UOL Notícias Internacional
 

11/08/2006

Reino Unido desbarata plano para destruir aviões com destino aos EUA com explosivos líquidos

The New York Times
Alan Cowell e Dexter Filkins

em Londres
As autoridades britânicas disseram na quinta-feira que desbarataram um
avançado plano terrorista para explodir aviões saídos do Reino Unido rumo aos Estados Unidos, usando explosivos líquidos que passariam pela segurança dos aeroportos.

As autoridades disseram que prenderam 24 homens, todos muçulmanos nascidos no Reino Unido, que planejavam transportar os líquidos em garrafas para beber e combiná-los em coquetéis para cometer assassinato em massa a bordo de até 10 vôos sobre o Atlântico.

Autoridades de inteligência disseram acreditar que alguns dos planejadores provavelmente ainda estão foragidos, o que exige uma maior segurança nos aeroportos.

Os aeroportos, que enfrentaram atrasos caóticos e cancelamentos, mudaram instantaneamente suas regras para o que os passageiros podiam carregar a bordo. Nos Estados Unidos, líquidos, gels e cremes foram proibidos na bagagem de mão. No Reino Unido, toda a bagagem de mão foi proibida, exceto coisas como carteiras e óculos sem seus estojos.

As autoridades disseram que o plano -sobre o qual poucos detalhes concretos são conhecidos- apresenta as marcas da Al Qaeda e envolve ligações com planejadores no Paquistão.

No final da noite de quinta-feira, horas depois da notícia de que as
autoridades britânicas tinham detido 24 muçulmanos nascidos britânicos,
neutralizando o suposto plano, autoridades no Paquistão disseram que um
número não especificado de prisões ocorreu lá.

Um funcionário americano de contraterrorismo, que falou sob a condição de anonimato devido à sensibilidade do caso, disse que vários dos planejadores viajaram ao Paquistão nas últimas semanas e podem ter se encontrado com pelo menos uma pessoa ligada à Al Qaeda. Tal indivíduo estava entre os que foram presos no Paquistão, disse o funcionário, fato após o qual os britânicos decidiram prender os conspiradores em Londres.

Esta é a mais recente de uma série de conspirações aparentemente baseada na insatisfação dos jovens muçulmanos britânicos, muitos descendentes de paquistaneses, que se consideram parte da luta jihadista contra o Reino Unido, que consideram como batedora dos Estados Unidos no Iraque, Afeganistão e agora no Líbano.

Ele também imita um plano fracassado nas Filipinas em 1995, financiado por Osama Bin Laden, para explodir aviões sobre o Pacífico. O plano acabou quando os produtos químicos explodiram em um apartamento em Manila.

Na quinta-feira, o Reino Unido elevou seu alerta de terror em um grau até o nível mais alto -"crítico"- que significa um ataque iminente.

O funcionário americano disse que os planejadores pretendiam "testar" a
operação nos próximos dias, quando tentariam embarcar simultaneamente em vôos. Se este teste fosse bem-sucedido, um ataque em plena escala seria executado em questão de dias, disse o funcionário.

Autoridades policiais britânicas, que falaram em troca de anonimato devido aos procedimentos padrões, disseram que os ataques não estavam planejados para quinta-feira.

Um funcionário americano também disse que o ataque não era iminente. "Eu alertaria sobre quão perto estava", ele disse. "Eles tinham os materiais, mas não partiriam para o aeroporto no dia seguinte. Mas eles identificaram uma série de vôos."

Peter Clarke, um alto oficial de contraterrorismo da polícia de Londres, disse: "A inteligência sugeria que os dispositivos seriam construídos no Reino Unido e levados pelos aeroportos britânicos". Mas ele também disse que algum evento ou desdobramento não especificado na noite de quarta-feira convenceu os agentes de contraterrorismo britânicos de que deviam agir rapidamente para desbaratar a conspiração, que ele considerou de "dimensões globais".

O funcionário americano de contraterrorismo disse que a prisão do homem
ligado à Al Qaeda no Paquistão fez os britânicos sentirem que deviam agir, porque a notícia de sua prisão sem dúvida chegaria aos planejadores, o que poderia levá-los a se esconderem.

Nos últimos dias, o FBI enviou centenas de agentes para várias partes dos Estados Unidos para seguir possíveis pistas das fontes de inteligência britânicas.

"Todas já foram investigadas a esta altura e não há indício no momento de alguém nos EUA ligado a isto", disse um alto funcionário do Departamento de Justiça.

Por volta das 20h30 de quarta-feira, funcionários federais telefonaram para os diretores de segurança das principais companhias aéreas, os informando sobre o que estava acontecendo e sobre as novas medidas de segurança que deveriam ser implementadas na quinta-feira.

O secretário de Segurança Interna, Michael Chertoff, disse que os agressores planejavam embarcar nos aviões com material explosivo e componentes de detonação "disfarçados como bebidas, aparelhos eletrônicos e outros objetos comuns".

Um boletim emitido na quinta-feira pelo FBI sobre o plano dava detalhes de algumas das propriedades dos explosivos baseados em peróxido líquido. Ele notou que tais materiais são sensíveis a "calor, choque e fricção" e podem ser facilmente detonados com calor ou carga elétrica.

De certa forma, a notícia de um plano que poderia ter matado milhares de pessoas reforçou a sensação entre os americanos após 11 de setembro de 2001, e entre os britânicos após os atentados a bomba em Londres de 7 de julho de 2005, de que seu mundo mudou irremediavelmente de uma forma que poucos gostariam. "Este é um novo modo de vida", disse Arleen Malec, uma dona de casa de 60 anos de Chicago, que chegou a Londres vinda dos Estados Unidos.

Mas a notícia do plano também mexeu com a política dividida em ambos os
lados do Atlântico, reforçando os argumentos daqueles em Londres e
Washington que dizem, como o primeiro-ministro Tony Blair, que o Ocidente está preso em uma batalha contra o Islã radical. Nos Estados Unidos, o presidente Bush disse que o plano mostrou que os Estados Unidos estão "em guerra contra fascistas islâmicos que usarão todos os meios para destruir aqueles entre nós que amam a liberdade".

Ao mesmo tempo, tanto autoridades americanas quanto britânicas contemplam o que parece ser uma notável força dos jihadistas britânicos que, desde logo após os ataques de 11 de setembro, já estiveram envolvidos em cinco ou seis conspirações conhecidas. Algumas foram malsucedidas, algumas nunca foram comprovadas e uma -a de 7 de julho de 2005- foi terrivelmente eficaz, quando quatro homens-bomba cometeram suicídio e mataram 52 passageiros no sistema de transporte de Londres.

Mas todos têm desafiado os esforços oficiais britânicos de impedir novas tentativas, seja por medidas de segurança mais severas que têm enfurecido grupos de direitos civis ou por meio de esforços para abraçar líderes muçulmanos considerados moderados. O mais recente plano ocorreu apesar da prisão ou exílio forçado de clérigos radicais proeminentes como o xeque Abu Hamza al Masri e o xeque Omar Bakri Mohamed.

Pela primeira vez nos Estados Unidos, o nível de ameaça em vôos
transatlânticos foi elevado ao grau mais alto -"vermelho"- e medidas de
segurança mais severas foram aplicadas, como aconteceu no Reino Unido.

Pelo menos 24 pessoas foram presas em batidas policiais noturnas em casas de aspecto modesto distantes umas das outras, no Distrito de Walthamstow de Londres; em High Wycombe, a oeste da capital; e em Birmingham, na região central. Cerca de 24 horas depois, nenhum dos detidos anda tinha sido identificado pelo nome.

A conspiração, que as autoridades britânicas disseram estar sob vigilância há meses, levantou novamente a questão sobre quão estreitamente os terroristas nascidos no Reino Unido estão ligados à Al Qaeda. Nos Estados Unidos, o diretor do FBI, Robert S. Mueller, disse que o plano tinha "todas as marcas de um plano da Al Qaeda", mas alertou que não há evidência direta disto.

Também nos Estados Unidos, Chertoff disse que as novas restrições impostas aos viajantes que desejam embarcar nos vôos com líquidos reflete a crença de que os planejadores pretendiam usar líquidos "individualmente benignos, mas que misturados poderiam ser usados para criar uma bomba".

"Era um plano e operação muito sofisticados", disse Chertoff em uma coletiva de imprensa em Washington. "Não se trata de um punhado de pessoas sentadas juntas e sonhando."

"Nós estamos confiantes de que desbaratamos um plano dos terroristas para causar um número indizível de mortes e destruição", disse Paul Stephenson, um vice-comissário da Polícia Metropolitana de Londres. A meta, ele disse, era "assassinato em massa em uma escala inimaginável".

Se referindo às 24 pessoas presas segundo as leis antiterrorismo, o ministro do Interior britânico, John Reid, disse aos repórteres que a polícia estava "confiante de que os principais envolvidos foram presos". Ele reconheceu semelhanças com o plano de 12 anos atrás. Os conspiradores daquele plano eram Khalid Sheikh Mohamed, que estava iniciando sua ascensão como alto membro da Al Qaeda, e Ramzi Yousef, que foi o mentor do atentado de 1993 ao World Trade Center de Nova York. O codinome do plano era "Bojinka". Após os ataques de 11 de setembro, outro plano incluindo aviões envolveu Richard C. Reid, o chamado homem do sapato-bomba, um muçulmano britânico que tentou
explodir um vôo saído de Paris com destino aos Estados Unidos com explosivos escondidos em seu tênis.

A escala das batidas e prisões britânicas foi particularmente notável já que, apenas semanas atrás, a polícia foi criticada pelos muçulmanos
britânicos pela prisão de dois irmãos no Leste de Londres, que
posteriormente foram liberados por falta de evidências os ligando a
atividades terroristas. Na época, a polícia indicou que estava à procura de uma bomba química.

Nos aeroportos britânicos, o caos se espalhou rapidamente à medida que as companhias aéreas cancelavam vôos. Durante grande parte do dia, a British Airways cancelou todos os vôos para destinos europeus e muitas companhias aéreas européias cancelaram os vôos para Londres.

Os viajantes no trem expresso Heathrow, saído da Estação Paddington de
Londres, ouviram uma voz feminina gravada anunciar: "É possível embarcar com lenços de papel, desde que estejam fora da caixa. Também é possível embarcar com comida de bebê e leite, mas o conteúdo dos frascos deverá ser provados pelo passageiro responsável".

No Terminal 3 do Aeroporto de Heathrow, centenas de passageiros
congestionavam o prédio do terminal e os funcionários das companhias aéreas entregavam sacos plásticos para os passageiros levarem sua bagagem de mão limitada. Muitos passageiros disseram que os funcionários das companhias aéreas se recusavam a dizer o que estava acontecendo.

Em Paris, após uma reunião do gabinete de emergência, o Ministro do Interior da França, Nicolas Sarkozy, disse que o país tinha aumentado seu alerta de segurança para "vermelho" -um grau abaixo do máximo. Ele disse que a França reforçou as medidas de segurança para companhias aéreas e estava introduzindo novas medidas para vôos com destino ao Renno Unido e Israel, incluindo revistas minuciosas de toda bagagem de mão, que até agora costumava estar sujeita apenas ao raio X.

Os aeroportos franceses ficaram lotados com milhares de passageiros
impossibilitados de viajar. Os vôos com destino ao Reino Unido foram
cancelados durante grande parte do dia, mas o tráfego aéreo com destino aos Estados Unidos se manteve próximo do normal, disseram porta-vozes de diferentes companhias aéreas.

Muitos passageiros privados de suas conexões em Londres seguiram para o trem Eurostar sob o Canal, para chegar ao continente europeu e prosseguir viagem via Paris. Nas estações de trem e aeroportos, policiais uniformizados e militares, freqüentemente acompanhados por cães, intensificaram suas patrulhas.

Na Espanha, apenas cerca de 10% dos 800 vôos para Londres decolaram,
deixando milhares de turistas retidos, segundo a Aena, a principal operadora dos aeroportos espanhóis. A Espanha é um dos destinos mais populares para os turistas britânicos. O primeiro-ministro José Luis Rodríguez Zapatero disse aos repórteres que as autoridades espanholas "ordenaram o reforço de todos os controles que afetam a segurança dos aeroportos em nosso país".

Blair tinha partido para férias no Caribe no último fim de semana, após
adiar seus planos devido à crise no Líbano. Seu gabinete disse que ele
informou Bush sobre a situação. Os políticos britânicos se recusam em geral a se envolver no que se tornou um debate público familiar sobre se o Reino Unido é visado pelos terroristas devido à sua aliança com os Estados Unidos no Iraque, Afeganistão e na diplomacia ligada ao Líbano.

Em High Wycombe, a oeste de Londres, os moradores disseram que a polícia realizou batida em dois lugares e em um bosque, onde a polícia reuniu material em sacos plásticos. "É chocante quando está tão próximo de nós, à nossa porta, não do outro lado do país", disse Sue Needham, uma dona de casa de 36 anos que mora perto do bosque.

Em Walthamstow, leste de Londres, John Weir, 50 anos, disse morar em frente a uma das casas que a polícia invadiu, que ele disse ter sido vendida recentemente. "Foi vendida da noite para o dia", ele disse. "Um dia estava à venda, no seguinte já tinha sido vendida." Ele disse que dois homens se mudaram no fim de semana seguinte, mas a casa freqüentemente parecia vazia.

*Mark Mazzetti e Eric Lichtblau, em Washington; David Rohde, em Nova York; Carlotta Gall, em Cabul, Afeganistão; Karla Adam, em High Wycombe, Inglaterra; Pamela Kent e Stephen Grey, em Londres; Marlise Simons e Katrin Bennhold, em Paris; Renwick McLean, em Madri, e Raymond Bonner, em Jacarta, contribuíram com reportagem para este artigo George El Khouri Andolfato

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