UOL Notícias Internacional
 

11/08/2006

Plano representa nova ameaça às companhias aéreas

The New York Times
Micheline Maynard*
Este seria o verão em que as companhias aéreas finalmente deixaram 11 de setembro e suas conseqüências para trás.

E parecia estar funcionando: os preços das passagens estavam subindo, os aviões estavam cheios -apesar do desconforto dos passageiros- e as
companhias aéreas estavam novamente ganhando dinheiro. O setor tinha acabado de informar lucros surpreendentemente fortes no segundo trimestre de US$ 1,6 bilhão, o melhor resultado em seis anos, após perder US$ 40 bilhões desde os ataques terroristas de 2001.

E agora isto.

O plano terrorista desbaratado em Londres que visava companhias aéreas
americanas coloca em dúvida se o setor de aviação comercial será capaz
manter sua recuperação nascente. Especialistas em aviação disseram na
quinta-feira que é cedo demais para saber quais os efeitos duradouros da nova ameaça, mas disseram que é improvável que o setor escape completamente ileso.

Se os viajantes realizarem menos viagens -por medo ou por não estarem
dispostos a suportar os incômodos de uma segurança mais severa- então as companhias aéreas poderão ver o fim de um vôo muito breve rumo à
prosperidade. Os preços do petróleo caíram modestamente na quinta-feira, apesar de sua recente escalada também ter pressionado as finanças das empresas.

O melhor que o setor pode esperar é que estas novas medidas de segurança sejam recebidas sem alvoroço pelos passageiros e os viajantes continuem voando, fazendo com que a crise passe com poucos estragos além de alguma irritação e uma série de vôos cancelados no final da temporada de viagens de verão.

"O desafio é lidar com esta mais recente preocupação sem complicar o setor e ainda convencer as pessoas de que é seguro", disse Jan K. Brueckner, um professor de economia da Universidade da Califórnia, em Irvine.

As ações das companhias aéreas também se mantiveram firmes ou sofreram
quedas mínimas na quinta-feira.

Algumas companhias estão permitindo que viajantes com vôos para o
Reino Unido ou de volta de lá façam alterações em bilhetes que caso
contrário não seriam reembolsáveis.

Muitas estão permitindo que os passageiros com vôos marcados para Londres ou saídos de lá ao longo das próximas semanas remarquem vôos sem penalidades. A United e a American estão dando aos seus passageiros com reservas entre sexta-feira e 1º de setembro a opção de remarcar sem penalidades; a British Airways está realizando uma acomodação semelhante para os passageiros com viagens marcadas para qualquer data antes de 1º de dezembro.

As companhias aéreas também estão removendo restrições como datas proibidas e tempo mínimo de estadia para acomodar passageiros com planos de viagem afetados.

Mike Boyd, presidente do The Boyd Group, uma firma de pesquisa e consultoria de aviação, disse que o custo de remarcar viagens e reembolsar passageiros será um problema para companhias aéreas como American, Continental e United, que possuem numerosas rotas para Londres.

Para algumas companhias, o custo ameaça transformar lucros em perdas, ele disse. "É um fardo para as companhias aéreas", acrescentou Boyd. "Isto poderá colocá-las no prejuízo e não precisamos disto no momento."

Mas os agentes de viagem e as companhias aéreas informaram poucos
cancelamentos na quinta-feira. A American, a maior companhia aérea comercial do país, disse que um pequeno número de passageiros cancelou vôos.

A Altour, a agência de viagens com sede em Nova York, disse que apenas três entre seus 50 a 60 clientes com vôos marcados para Londres na quinta-feira adiaram suas viagens. "As pessoas estão aguardando um pouco a poeira baixar", disse Alexandre Chemla, o executivo-chefe da agência. Ele disse que os negócios na quinta-feira foram "tão normais quanto em qualquer outro dia".

Certamente as viagens aéreas não foram. Em um verão marcado por atrasos
freqüentes, os congestionamentos em alguns dos aeroportos do país eram
notáveis, especialmente em aeroportos com grande quantidade de tráfego
internacional.

No Liberty International Airport em Newark, Nova Jersey, apenas 29% dos vôos decolaram no horário até o fim da tarde, segundo a Flight Stats, uma firma de estatísticas de aviação com sede em Portland, Oregon. No JFK International Airport, apenas 36% dos vôos partiram no horário, em
comparação a 73% na quarta-feira. No O'Hare International Airport de
Chicago, apenas 42% dos vôos partiram no horário até a metade da tarde.

Ao todo, as companhias aéreas informaram que entre 41% e 62% de seus vôos partiram no horário até as 17 horas, segundo a Flight Stats. O índice normal geralmente é de 80% ou mais.

Centenas de vôos foram cancelados por toda a Europa na quinta-feira.

As novas restrições de segurança provavelmente prejudicarão os lojistas de aeroportos, que montaram negócios recentemente para vender água, doces, salgados e refeições para os passageiros levarem a bordo. Apesar de comida ainda ser permitida, os viajantes dependerão das companhias aéreas para bebidas, uma das poucas coisas gratuitas ainda oferecidas por algumas grandes companhias.

Os negócios poderão piorar para os free shops, que se especializaram na
venda de bebidas alcoólicas e outros bens de luxo.

Michael Payne, o diretor executivo da International Association of Airport Duty Free Stores, uma associação setorial, disse que os aeroportos na área de Nova York, Miami e Chicago pararam de vender bebidas alcoólicas e perfumes na quinta-feira, após a emissão das novas medidas de segurança.

Ele disse que ainda não está claro se produtos líquidos comprados nos free shops além dos pontos de revista de segurança serão permitidos como bagagem de mão nos vôos. Os free shops aguardavam informação da Administração de Segurança nos Transportes sobre como as novas diretrizes os afetarão. "Ainda é uma história em desdobramento para nós", ele disse.

Se os viajantes começarem a evitar os céus - ficando em casa ou preferindo as estradas - as companhias aéreas poderão ser forçadas a usar duas armas para atraí-los de volta: descontos nas passagens e oferta de milhas adicionais para passageiros freqüentes. Eles já empregaram ambos em tempos de dificuldades financeiras e preocupações de segurança, como após os ataques de setembro de 2001 e após entrarem em concordata, como seis grandes companhias aéreas fizeram nesta década.

"Qualquer coisa que desencoraje as viagens, com as demais coisas se mantendo iguais, pressionará para uma redução no preço das passagens", disse Bob Harrell, um consultor do setor para a Harrell Associates em New York.

Descontos nas passagens certamente prejudicariam os magros lucros do setor. Eles representariam uma nova preocupação a ser acrescentada a uma lista que inclui o preço dos combustíveis e a desaceleração da economia. "Segurança não era uma das principais preocupações que tinham neste momento", disse Philip A. Baggaley, um analista do setor de aviação comercial para a Standard & Poor's Ratings Services.

A ameaça recém-descoberta poderia ser bem pior para as companhias aéreas caso tivesse ocorrido no início da temporada de verão. O pico das viagens domésticas e internacionais está quase encerrado. As férias familiares em muitas partes do país terminam em meados de agosto, porque as crianças precisam voltar às aulas.

Mas o fato da ameaça envolver companhias aéreas americanas que operam em Londres é uma notícia particularmente ruim para as grandes empresas, dada a ênfase que deram neste ano aos vôos internacionais. No geral, as companhias transportaram 34,9 milhões de passageiros em vôos internacionais saídos dos Estados Unidos nos primeiros cinco meses de 2006, em comparação a 33 milhões no mesmo período no ano passado.

A Delta Air Lines, de fato, transformou as novas rotas internacionais na base de seus esforços de reestruturação após o pedido de concordata no ano passado. E os vôos entre o aeroporto Heathrow e os Estados Unidos são fundamentais para a United Airlines, que finalmente saiu neste ano de uma longa estadia na concordata.

A American Airlines, uma das empresas autorizadas a voar para Heathrow
segundo um tratado internacional, vinha alardeando sua lucratividade e sua capacidade de evitar uma reestruturação ordenada pela Justiça. Tais
companhias correm o risco de serem as mais prejudicadas caso haja uma queda nas viagens internacionais.

Não se sabe qual será o impacto na mente dos viajantes. Chemla, da Altour, disse acreditar que os viajantes já estão habituados a ameaças à segurança. "Infelizmente, as pessoas estão se acostumando a este tipo de situação, de forma que não entram em pânico como antes", ele disse.

Brueckner disse que a única situação semelhante à ameaça em Londres foi o incidente de 2001 envolvendo Richard Reid, conhecido como o "homem do
sapato-bomba", que colocou explosivos em seu tênis e tentou detoná-los a bordo de um vôo sobre o Atlântico.

Naquele caso, Reid chegou a embarcar no avião; no caso de Londres, o plano foi desbaratado antes que qualquer participante embarcasse. Mas a tentativa de Reid, no final, não causou muita perturbação aos passageiros, disse Brueckner.

"O que o homem do sapato-bomba causou? Pessoas tirarem seus calçados e
tê-los revistados nas filas de segurança." Ele continuou: "Talvez as
companhias aéreas fiquem bem, talvez isto dure apenas uma semana".

Anthony Sabino, um professor de direito e administração da Saint John's
University, em Queens, disse que os viajantes precisam "aprender a conviver" com a perspectiva de terrorismo.

Ele previu que a demanda por viagens transatlânticas se recuperará
rapidamente das perturbações desta semana. "Espere algumas irritações mas nenhuma queda séria na procura por viagens", ele disse, acrescentando: "as pessoas não correrão para navios de cruzeiro para cruzar o Atlântico".

*Jeremy W. Peters, Jane L. Levere e Joe Sharkey contribuíram com reportagem para este artigo George El Khouri Andolfato

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