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13/08/2006

Na África: para um continente célebre, interesse de peso

The New York Times
Alex Williams
Quando as luzes diminuem para o segundo ato de cada apresentação da turnê "Confessions" de Madonna, a cantora, usando uma coroa de espinhos, interpreta seu hino de 1986, "Live to Tell", enquanto seu corpo se pendura em um simulacro de crucificação em uma cruz espelhada reluzente como um globo de discoteca.

Madonna tem explorado a imagem do crucifixo há duas décadas. O que traz este quadro vivo ao presente são as imagens que piscam atrás dela nas telas: closes de crianças africanas, olhando com olhos pesarosos, sobrepostos a chamas e um contador em movimento, registrando 12 milhões de crianças órfãs devido à Aids na África.

O fato de Madonna estar repentinamente voltando seus olhos para a África não deveria causar surpresa. Afinal, ela sempre soube notar uma tendência.

E por mais que possa estressar os limites do bom gosto dizê-lo, a
África -- repleta de doença, fome, miséria e guerra civil -- está repentinamente "na moda".

Desde o início da década, com as missões de levantamento de fatos promovidas por algumas celebridades a países sub-Saara abalados por conflitos (Bono em Gana, Bono por toda parte) que logo se tornaram uma enxurrada nos últimos dois anos (Clay Aiken em Uganda, Jessica Simpson no Quênia), a África agora foi abraçada pelas massas.

Aqueles que estudam ou trabalham em causas ligadas à África informam que o turismo em muitos países africanos está em alta, que os estudantes estão cada vez mais optando por estudar ou realizar trabalho voluntário lá e que dinheiro está chegando a instituições de caridades voltadas à África -- desde esforços populares organizados em igrejas e jantares suburbanos por todo o país até grandes organizações de ajuda. Mesmo entre os descolados, roupas decoradas com imagens da África estão começando a substituir as camisetas de Che Guevara da última temporada.

"Atualmente há uma nova vida no movimento", disse Lisa Szarkowski, porta-voz da Unicef EUA, que notou que a África vinha sofrendo há anos de fadiga de doadores antes de celebridades como Bono, que começou a lutar pelo alívio da dívida do Terceiro Mundo, e Angelina Jolie, que recentemente teve um filho na Namíbia, ajudarem a renovar o interesse. "Agora", ela disse, há "mais conversa, mais possibilidades. O impulso é grande".

Tal interesse renovado no continente foi motivado pela tentativa de ajuda a diferentes atrocidades. Para alguns se trata do genocídio em Darfur; para outros, os órfãos da Aids. Mas independente do interesse específico das pessoas, a maioria descreve de forma consistente estar atraído pelo que considera a clareza -tanto política quanto moral- dos problemas africanos.

"Eu me pergunto: 'Por que a África?' Por que não estou motivada pelo Irã ou outro lugar?" disse Genevieve Parker, uma estudante de 17 anos da Potomac School em McLean, Virgínia, que acabou de voltar de uma viagem de verão à Etiópia, onde ajudou a instalar canos para um sistema de irrigação. "É apenas porque não entendo o que está acontecendo: quem são as pessoas boas e quem são as más."

Na África, disse Parker, "há muitos problemas, mas você pode agrupá-los. Eu consigo organizar a África na minha cabeça, em termos de pobreza, secas, mesmo os governos".

Para muitos, em uma época em que os Estados Unidos estão divididos em
republicanos e democratas, a favor e contra, cessar-fogo ou bombardeio, a natureza aparentemente não ambígua das necessidades da África pode ser unificante.

Daniel Millenson, um aluno do segundo ano da Universidade Brandeis que é líder da Força-Tarefa para Despojamento do Sudão, um movimento nacional que visa persuadir universidades, governos e corporações a deixarem de realizar negócios com o Sudão até que acabem os genocídios no país, disse que questões ligadas à África -fome, genocídio, doença- não polarizam as pessoas da forma como, digamos, acontece com a guerra no Iraque.

"A questão é muito popular porque pode atrair pessoas de ambos os lados, apóiem a guerra no Iraque ou não", disse Millenson. Segundo o jornal semanal "The Chronicle of Higher Education", o movimento para despojamento do Sudão é um dos mais ativos nos campi universitários nos últimos 20 anos.

Ainda assim, por que todo o interesse agora? Sim, as celebridades
provavelmente merecem grande parte do crédito, mas a ponte entre Hollywood e a África foi construída muito antes de Angelina Jolie ter nascido. Danny Kaye viajava para a África pela Unicef desde o governo Eisenhower e Bob Geldof apontou legiões de superastros para a África em 1985, com seus concertos Live Aid.

Alguns especialistas em África acreditam que o continente pode se beneficiar de uma população americana impaciente para sentir sua bondade e influência, mas ao mesmo tempo se sentindo evitada em grande parte do mundo.

William Easterly, um professor de economia da Universidade de Nova York e autor do livro "The White Man's Burden: How the West's Efforts to Aid the Rest Have Done So Much Ill and So Little Good" (o fardo do homem branco: como os esforços do Ocidente para ajudar os demais fizeram tanto mal e tão pouco bem), vê a África como preenchendo uma espécie de vazio existencial para os americanos que lutam em um mundo pós-11 de setembro.

"Nós tivemos esta repentina conscientização de que há muitas pessoas lá fora que nos odeiam e precisamos de pessoas que, pelo que sabemos, não nos odeiem, tenham grandes necessidades e que podemos ajudar", disse Easterly. "É o encontro perfeito de necessidades -um cruzamento onde precisamos da África e a África precisa de nós."

Independente dos motivos exatos para os americanos estarem respondendo,
disseram educadores, filantropos e ativistas, não há dúvida de que o atual aumento do interesse na África é bem diferente daqueles do passado. Raramente, eles disseram, o interesse popular na África abrangeu tantas questões e países diferentes e inspirou tantas pessoas diferentes a agirem.

"As questões da África nos anos 80 geralmente se concentravam em um país", disse Una Osili, uma professora associada de economia e estudos
filantrópicos da Universidade de Indiana, que cresceu na Nigéria. "O Live Aid se concentrava em uma questão -o combate à fome. Agora, múltiplas questões estão sendo tratadas: HIV/Aids, Darfur, a questão da pobreza." O foco agora é regional, ela disse, envolvendo vários países.

Em termos de doações financeiras ao continente, nenhum agência monitora cada dólar destinado ao continente, apesar de "ser seguro dizer que estão crescendo", disse Carol Adelman, diretora do Centro para a Prosperidade Global, no Instituto Hudson em Washington.

O fato dos Bills -Clinton e Gates- munidos de dólares estarem viajando em apoio às suas fundações também não atrapalha.

Individualmente, muitas caridades menores dizem estar experimentando uma generosidade sem precedente. "A resposta ao nosso esforço tem melhorado drasticamente; ela quintuplicou" nos últimos anos, disse Paul Newell, um diretor do escritório de Nova York do Fundo Ubuntu para Educação, que ajuda os sul-africanos.

Um recente evento para arrecadação de fundos repleto de celebridades no Puck Building, em Manhattan, que teve Kevin Bacon como mestre de
cerimônias -Donna Karan e Iman estavam presentes- superou sua meta inicial de arrecadação em 50%, levantando US$ 600 mil, disse Newell.

E as pessoas estão sendo inspiradas a criarem suas próprias pequenas
instituições de caridade. Em junho, por exemplo, 125 pessoas, que em outras épocas poderiam se satisfazer enviando centavos pelo correio para a Unicef, se reuniram em um restaurante de Dobbs Ferry, Nova York, e realizaram um leilão silencioso para levantar dinheiro (US$ 30 mil) para um hospital na Tanzânia.

"Para construir um hospital, a evidência tangível do destino de seu dinheiro é muito gratificante", disse Susan Konig, uma organizadora do evento. Ela acrescentou: "Não é uma coisa amorfa, mas um prédio de blocos de concreto palpável onde as pessoas na Tanzânia poderão passar por exames oftalmológicos, receber medicamentos para Aids e acompanhamento da gravidez".

Os novos benfeitores da África também querem experimentar a África
diretamente, disseram educadores e representantes do setor de turismo. Nos últimos anos, entre os americanos o turismo está em alta no Quênia, Ruanda, Zâmbia e África do Sul, segundo os conselhos nacionais de turismo e embaixadas destes países. De 2003 a 2005, as viagens ao Quênia dobraram para 73 mil e cresceram quase 16% até esta altura do ano. Os visitantes americanos à África do Sul saltaram de 170 mil, em 2001, para 233 mil em 2005.

Quanto aos estudantes, o dr. James Ellis, o diretor de relações
internacionais da Universidade de Johannesburgo, na África do Sul, também notou nos últimos anos um aumento acentuado na vinda de americanos para estudar na universidade e percebe uma mudança em seus motivos. Nos anos 90, eles vinham por curiosidade, para ter um vislumbre da África do Sul pós-apartheid. Agora, ele disse, eles vêm para cuidar de crianças e construir casas. "Eles querem ter a sensação de que deixaram algo, fizeram algo", disse Ellis.

De forma semelhante, os paroquianos da Igreja Presbiteriana de Cristo em Madison, Wisconsin, não apenas arrecadaram em cinco meses US$ 200 mil para Ruanda, mas no ano passado enviaram sete missionários para lá para ajudar os pobres -um deles Ellen Murdoch, 58 anos, que disse ter sido motivada a agir após alugar o DVD de "Hotel Ruanda".

Mas onde todo este bem deixará a África? Quando se trata de interesse de celebridades, não é difícil encontrar cínicos, já que raramente passa um dia sem que alguma personalidade apareça nos jornais e noticiários sem estar envolvida em alguma causa africana -Jay-Z em água limpa, Gwyneth Paltrow na ajuda às crianças e Lucy Liu na Aids.

Michael Musto, um colunista de celebridades para o jornal semanal "The
Village Voice" de Nova York, considera o atual interesse na África apenas como a causa do momento entre os famosos.

"As celebridades", disse Musto, "acrescentaram um toque glamouroso a isto". E isto atende a elas mesmas, especialmente quando precisam de alguma publicidade positiva, como no caso de Lindsay Lohan, que sofreu um ano de tratamento difícil pelos tablóides por seu comportamento festeiro e prometeu visitar ao Quênia em prol da Campanha Um, ele disse.

E Paul Theroux, um escritor que atuou nas Peace Corps na África nos anos 60, alertou contra se enobrecer por meio de gestos grandiosos em um artigo de opinião no "The New York Times", em dezembro passado.

"Como a África parece inacabada e tão diferente do restante do mundo", ele disse, "é uma paisagem na qual uma pessoa pode esboçar uma nova
personalidade, atraindo assim mitomaníacos", ele escreveu, argumentando que a África precisa cultivar seus próprios salvadores.

Mas, disse Morgan Binswanger, um antigo agente de ligação entre artistas e instituições filantrópicas para a Creative Artists Agency em Los Angeles, "há interesse próprio e há interesse próprio esclarecido, e a fronteira entre os dois é cinzenta. Eu acho que aqueles que dão um passo à frente e realmente praticam um interesse próprio esclarecido promovem uma agenda".

Alyssa Milano certamente espera que seja verdade. A atriz, que viajou pela Angola destruída pela guerra civil em 2003 (e se perdeu em um campo minado ativo, felizmente sem conseqüências), disse que a África é uma forma das celebridades transformarem a atenção sem precedente dedicada às suas vidas em algo produtivo.

Don Cheadle, o astro do filme "Hotel Ruanda" de 2004, se recusou a julgar se a África se tornou de fato uma moda que atende aos interesses próprios das celebridades, agora que mesmo estrelas mais jovens como Lohan estão agindo de forma séria a respeito.

Mas Cheadle disse que sente que as celebridades podem causar um impacto: "As pessoas em Ruanda me dizem pessoalmente que o filme teve um enorme impacto. Elas disseram que as pessoas costumavam vir apenas para ver os gorilas, mas agora vêm apenas por interesse na própria Ruanda".

A grande pergunta é se as pessoas comuns manterão o interesse na África
assim que as celebridades trocarem o foco de sua atenção. Como Musto disse: "Assim como um restaurante da moda dura 18 meses, o mesmo acontecerá com o interesse na África".

Fazendo cena
Algumas das celebridades que visitaram a África desde 2004 e onde estiveram:

Clay Aiken (Uganda), India Arie (Quênia), Drew Barrymore (Quênia), Don
Cheadle (Ruanda, Uganda e Quênia), Bill Clinton (14 países), George Clooney (Darfur), Matt Damon (Zâmbia), Mia Farrow e o filho Ronan Farrow (Darfur), Roger Federer (África do Sul), Lawrence Fishburne (África do Sul), Bill e Melinda Gates (África do Sul, Lesoto), Angelina Jolie (Etiópia, Quênia, Namíbia), Quincy Jones (África do Sul), Ashley Judd (África do Sul), Alicia Keys (África do Sul), Lucy Liu (Lesoto), Alyssa Milano (Angola), Brad Pitt (Etiópia, África do Sul, Namíbia), Jessica Simpson (Quênia) e Oprah Winfrey (África do Sul).

Paula Schwartz contribuiu com reportagem para este artigo. George El Khouri Andolfato

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