UOL Notícias Internacional
 

12/08/2006

A ciência capturada em uma bolha: duas formas diferentes de enxergar

The New York Times
Edward Rothstein

em São Francisco
É um dia quente no Palácio de Belas Artes, mas ninguém se inclinando para tomar um belo gole d'água no bebedouro. O cano, de um metal cromado brilhante, é igual àquele de vários bebedouros novos. O problema é que ele está instalado em uma privada aberta.

"Um gole de conflito", diz o cartaz explicativo, já que essa é uma mostra do Exploratorium, o incrível museu de ciências daqui. A julgar pelas caretas e risadas dos visitantes, a idéia ficou bem clara. Nós podemos saber que algo é verdadeiro - que a água é limpa e fria -, mas a nossa experiência sensorial conflita com a razão. E, neste conflito, adivinhem quem vence?

Compare essa exibição com uma outra, no Museu de Inovações Tecnológicas, perto daqui, em San Jose. Você se senta à frente de um monitor de computador e seleciona os elementos de um passeio de montanha russa - distância total percorrida, formato dos loops, velocidade dos carrinhos -, construindo uma rota rudimentar. A seguir, você entra em um carrinho de montanha russa no qual o trajeto construído no computador é simulado: uma tela mostra o movimento do carrinho nos trilhos, enquanto ele sofre sacudidelas e é impulsionado, como se estivesse realmente se movimentando na pista que você construiu.

As duas abordagens poderiam ser mais distintas? A exibição do Exploratorium não tem quase nada a ver com a tecnologia. A exibição do museu tecnológico a exalta. A exibição do Exploratorium é quase que deliberadamente antiquada.

Já a do museu tecnológico aspira mostrar efeitos especiais de última geração. A mostra do Exploratorium é modesta e bem-sucedida. A do museu de tecnologia é ambiciosa e parece menos espetacular do que promete.

As exibições refletem dois diferentes arquétipos de museus de ciência modernos. Enquanto o Exploratorium foca-se na experiência, o museu tecnológico privilegia a sensação. O Exploratorium tem a aura de uma feira de ciência. O museu tecnológico a de uma feira de ficção-científica.

Mas os dois modelos estão em transição e enfrentam desafios. Os dois museus também possuem novos diretores. O museu tecnológico, deparando-se com uma platéia cada vez menor e recuperando-se da crise do Vale do Silício, contratou um novo presidente, Peter Friess, um mestre de relojoaria alemão cuja tese de doutorado conectou a história da arte com a história da tecnologia. Ele também dirigiu e ajudou a criar o Deutsches Museum, em Bonn, que se concentra na tecnologia e na pesquisa alemãs a partir de 1945.

O Exploratorium trouxe Dennis M. Bartels para ocupar o cargo de diretor-executivo. Com experiência em educação e política científica (e ex-diretor do centro de aprendizagem do Exploratorium), ele pretende expandir a programação e as áreas cobertas pelo museu, enquanto supervisiona a transferência para um novo prédio no decorrer dos próximos anos, o que fará com que a área para as mostras dobre de tamanho. Segundo os projetos atuais, o novo local fica em dois píeres próximos ao centro da cidade.

É evidente que esta não é uma comparação entre instituições iguais. O Exploratorium, fundado em 1969 pelo físico Frank Oppenheimer (irmão de J. Robert Oppenheimer), criou o modelo participativo no moderno museu científico. As melhores das suas cerca de 400 mostras removem os detalhes irrelevantes e as bobagens vinculadas ao decoro, e se concentram em princípios simples e pungentes. Exibições sobre mecânica, acústica, eletricidade e a percepção humana inspiram uma combinação de curiosidade e de pensamento inquisitivo: algo que era apenas uma idéia abstrata passa a ser sentido de forma palpável.

As exibições do Exploratorium têm a intenção de parecerem ter sido feitas em casa, e realmente são: a zona de trabalho na qual elas são construídas e as áreas das mostras dividem o mesmo espaço no museu. Esta é realmente uma instituição educacional, com recursos substanciais dedicados ao treinamento de professores e ao escrutínio dos efeitos das exibições.

Mas o estilo do Exploratorium também se tornou tão familiar que as suas mostras podem dar a impressão de estarem um pouco desgastadas, como aqueles equipamentos muito usados de um velho laboratório de ciências de uma escola de segundo grau. O universo científico contemporâneo também é diferente daquilo que era na década de 1970, a primeira década empolgante do Exploratorium.

E quanto aos computadores pessoais, os avanços na medicina, na nanotecnologia, na teoria das cordas e na Internet? Nada disso conta com uma abordagem satisfatória por aqui. Em uma entrevista, Bartels observou que a ciência contemporânea se deslocou para os extremos da escala: o muito grande e o muito pequeno, o muito rápido e o muito lento. Ele questiona como essa tendência poderia ser demonstrada com um aparato do estilo do Exploratorium. E quanto ao gosto das platéias contemporâneas pelo espetáculo?

Uma resposta a essas questões foi dada pelo museu de tecnologia, que tinha como intenção incorporar a energia e a inventividade do Vale do Silício. Ele conta com o seu próprio cinema Imax e, com a sua estética brilhante, comemora as mais novas tecnologias.

O museu, que abriu as portas em 1998, patrocinado pelo governo local e pelos empresários e companhias do Vale do Silício, está instalado em um edifício de US$ 113 milhões. Os seus 12,3 mil metros quadrados contêm atualmente exibições sobre a Internet, a exploração submarina, os terremotos, a pesquisa genética e o desenho de chips de computadores, assim como mostras interativas e simulações.

Mas mesmo com todo este apoio e ambição, o museu tecnológico não chega aos pés do Exploratorium. E a crise que atingiu o setor de tecnologia não ajudou. Durante 1999, o primeiro ano de exibições ininterruptas, o museu recebeu 800 mil visitantes. No ano passado ele recebeu menos de 400 mil, dos quais um terço compareceu apenas para assistir a um filme Imax (cerca de 500 mil pessoas visitaram o Exploratorium no ano passado).

Mas o declínio da audiência do museu de tecnologia não é apenas função da economia local. Durante um fim de semana recente as maiores multidões presentes no museu só estavam la aguardando para assistir "Superman - O Retorno" (Superman Returns, EUA, 2006) no Imax. Algumas exibições estavam em péssimas condições. E mostras que tinham como objetivo tirar proveito da vitalidade tecnológica do Vale do Silício pareciam menos sofisticadas do que os produtos comerciais e programas de computadores utilizados no cotidiano.

Em uma exibição participativa era patente toda aquela emotividade provocada pela privada-bebedouro do Exploratorium, não havendo, entretanto, a sagacidade desta última: o visitante é convidado a "experimentar uma MRI (tomografia por ressonância magnética)", que implica em se deitar em uma mesa com a cabeça em um módulo de plástico, enquanto uma gravação reproduz o barulho áspero e pulsante do equipamento médico.

Em uma entrevista, Friess disse que o museu teria que se autodefinir mais claramente ao celebrar o espírito da inovação, e se conectar mais estreitamente com as histórias e idéias do Vale do Silício. Mas ao que parece, será também necessário um novo exercício de imaginação.

Seria possível que cada um desses museus obtivesse pistas sobre aquilo de que precisa a partir do que o outro está exibindo? Uma coisa que falta no Exploratorium, por exemplo, é aquela idéia de inovação que Friess enfatiza.

O Exploratorium apresenta idéias e princípios, mas não cientistas ou métodos. Ele é anistórico. Os visitantes passam de uma mostra ou assunto a outro, das ciências da terra à mecânica, da ótica à psicologia. Cada mostra é efetivamente um experimento.

Mas muitos desses experimentos possuem análogos históricos: eles foram elaborados para responder a questões particulares. Os visitantes não são capazes de perceber isto. Eles lançam objetos de formatos diferentes em rampas, ou modificam a extensão de pêndulos, por exemplo, sem reconhecer que o que estão fazendo são variações de experimentos clássicos de Newton, usados para a descoberta das leis do movimento.

Um contexto histórico também levantaria outras questões: Que experimentos fracassaram, e por que fracassaram? Como certas questões científicas foram respondidas ou ignoradas?

Tal abordagem poderia expandir a amplitude do Exploratorium e sugere tipos diferentes de exibições. Isso poderia até mesmo tornar mais fácil a exploração de novos ramos da ciência ou o exame de questões éticas que Bartels afirma que desejaria abordar de forma mais intensiva.

E quanto ao que o museu tecnológico poderia ganhar ao examinar mais atentamente o Exploratorium, os benefícios seriam inúmeros. As mostras do museu tecnológico privilegiam o brilho, em detrimento da substância. Uma delas oferece moldes de bronze protuberantes das mãos de exploradores, e convocam os visitantes a "tocar as mãos que tocaram a descoberta", incluindo a mão do capitão Jean-Luc Picard, de "Star Trek", tratando-o como se ele fosse tão real quanto um oceanógrafo adjacente. É uma exibição tola, com uma execução ainda mais tola.

Uma outra simula um terremoto, embora o assoalho que sacoleja e os solavancos abruptos lembrem mais uma aventura em um parque de diversões de segunda categoria.

Na maior parte das exibições, pouco se aprende sobre ciência ou inovação. Mas pensem no que acontece no Exploratorium, no qual tecnologias mais simples estão envolvidas, e as idéias abstratas se tornam palpáveis.

O ar frio é mais pesado que o ar quente? Certamente, mas espere até você soprar bolhas de sabão, que flutuam sem cair, amparadas pelo ar gelado criado por um pedaço de gelo seco. O ar que se movimenta rapidamente gera o "lift" para os aviões? Claro, mas faça um disco achatado flutuar quando um jato de ar é soprado sobre ele, e esse princípio adquire uma nitidez surpreendente.

No Exploratorium, rodas quadradas giram suavemente sobre uma superfície de formato apropriado. É possível enxergar os vasos sangüíneos nos seus olhos. Cristais de gelo se formam sobre uma superfície de vidro. Os corpos de um iguana e de um rato são devorados pelos saprófagos naturais.

Em cada mostra que funciona (e nem todas funcionam) algo simples é revelado de forma indelével. Podemos achar que conhecemos os princípios científicos do mundo, mas talvez ainda não tenhamos experimentado essas verdades, ou acreditado integralmente nelas. A melhor exibição, como um experimento, conta com o poder suficiente para comprovar a sua essência e remodelar a experiência.

O Exploratorium chega até mesmo a disponibilizar um outro bebedouro para aqueles que se sentem mal diante da prova da inadequação da razão frente à privada-bebedouro. Pressione o botão de cobre do bebedouro, incline-se sobre ele, e no momento em que os seus lábios tocam o líquido, ouve-se música: a água fecha o circuito elétrico.

O gole d'água não proporciona conflito, mas sim uma sensação de maravilhamento. Achávamos que conhecíamos o mundo, mas aqui, bebendo avidamente, descobrimos que estamos apenas começando a compreendê-lo. Danilo Fonseca

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