perdido a paciência com a demora das negociações enquanto pessoas morriam e tinha apresentado sua própria resolução pedindo um "cessar-fogo humanitário" de 72 horas.

Bolton criticou a medida russa como "inútil" e acrescentou: "Não estamos jogando jogos, isso é muito sério".

O exército israelense reuniu milhares de soldados na fronteira, esperando uma ordem do primeiro ministro Ehud Olmert para levar a luta contra a Hezbollah até o rio Litani, cerca de 25 km ao norte, para reduzir o número de foguetes que podem atingir cidades israelenses.

Mas a ordem não foi dada. Autoridades israelenses estão esperando que a ameaça de escalonamento da ofensiva produza uma solução diplomática que mantenha os combatentes da Hezbollah ao norte do rio Litani e leve ao desmantelamento da milícia.

O ministro de defesa de Israel, Amir Peretz, disse que o esforço militar tinha a intenção de promover o diplomático. "Estamos fazendo tudo para permitir que esses dois esforços se complementem", disse à rádio pública de Israel. "A operação militar pode criar o ambiente diplomático e uma nova situação."

Se a diplomacia fracassar, Israel vai "usar todos os instrumentos" para vencer a guerra contra a Hezbollah, disse Peretz.

No entanto, uma autoridade israelense disse que o governo estava duvidando que as discussões diplomáticas entre a França e os EUA, agindo respectivamente pelo Líbano e Israel, produziriam uma resolução satisfatória.

Israel está insistindo que uma força multinacional robusta opere junto com o exército libanês, mesmo que seja uma recriação da Unifil com um mandato novo e agressivo, disse a autoridade, que não foi autorizada a falar publicamente sobre o assunto.

Churkin disse que o Líbano foi contra a criação dessa força sob o capítulo VII da Carta da ONU, que autoriza o uso pleno de poderio militar. Bolton disse que a França e os EUA ainda estavam em contato com autoridades libanesas e esperavam resolver esse ponto até sexta-feira.

Israel também insiste que suas tropas não deixem o Sul do Líbano até a chegada de uma força multinacional, porque não se pode ser esperar que o fraco exército libanês confronte a Hezbollah sozinho.

Avi Dichter, ministro de Israel, disse que o momento de uma ampla ofensiva "depende em grande extensão do que está acontecendo em Nova York".

O ministro de turismo Isaac Herzog disse à Rádio Exército: "Há um processo político acontecendo e nosso sentido de responsabilidade nos diz para dar-lhe um pouco mais de tempo."

Apesar da atividade diplomática, a guerra não parou na quinta-feira. Tropas israelenses consolidaram seu controle sobre Merj'Uyun, aldeia cristã da qual o Hezbollah estava lançando foguetes, disse Israel. Ela foi dominada durante a noite com pouca resistência.

Soldados israelenses também cercaram a aldeia de Al Khiam, fonte de ataques de mísseis nas cidades de Kiryat Shmona e Metulla. Um soldado israelense morreu na luta na aldeia de Qlaia, quando um tanque foi atingido por um míssil.

Aviões de guerra israelenses lançaram panfletos sobre Beirute aconselhando moradores de três subúrbios do Sul -Shiya, Burj al Brajneh e Hayy al Sollom- a deixarem suas casas. Os panfletos, assinados pelo "Estado de Israel", diziam que os israelenses "pretendem expandir suas operações em Beirute" com uma "resposta dolorosa e forte". Eles avisaram: "Para sua segurança, você deve evacuar esses bairros imediatamente e todo local onde existam membros ou colaboradores da Hezbollah ou que executem operações terroristas."

Shiya, área pobre xiita a 3 km do centro de Beirute, foi bombardeada várias vezes. Mais de 40 pessoas morreram ali na segunda-feira, depois que um prédio residencial foi atingido na hora do jantar. Israel disse que o local abrigava líderes da Hezbollah.

Israel também lançou foguetes contra uma torre de rádio desativada no centro de Beirute e antenas abandonadas da estação de rádio oficial do Líbano em Amsheet, ao Norte de Beirute, aparentemente acreditando que o Hezbollah estava transmitindo seus programas a partir desses locais.

Hezbollah lançou mais de 140 foguetes contra Israel na quinta-feira e novamente matou árabes israelenses. Um foguete caiu entre duas casas na aldeia israelense de Dir al Assad, perto de Carmiel, matando Miriam Assadi,26 e seu filho Fathi, 5. Outro filho, de 4 anos, ficou gravemente ferido, assim como a sogra. Um vizinho, Nabil Omar, 34, foi ferido levemente pelos estilhaços e recebeu tratamento em um hospital em Nahariya. Ele disse: "O foguete caiu entre nossas casas, mas não ouvimos nada chegando."

Outros foguetes causaram incêndios em florestas da Galiléia e Colinas de Golan. O maior incêndio foi perto de Safed, e a fronteira ficou nebuloso com a fumaça em um dia claro e ensolarado.

Na quinta-feira, Jan Egeland, membro dos esforços humanitários da ONU, chamou de "desgraça" o fato de Israel e a Hezbollah não pararem de lutar tempo o suficiente para permitir que a assistência chegasse aos civis presos no Sul do Líbano. O Programa Mundial de Alimentos advertiu de uma crise de escassez de comida iminente por causa do deslocamento da população e da colheita interrompida.

Agências de assistência também vêm advertindo sobre a dura situação de muitos hospitais do Sul, que estão ficando sem alimentos, remédios e combustível para os geradores.

O Comitê Internacional da Cruz Vermelha disse que recebeu garantias de Olmert que Israel faria "todo o possível" para permitir a entrada de ajuda, enquanto o grupo Médicos Sem Fronteiras disse que ia continuar a ajudar as pessoas no Sul do Líbano, apesar das advertências israelenses de que todo o tráfego veicular ao sul do rio Litani poderia ser alvo.

Rowan Gillies, presidente da Médicos Sem Fronteiras, disse em Beirute:
"Proibir todas as formas de movimento, sem distinção, levará a ainda mais sofrimento e mortes de civis."

O governo israelense recebeu advertências de todos os lados na quinta-feira.Irritados com a decisão do gabinete de expandir a ofensiva, o Peace Now e o Partido Meretz decidiram unir-se em uma manifestação de grupos pacifistas na frente do Kirya, o Pentágono de Israel, em Tel Aviv.

Yariv Oppenheimer, líder do Peace Now, disse que a decisão do Líbano de levar seu exército para a fronteira e a votação do gabinete israelense tinham mudado a forma de pensar de algumas pessoas. "É uma guerra justa, mas há uma forma de terminá-la, e o governo não está usando o caminho certo para isso", disse ele. "Estamos pedindo ao governo que aceite a iniciativa libanesa, promova-a e use-a para pôr fim à guerra."

Galia Golan, fundadora do Peace Now, disse: "O que quer que tenha acontecido no início da guerra, as pessoas agora acham que basta, que é hora de parar e encontrar um caminho político."

Apenas 500 a 700 pessoas participaram da manifestação. Ainda assim, o veterano Uri Avnery disse: "O que está acontecendo aqui hoje é o início de uma mudança radical na opinião política."

No entanto, na direita, Benjamim Netanyahu, líder do partido Likud, advertiu que o governo deve realizar seu objetivo, ou seja, de desarmar o Hezbollah.

"Não devemos deixá-los intactos, prontos para atacarem de novo", disse ele em Jerusalém. "Eu apóio os objetivos do governo, atenho-me a eles e espero que o governo também".

Netanyahu disse que ia deixar as críticas para depois da guerra, mas instou Olmert a "cortar o tentáculo" da Hezbollah e criticou os que não viam a mão do Irã no controle da Hezbollah e do Hamas. O Irã está trabalhando com armas nucleares, acrescentou. "Eventualmente, você tem que enfrentar o lobo, e esse lobo tem dentes nucleares e vai morder, disso tenho certeza."

As pessoas do Líbano "Têm que escolher -alinham-se com o Hezbollah ou contra o Irã e a Síria?" disse ele. É importante para o Ocidente que Israel vença esta guerra, disse.

Netanyahu observou que suas críticas contra a retirada unilateral do Líbano em 2000 e de Gaza no último verão se provaram acuradas e avisou Olmert que os planos para outra retirada da Cisjordânia estavam mortos. "Não vai acontecer", disse ele.

No que foi visto como ataque político, a polícia disse que um turista italiano de 25 anos tinha sido morto perto de um portão da Cidade Velha no Leste de Jerusalém, segundo a Associated Press. O homem foi esfaqueado pelas costas por um atacante que fugiu.

Em Al Ghaziye, Líbano, uma cidade de maioria xiita ao sul de Sidon, moradores enterraram nove pessoas mortas há dois dias quando suas casas foram bombardeadas.

Entre os mortos estavam membros da família Khalife: Mahmoud, farmacêutico; sua esposa, Ibstisam; e seus três filhos, Hussein, 12, Fátima, 5, e Ahmad, 3.

Os corpos foram levados a Husseiniyeh, centro religioso xiita, para a lavagem ritual. Dentro da mesquita, a maior parte dos móveis tinha sido removida para dar lugar aos mortos.

Os caixões então foram transportados em uma van cinza para o cemitério da cidade, com vista para o Mediterrâneo. Poucos foram ao enterro, e os que foram estavam preocupados com ataques aéreos israelenses durante o serviço.

Quando o pequeno corpo de Fátima chegou, o homem perguntou ao imame: "O senhor poderia enterrá-la perto de seu irmão?" "Sim", disse ele. "Faz pouca diferença."

*Steven Erlanger de Jerusalém e Warren Hoge da ONU. Jad Mouawad colaborou de Beirute, Líbano; Greg Myre de Nahariya, Israel e Dina Kraft de Tel Aviv Deborah Weinberg

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