UOL Notícias Internacional
 

13/08/2006

Triplicando as forças, Israel expande ofensiva no Líbano

The New York Times
John Kifner e Greg Myre

Em Beirute, Líbano
Israel enviou tropas, tanques e comandos ao sul do Líbano no sábado, triplicando suas forças, avançando rumo ao Rio Litani e realizando 80 ataques aéreos contra os combatentes do Hizbollah, um dia após uma resolução do Conselho de Segurança da ONU pedir o cessar-fogo.

O gabinete israelense considerará a resolução do Conselho de Segurança em sua reunião regular de domingo, mas está longe de claro quando terá fim a grande ofensiva militar ordenada pelo primeiro-ministro Ehud Olmert, aparentemente com aprovação americana apenas horas após a votação da ONU, na sexta-feira.

"Esta operação visa impedir o Hizbollah de disparar foguetes contra o norte de Israel e não é limitada por algum prazo", disse um porta-voz do governo, Avi Pazner.

O líder do Hizbollah, o xeque Hassan Nasrallah, apareceu na televisão na noite de sábado para acusar que "nada mudou" desde a resolução da ONU, mas prometeu cumprir o cessar-fogo assim que entrar em vigor.

"A guerra não acabou, porque a agressão ainda prossegue", ele disse, mas acrescentou que suas forças baixarão as armas "quando a agressão israelense parar". O governo libanês, que propôs o envio de 15 mil soldados do exército libanês ao sul em conjunto com uma força de paz internacional de 15 mil soldados para formar uma zona tampão, se reuniria para votar a resolução do Conselho de Segurança na noite de sábado.

Enquanto isso, a Nova Zelândia e a Itália disseram no sábado que estavam prontas para contribuir com soldados para a força de paz, informou a agência de notícias "The Associated Press".

O general de exército Dan Halutz, o chefe do Estado-Maior das forças armadas israelenses, disse que triplicou o número de seus soldados no Líbano -para 30 mil ou mais- e que espera lutar por várias semanas apesar do pedido de cessar-fogo. "Nós estamos combatendo o Hizbollah e continuaremos lutando até que o cessar-fogo seja decidido", Halutz disse aos repórteres em uma base do exército no norte de Israel. "O fato é que a resolução da ONU aceita ontem não se aplica imediatamente ao acordo de cessar-fogo. Assim que o acordo estiver completo em todos os seus detalhes, então poderão decidir."

Os ataques aéreos durante a madrugada atingiram vários pontos do Líbano, de Tiro a sudoeste ao Vale de Bekaa ao nordeste. Entre os alvos atingidos estava uma usina de força perto de Sidon e outra em Tiro, assim como o último ponto oficial de travessia remanescente para a Síria, em Arida, perto da costa norte de Trípoli, aberto para comboios de ajuda humanitária e para os civis que estão fugindo do combate. A estrada ficou intransitável, mas os motoristas tentavam contorná-la por sulcos e valas.

Em um ataque aéreo, um comboio com cerca de 500 veículos transportando civis e forças de segurança libanesas, escoltado por forças de paz da ONU e fugindo para o norte de Merj' Uyun, com permissão negociada com Israel, foi atingido perto de Shtaura, no vale de Bekaa.

Testemunhas e médicos disseram que pelo menos seis pessoas morreram, incluindo um oficial do exército libanês. As forças armadas israelenses disseram que o comboio foi alvejado por "suspeita" de que poderia conter membros do Hizbollah. As imagens na televisão mostraram carros destruídos, os sapatos de uma mulher e outros pertences espalhados pela estrada.

Números incompletos de mortos chegavam ao longo de todo o dia: pelo menos 15 na aldeia de Rachef, oito perto dos portos de Sidon e Trípoli, três em ataques aéreos em Kharayeb e um soldado libanês em um ataque aéreo próximo de uma base militar no Vale de Bekaa.

Da cidade de Metulla, no norte de Israel, colunas de fumaça eram visíveis em várias aldeias libanesas do outro lado da fronteira. As tropas israelenses estariam enfrentando combatentes do Hizbollah perto da aldeia de Ghanduriye, o que colocaria o avanço entre cerca de 11 quilômetros ao norte da fronteira e cerca de 3 quilômetros ao sul do Rio Litani. A força aérea israelense executou repetidos ataques ao redor da aldeia. Os combates marcaram o ponto mais distante que Israel avançou no sul do Líbano desde que a guerra teve início há um mês.

Um comandante israelense do avanço por terra, o general de brigada Alon Friedman, disse à rádio israelense que "este é um plano gradual e a primeira etapa que nos permitirá o controle por terra durará alguns dias. As operações de limpeza ocorrerão em seguida, uma etapa que poderá durar alguns dias ou algumas semanas".

Pazner, um porta-voz israelense, ao ser perguntado sobre o ataque ao comboio, insistiu que o exército israelense não visa civis. "Este é nosso orgulho, o de apenas atingirmos o Hizbollah", disse Pazner.

No Líbano, o Alto Conselho de Ajuda, um órgão do governo que está compilando os relatórios de baixas, disse que 1.056 libaneses foram mortos, a grande maioria civis e cerca de um terço deles crianças. Ele diz que 3.600 pessoas foram feridas. Devido às condições caóticas aqui, é impossível verificar estes números de forma independente. Eles podem muito bem ser ainda maiores porque as equipes de resgate e ajuda não conseguiram chegar a muitas aldeias onde corpos podem estar enterrados sob escombros, devido aos ataques e danos às estradas.

Em Israel, as autoridades informaram que 3.650 foguetes atingiram o país desde que os combates tiveram início. Eles disseram que 51 civis foram mortos em ataques com foguetes e que 430 ficaram feridos.

Os comboios de ajuda da ONU e de outras agências de ajuda não conseguem levar ajuda às áreas atingidas há dias. Membros da equipes de ajuda disseram que precisam telefonar para a embaixada israelense em Washington para pedir permissão para a viagem dos comboios e ela raramente é concedida.

Enquanto o Gabinete libanês preparava sua reunião, o primeiro-ministro, Fouad Siniora, arquiteto do plano para o envio do exército libanês ao sul para estabelecer a soberania do governo na área há muito dominada pelo Hizbollah, disse: "A resolução é do interesse de Israel".

Apesar do Líbano não ter obtido tudo o que esperava na resolução de sexta-feira -particularmente uma solução da ONU para a disputa em torno da área das Fazendas de Shebaa, reivindicada pelo Líbano e ocupada por Israel- os termos foram específicos em "aceitar os esforços do primeiro-ministro libanês e o compromisso do governo do Líbano, em seu plano de sete pontos, de estender sua autoridade sobre seu território, por meio de suas forças armadas legítimas, de forma a não haver armas sem o consentimento do governo do Líbano", acrescentando que o plano exige "a retirada imediata das forças israelenses do sul do Líbano".

Nas ruas de Beirute, havia pouca comemoração diante da perspectiva de um fim rápido aos combates. Em vez disso, havia exaustão diante de um mês de guerra. A paz parecia fugaz.

"Ninguém conseguiu nada", disse Jamal Ghosn, que dirige um café de Internet em Beirute. "Tudo o que temos é 1.000 mortos e uma enorme destruição. A estatura do Hizbollah cresceu. Mas a maior derrotada é a população."

Uma longa fila de carros, a maioria táxis Mercedes-Bens altamente danificados, se formou em rua em Hamra em busca de gasolina. As lojas estavam abertas, mas a maioria estava vazia, como tem ocorrido desde o início da guerra. Alguns grupos de pessoas se formavam ao redor de bancas de jornais para discutir os eventos mais recentes.

"Há o Hizbollah, o partido religioso extremista, que não apoio, e há a resistência libanesa que está combatendo a ocupação israelense, que apóio 100%", disse Amin Younes, o dono do Cafe Younes, um pequeno café no bairro de Hamra, em Beirute. "Finalmente o Hizbollah ergueu nossa cabeça."

Os jornais cujas manchetes saudavam a resolução da ONU também mostravam fotos terríveis das vítimas mais recentes: corpos ensangüentados, desfigurados, em grandes fotos coloridas. Fotos semelhantes de bebês mortos cobertos de poeira estavam espalhadas por toda a cidade.

No Malak al-Batata, um restaurante fast food, dois homens estavam sentados na calçada, de costas para uma TV sintonizada no noticiário. O rádio tocava uma canção patriótica sobre o sul do Líbano.

"Oh, todos amam tanto o sul", disse um homem enquanto ouvia a canção familiar. "Eles amam tanto que o destruíram. É como cantar -eu te amo até a morte."

Reportagem de John Kifner, em Beirute, e Greg Myre, em Metulla, Israel. Jad Mouawad, em Beirute, contribuiu com reportagem para este artigo. George El Khouri Andolfato

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