UOL Notícias Internacional
 

12/08/2006

Tentando superar a distância entre a prisão e a vida do lado de fora

The New York Times
Erik Eckholm

em Providence, Rhode Island
Em abril, Debra Harris levou seu filho de 15 anos para o que achava que seria a última visita ao agente da condicional. Em vez disso, por causa de um teste de urina "sujo" duas semanas antes, prova de que voltara a usar crack, ela foi diretamente encaminhada para a prisão por três meses.

Os policiais levaram o filho de Harris para sua casa alugada no lado sul de Providence, onde seu namorado subitamente viu-se forçado a cuidar de três de seus filhos. Harris tinha esquecido de pagar a conta de gás, então o fornecimento foi cortado e eles passaram o período da sentença sem fogão, sobrevivendo de sanduíches e alimentos de microondas.

Tais abalos fazem parte da vida em South Providence, enquanto várias mulheres e muitos homens passam pelo ciclo repetido de prisões. O país enfrenta um número recorde de reincidências, e a busca por soluções está se concentrando cada vez mais em bairros como este, lugares frágeis em quase todas as cidades que concentram criminosos recorrentes.

Rhode Island está entre os Estados que começaram a fazer algum progresso no sentido de facilitar a volta dos condenados à sociedade, com o objetivo de parar a porta giratória, ou ao menos diminuir seu ritmo. Algumas vezes, porém, é difícil ver muita diferença.

Os anos 80 e 90 foram de endurecimento, de punições severas; a população carcerária atingiu níveis recordes, enquanto a educação e profissionalização murcharam. Prisioneiros com pouca chance de conseguir um emprego e um histórico de abuso de substâncias foram enviados para casa sem ajuda.

Agora está ganhando força uma tendência de combate a essa situação, parte de uma transformação na forma como o sistema de justiça criminal lida com criminosos reincidentes. Depois que a punição foi determinada e o tempo servido, políticos, policiais, agentes penitenciários, igrejas e grupos comunitários estão trabalhando juntos para oferecer programas de reintegração, modestos, mas mesmo assim notáveis.

Os presos agora se encontram com planejadores antes de serem liberados, para explorar as possibilidades de moradia, tratamento de drogas e emprego. Quando saem, as igrejas e grupos comunitários pegam-nos pelas mãos para ajudá-los na transição.

"O que estamos testemunhando é uma grande virada na política de correção", disse A.T. Wall, diretor de correções do Estado.

O fluxo de mais de 600.000 presos saindo das prisões nacionais por ano, e a triste verdade que mais da metade desses voltarão, fica claro aqui e em outras partes, aonde famílias já em dificuldades entram em um caos emocional e financeiro. Mesmo com os novos programas, as probabilidades de perder o caminho reto são fortes.

"Tem muita coisa começando a acontecer", disse Sol Rodriguez, diretora do Centro de Vida Familiar, estabelecido em South Providence em 2003 para ajudar o retorno dos prisioneiros a suas famílias. "Mas essa ainda é uma comunidade muito pobre, e as pessoas estão voltando para bairros já sobrecarregados".

Em South Providence, onde muitas famílias compartilham casas antigas de madeira de dois andares em ruas enganosamente silenciosas, quase um em cada quatro homens e metade de todos os homens negros estão sob supervisão do departamento de correções estadual -na prisão, cumprindo pena em liberdade ou em condicional, disse Wall.

A 12 km daqui, o complexo carcerário do Estado é uma presença quase palpável. Dos cerca de 3.500 presos liberados por ano, um quarto voltam ao centro de South Providence, de apenas 8,5 km quadrados com 39.000 moradores, na maior parte hispânicos e negros.

"Um dia alguém some em ação", disse o reverendo Jeffrey Williams, pastor da Assembléia Catedral da Vida Cristã em South Providence. "O pai é condenado a três ou cinco anos, e a estrutura familiar se desintegra. As mães sobrevivem com ajuda do Estado ou trabalhando em vários empregos, e você vê as crianças praticamente se criando sozinhas, o que perpetua o problema."

As pressões sobre as famílias assumem muitas formas. Perto da casa de Harris, Alberto Reyes, 27, operador de máquina elevadora de caixotes, estava cumprindo pena em liberdade por roubo no inverno passado. Em março ele faltou ao encontro com seu supervisor e foi preso por três meses e meio. Sem sua ajuda, sua namorada, que ganha apenas US$ 280 (em torno de R$ 610) por semana como assistente de enfermagem, ficou em situação desesperadora e teve que contar com a caridade para conseguir roupas de verão para o bebê.

Erick Betancourt, 26, passou dois anos na prisão e terá que cumprir pena de 10 anos em liberdade vigiada por vender crack, o que o deixou vulnerável a confinamento por qualquer erro. "Todo mundo que você encontra está cumprindo pena em liberdade ou em condicional", disse Betancourt, que conseguiu um emprego aconselhando jovens nas ruas.

"Supostamente, você não deve ficar na companhia de outros em condicional", disse ele. "Você quer voltar a encontrar seus velhos amigos, mas pode ser perigoso, porque se um policial parar você, pode ser uma violação."

Para Cerue Williams, 61, a prisão repetida de seu filho de 34 anos por violação da condicional está acarretando peso financeiro e isolamento social. Demitida de seu emprego de gravadora de anéis de formatura, Williams está tentando sobreviver enquanto cuida da neta adolescente.

Ela mora em uma casa arrumada, de aluguel subsidiado, mas nunca fala com os vizinhos. "Mantenho isso para dentro, é embaraçoso", disse ela. "Ninguém me visita e não visito ninguém."

South Providence fica isolada do centro da cidade e do lado leste próspero por uma estrada interestadual. Jovens dirigem com os assentos empurrados para trás, com o rosto escondido -o que é tanto uma medida protetora e coisa da moda.

Partes da área estão em ascensão, e a entrada de hispânicos trouxe pequenas lojas às avenidas. Em fábricas de jóias abandonadas, em terrenos baldios e nos poucos projetos de habitação, há adolescentes vagando e criando problemas com drogas. No entanto, a maior parte dos males da comunidade está escondida dentro das casas de madeira de várias famílias.

Tyrone McKinney, 45, esteve nove ou dez vezes na prisão desde 1979 -não tem mais certeza- acusado desde assalto à loja até tentativa de assassinato.

Ele disse a respeito da última vez que foi solto, em janeiro: "Eles me deram um bilhete para o ônibus e eu enfrentei o monstro sem emprego, sem ter aonde ir."

Vagando por casas de South Providence, ele voltou a usar drogas e a roubar e foi preso novamente em abril, para mais seis meses. Ele falou no ginásio da prisão, onde vem se exercitando. Como condição de sua liberação neste outono, ele terá de passar morar em uma residência para tratamento de viciados, onde também receberá ajuda para inscrever-se em programas de benefícios como tíquetes alimentação e para encontrar trabalho e moradia.

"O objetivo agora é ver se podemos reabilitar vidas, em vez de apenas prendê-las", disse o governador Donald L. Carcieri, republicano, usando palavras que no passado teriam sido politicamente arriscadas. Carcieri instou agências estaduais dos setores de educação, drogas, saúde mental, moradia e outras questões a trabalharem com presos e ex-presos.

Seguindo o exemplo estabelecido por Connecticut, o Estado prometeu reinvestir toda economia obtida com a redução da população carcerária em nova ajuda para os presos que partem.

O prefeito de Providence, David N. Cicilline, reuniu um conselho de reintegração, unindo o chefe de polícia, políticos, empresários e outros líderes comunitários. O conselho quer oferecer ajuda a todo criminoso que voltar aos bairros mais afetados, como South Providence.

Em Washington, em outro sinal do ambiente nacional em mudança, está sendo avaliado pelo Congresso o Ato da Segunda Chance, para aumentar o financiamento federal para programas de reintegração. O ato tem forte apoio bipartidário e o endosso da Casa Branca.

Com a união das agências públicas e grupos comunitários, Rhode Island é parte de um movimento que está envolvendo dezenas de Estados, disse Debbie A. Mukamal, diretora do Instituto de Reintegração de Prisioneiros do Colégio de Justiça Criminal John Jay em Nova York.

Mesmo assim, em Rhode Island e em outros lugares, os fundos e as instalações para apoiar pessoas quando voltam à comunidade não acompanharam os novos objetivos.

Dentro da prisão, os criminosos têm mais acesso à educação, profissionalização e aconselhamento. Mas muitos que são aprovados para a liberdade condicional ainda precisam passar outros meses atrás das barras, esperando vagas em centros de tratamento de viciados. Os que não têm casas para voltar enfrentam séria falta de lares de transição.

"O planejamento para a liberdade nem sempre significa muito, porque ainda são poucos os serviços disponíveis", disse Rodriguez, do Centro de Vida Familiar.

Os presos recém liberados aparecem no centro para ler avisos, participar de sessões de aconselhamento ou inscrever-se em aulas. O grupo, com a ajuda da Corporação de Moradia de Apoio, organização sem fins lucrativos, também está desenvolvendo 25 unidades de abrigos permanentes para os ex-presos com maiores dificuldades e fez um lobby para o Estado parar de impedir ex-drogados de receber tíquetes refeição.

Duas semanas após sua soltura, Reyes, o ladrão condenado, estava lendo listas de emprego no Centro de Vida Familiar. "Tenho que arrumar um emprego logo, ou talvez volte para a prisão", disse ele, observando que o emprego era uma condição de sua liberação. Como muitos ex-prisioneiros, ele não consegue morar com a namorada e filho porque ela está em uma moradia pública que proíbe criminosos, então está morando com sua mãe.

Os serviços sociais são vitais, mas nada pode substituir a vontade pessoal, disse Harris, 47, a mãe que foi presa três vezes por roubar lojas antes de sua recente violação da condicional.

Ela foi solta novamente no dia 26 de julho com uma tornozeleira para garantir que ficará dentro de casa, exceto quando receber permissão para sair.

"Perdi demais nesses anos", disse ela no dia depois sua liberação, na casa de dois andares com um pequeno quintal que ela adora, mas não pode aproveitar atualmente sem permissão explícita. Ela segurava um neto enquanto adolescentes entravam e saíam, e esperava a volta de dois filhos mais jovens, que foram morar com o pai durante os meses em que ficou longe. "Sabia desta vez que não queria perder tudo isso", disse ela, referindo-se à casa, aos filhos e ao namorado, Victor, que ficou com ela.

Na prisão, ela começou o programa de 12 passos. Agora, como condição de sua liberdade, ela deve freqüentar uma reunião de reabilitação de três horas, pelo menos três vezes por semana. Ela também recebeu uma oferta de emprego, como assistente de um líder da igreja.

Harris tocou na tornozeleira plástica preta com um transmissor e disse: "De certa forma, sinto que estou de volta no mesmo ponto."

Mas a tornozeleria também fornece um estranho conforto. "Ela mantém minha vida estruturada, por enquanto", disse ela, observando que viu uma transação de drogas pela janela da frente em sua primeira noite em casa.

"Aí fora é uma loucura", disse ela. Deborah Weinberg

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