UOL Notícias Internacional
 

11/08/2006

Na Califórnia, a morte surpreendeu até aqueles há muito habituados ao calor

The New York Times
Jennifer Steinhauer

em Bakersfield, na Califórnia
No último dia da sua vida, Patricia Miller-Razor fez as mesmas coisas que costumava fazer de dois em dois dias nesta cidade esturricada pelo sol, ainda que a temperatura tivesse subido.

Ela vestiu o seu característico conjunto de moletom, e pedalou a sua bicicleta até o Mercado Green Fog. Ela examinou as suas pinturas a óleo e as suas esculturas feitas com sementes de abacate, repelindo sistematicamente as súplicas dos familiares para que ligasse o aparelho de ar-condicionado na sua casa quentíssima.

Miller-Razor, 77, foi encontrada morta pelo filho, deitada de lado na sua cama, vítima de insolação. Cerca de 140 californianos tiveram um fim similar, rápido e terrível, durante a onda de calor do mês passado. Tal número de mortes causadas por temperaturas elevadas não havia sido presenciado na Califórnia desde 1955, uma época na qual os aparelhos de ar-condicionado não eram algo tão comum.

Essa mortandade extraordinária, em um lugar no qual a maioria dos moradores está há muito acostumada com aqueles dias de verão com temperaturas de mais de 40ºC, chocou e enervou autoridades estaduais e municipais, fazendo com que o governador Arnold Schwarzenegger montasse uma força-tarefa para estudar como evitar tais fatalidades no futuro.

A duração da onda de calor que se arrastou sem trégua durante duas semanas surpreendeu os institutos de medicina legal dos condados - alguns dos quais não contavam com macas ou geladeiras para lidar com os corpos -, drenou os recursos energéticos do Estado e causou grandes prejuízos à agropecuária, além de ter provocado inúmeras mortes.

Embora vários dos que morreram tivessem muito em comum com aqueles que pereceram durante as ondas de calor deste verão na cidade de Nova York e em outros locais - eram idosos, enfermos ou usavam frugalmente os seus aparelhos de ar-condicionado -, vários outros apresentavam o estilo de vida e os hábitos do povo da região árida do sudoeste dos Estados Unidos.

Cinco sem-teto, há muito acostumados a uma vida em barracas no deserto, morreram em suas tendas. E seis homens foram achados mortos após tentarem cruzar ilegalmente a fronteira com o México perto de San Diego. Um tratorista que durante décadas arou a terra em uma fazenda de produção de passas, indiferente aos longos dias de calor, vestindo camisas de mangas compridas, morreu na propriedade.

Os verões no Vale Central da Califórnia são aquilo que os invernos representam para o norte do Estado de Maine. Se você mora na região, se acostuma com a temperatura, se prepara para ela e, até certo ponto, ela deixa de incomodá-lo. Como habitante do centro agrícola do Estado, o povo daqui está acostumado a trabalhar nos campos durante os dias de calor, a fazer tarefas nos jardins e a levar a vida normalmente, sabendo que as noites trarão um alívio para o calor seco característico do dia.

Mas, durante 13 dias consecutivos em julho, as coisas se passaram de maneira diferente.

"Essa onda de calor foi marcada por três coisas", afirma Eric A. Weiss, professor de medicina de emergência do Centro Médico da Universidade Stanford, e especialista em doenças provocadas pelo calor.

"Um problema foi a duração do fenômeno, algo que é sempre importante devido ao efeito cumulativo. Em segundo lugar, as temperaturas bateram recordes, E, finalmente, o nível do termômetro não baixou à noite". Weiss diz ainda que a disseminação crônica de desinformação sobre os sinais da insolação pode ter provocado um número maior de enfermidades ou de mortes.

Embora os idosos sempre sejam especialmente propensos à morte durante as ondas de calor inclemente, nem a metade daqueles que morreram na Califórnia tinha mais de 70 anos, segundo uma compilação dos mais recentes relatórios dos institutos de medicina legal, muitos dos quais ainda não foram concluídos.

Em San Bernardino County, próximo a Los Angeles, por exemplo, a média de idade das dez pessoas que morreram foi de 45 anos. Houve um homem de 49 anos que entrou no carro para ouvir música, adormeceu e foi encontrado morto mais tarde. A temperatura no interior do automóvel era de 60ºC. Os corpos de dois homens com pouco mais de 40 anos foram achados ao relento. Um trabalhador da construção civil de 30 anos de idade, que vinha sofrendo de dores de cabeça durante toda a semana, deixou o trabalho e seguiu para o hospital, morrendo 20 minutos depois.

"Isso foi uma surpresa para nós. Algo que fez com que realmente abríssemos os olhos", afirma Sandy Fatland, porta-voz do instituto médico legal do Condado de San Bernardino. "Talvez quando as pessoas cheguem à meia-idade, deixem de ter alguém por perto para fazer com que tomem conta de si. E, ao serem deixadas por conta própria, elas simplesmente não tomam as precauções devidas".

Em um Estado no qual é comum que as pessoas passem longas horas cuidando das plantações e trabalhando nas colheitas - e muitos desses indivíduos são trabalhadores jovens e ilegais do México - Richard Helmuth, que trabalhou durante quase 60 anos na Del Ray Packing Company, a leste de Fresno, não agüentou e morreu. O instituto médico legal de Fresno County atribuiu a morte de Helmuth ao seu trabalho. Gerald Chooljian, co-proprietário da fazenda de produção de passas, disse que Helmuth, 79, saiu do trator e se sentou no seu carro, no qual foi encontrado morto, mais tarde, por um outro funcionário.

Chooljian estava acostumado aos hábitos estranhos de Helmuth, à sua preferência pela solidão, à sua recusa de beber água que não fosse a da sua casa e à sua opção por trabalhar sem proteção contra o sol.

"Ele usava camisas de mangas compridas e dizia que não queria o guarda-sol. Eu achava que, se uma pessoa trabalha nisso há 50 anos, ela deve saber o que está fazendo", conta Chooljian. "Ele me ensinou a dirigir tratores. Eu o respeitava. Ele era o seu próprio patrão. Fazia o que queria e quando queria. Ele sempre disse que queria morrer em um trator".

Muitas vítimas idosas foram vítimas de suas escolhas pessoais, e não da necessidade. Na casa de um homem idoso em Bakersfield, na qual o ar-condicionado foi encontrado quebrado, o xerife descobriu US$ 25 mil em dinheiro vivo, e os familiares disseram que havia ainda mais dinheiro na casa.

Em Fresno, Araxie Long, 82, e o filho Carl, 53, morreram na casa que compartilhavam. Os seus parentes haviam se acostumado a suplicar aos dois que ligassem o ar-condicionado.

"Eles detestavam o ar-condicionado", diz Diane Rowe, uma das filhas de Araxie Long. "Não era uma questão de falta de dinheiro. Eles simplesmente não suportavam o aparelho. Agora eu só consigo pensar no belo sorriso do meu pai e do meu irmão".

Aqui em Bakersfield, Miller-Razor se recusava há muito tempo a usar o condicionador de ar, alegando que o ar frio lhe provocava dores de cabeça (ela também alegava que suco de cenoura tornava o uso de óculos desnecessário, e construiu pequenos esconderijos na sua casa, colocando ela própria os tijolos, a fim de espionar os vizinhos, segundo conta a sua nora).

"Ela fazia as coisas sempre da sua maneira", diz Amy Razor. "A casa ficava fechada, tendo apenas dois pequenos ventiladores de 15 centímetros de diâmetro. A temperatura lá dentro era provavelmente de cerca de 54ºC. Ela nos dizia que sabia se adaptar, e que era capaz de tomar conta de si".

Algumas pessoas não tiveram escolha. Em um prédio de apartamentos com três unidades em Modesto, dois dos três moradores - ambos homens idosos que tinham poucas pessoas para tomar conta deles - morreram em suas casas sem ar-condicionado. Um deles era Eston Baker, 72, um veterano que gostava de ajudar como voluntário nas tarefas de um asilo local, e o outro, Curtis Floray, instalou um microfone na porta de entrada para que os visitantes se apresentassem.

"Alguns militares, quando chegam aos 65 ou 70 anos de idade, parecem desmoronar", diz Jeannie Riley, enteada de Baker. "Eu tentei obter ajuda do condado para ele. As autoridades foram meio lerdas. Ele não tinha ninguém. Não tinha uma família. Creio que era por isso que ele estava sempre perto de pessoas idosas. Ele era muito solitário".

A morte também atingiu a população mais marginalizada da Califórnia. Pessoas que vieram do México e não conseguiram sobreviver após cruzar a fronteira, vitimadas pelo calor. E ainda aqueles que moravam em cidades de barracas no deserto, sem água corrente e eletricidade.

Das dez pessoas que morreram em Imperial County, ao longo da fronteira com o México, uma tentava atravessar a fronteira, outra cuidava de um jardim, três moravam em trailers e cinco em tendas, distantes de qualquer cidade. Uma morava sob um grande conjunto de arbustos ao lado da auto-estrada.

"Alguns são conhecidos e classificados como esquizofrênicos, outros deixaram as forças armadas e jamais conseguiram se reintegrar à sociedade, e, por algum motivo, eles vivem dessa forma", diz Henry Proo, vice-xerife de Imperial County. "Essas pessoas precisam morar em algum lugar. Alguém lhes dá uma barraca e eles a armam debaixo de uma árvore frondosa".

Proo afirma que as autoridades estão acostumadas à ocorrência de mortes desse tipo nessas barracas durante os verões quentes. Ele diz que talvez haja uma morte por semana.

"Mas ninguém se lembra de ter visto algo tão grave assim", conclui Proo. Danilo Fonseca

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