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14/08/2006

Água, água, por toda parte, e muito o que beber

The New York Times
Alexei Barrionuevo, em Chicago
Um pouco antes do meio-dia, no último sábado, um pequeno número de barcos começou a cruzar o Lago Michigan. As embarcações vinham de várias direções, dirigindo-se a um ponto a cerca de 200 metros da costa. Quem quer que dirigisse pela Lake Shore Drive, que acompanha o contorno do lago por vários quilômetros, não teria percebido nada de inusual. Tratava-se de apenas mais uma cena de verão. No entanto, cerca de uma hora depois, aquilo que era um grupo desorganizado de cerca de uma dúzia de barcos se transformou em uma vasta armada.

Centenas de barcos, de iates de milhões de dólares a lanchas com motores de popa e pequenas embarcações de pesca se fundiram com barcos de borracha infláveis, trampolins aquáticos e docas improvisadas, formando cerca de cinco cadeias aleatoriamente conectadas flutuando por uma zona conhecida de forma não oficial como Playpen.

Esse era o festival anual de embarcações patrocinado pela revista "Chicago Scene", uma versão maior e mais promocional dos encontros menores mas não menos animados que aconteceram ao norte do Píer da Marinha, aqui, nos finais de semana, durante os últimos verões.

"Onde mais é possível ver algo como isso e desfrutar de uma festa aquática?", pergunta Frank Montana, 34, freqüentador regular de Playpen, enquanto acena em direção aos prédios atrás de si, embarcado no seu Sea Ray Express Cruiser de 40 pés.

Em uma fileira ondulante de barcos, vários iates pequenos ou médios se reuniam em torno de um núcleo. Eles exibiam faixas trazendo os nomes de clubes locais, e sistemas coordenados de som tocam música de DJs locais.

Nos barcos ao redor, mulheres de biquíni procuravam permanecer de pé enquanto dançavam nos conveses escorregadios, ou pulavam de um barco a outro, procurando drinques melhores. Outras saltavam em trampolins flutuantes gigantes, ou faziam batalhas com grandes pistolas d'água. Em alguns barcos, acendiam-se churrasqueiras.

Alimentadas por afluentes donos de embarcação e pelas mulheres jovens que são atraídas por eles e seus barcos, essas festas aquáticas diurnas se transformaram em focos de atração para donos de clubes noturnos e empreendedores que usam o cenário para atrair pessoas para os seus estabelecimentos assim que o sol se põe. No ano passado os donos do clube animaram ainda mais a festa, trazendo DJs para atuarem nos barcos durante o dia.

"Trata-se de exposição máxima", afirmou Jason Kalendr, 28, mais conhecido neste cenário como DJ Kalendr, durante uma pausa nas festividades em um sábado. "Todos os que fazem parte deste negócio estão no lago." Ele, assim como qualquer DJ bem conhecido de Chicago, participa de graça da festa no lago.

E é difícil imaginar uma confluência mais perfeita de dinheiro, pele e exibicionismo.

"Comprei 11 biquínis só para este verão", diz Jamie Coates, 23, uma modelo e freqüentadora regular do Playpen, que deixou por um instante a tarefa de comparar o tamanho dos seios com uma amiga para falar com um repórter. Ela freqüenta os clubes desde os 18 anos. "Isto aqui é algo de novo e real."

Para os donos de barcos, isto é um passe livre para uma espécie de versão real da série "Girls Gone Wild". Montana, um empresário do setor de demolição e escavação, recebe de 30 a 50 pessoas todos os finais de semana no seu barco (no sábado passado havia 57 pessoas). Ele se refere à sua festa como "Club Montana".

Joey Vartanian, um dos donos do Chicago Crobar, diz que é adepto da navegação há 20 anos, mas que só começou a levar o Loonacy, o seu iate Sea Ray de 44 pés, ao Playpen para promover o seu clube nos últimos dois anos.

"O Playpen mobiliza pessoas para as festas durante todo o final de semana. Ele cria um grupo central que mais tarde comparece ao seu clube, e essas pessoas atraem muita gente", disse ele. "Vejo as mesmas pessoas no meu clube na sexta à noite, no barco no sábado, no clube no sábado à noite, e às vezes até mesmo no lago no domingo."

No sábado passado Vartanian e o seu parceiro de negócios fizeram festas no Loonacy e em outros barcos que alugaram, incluindo uma lancha de 21 pés batizada de Crobar Special Ops Boat, repleta de homens e mulheres bronzeados, vestindo trajes sumários, que atiravam nos convidados com "metralhadoras d'água".

Ray Poe, um agente imobiliário de 38 anos, viu como um investimento de US$ 400 mil em um iate Carver de 43 pés pode pavimentar o caminho para um estilo de vida extravagante. Ele comprou o barco no início do ano, e atualmente leva cerca de 30 pessoas todos os finais de semana -- cerca de 20 delas mulheres -- e leva equipamento de som, vodka, cerveja e gelo para Brian Pfeiffer, promotor de eventos de um clube chamado Surreal Chicago. Em troca, ele é bem recebido em salas VIP de vários clubes da cidade. "Quando você é dono de um barco, todo mundo quer ser seu amigo", explica Poe.

Embora a área Playpen tenha sido sempre um local popular para ancorar os barcos, nadar e apreciar a beleza dos arranha-céus, os moradores locais dizem que ela só se transformou em um destino para beber e fazer festas nos últimos anos.

Observando a cena no último sábado, Ted Widen, editor da "Chicago Scene" e o arquiteto do evento do dia, tentou contar os barcos. "É uma tarefa exaustiva", diz ele, relembrando os últimos seis anos de festas. "Gostávamos de quanto havia uns dez barcos, anos atrás. Foi então que o número subiu para 50, e achamos que não dava para aumentar ainda mais. Mas, no ano seguinte havia cem. E neste ano, mais de 500."

Alguns participantes antigos acham que a festa está ficando muito grande e agitada, e que poderá se transformar em uma calamidade.

"Às vezes as coisas ficam meio descontroladas, e eu temo que alguém acabe se machucando", diz Vartanian, que se recusa a amarrar a sua embarcação a outras por motivos de segurança, preferindo em vez disso ancorar o barco a três metros do aglomerado.

Até o momento ninguém se machucou seriamente, embora a Guarda Costeira de vez em quando tenha que transportar participantes doentes ou feridos para a terra firme.

Widen dá um suspiro de alívio à medida que a festa se aproxima do fim. "No ano passado, um rapaz quase se afogou. Ou pelo menos foi isso o que pensamos A Guarda Costeira, helicópteros, mergulhadores, todos procuraram por ele, depois que o rapaz caiu entre dois barcos. Mas subitamente ele apareceu e indagou, 'O que vocês estão procurando?'".

Membros da polícia e da Guarda Costeira insistem em dizer que não tratam os donos dos barcos com complacência, e afirmam que houve pouquíssimos incidentes sérios nessas festas. No entanto, à medida que esses eventos se tornam mais populares, o número cada vez maior de barcos faz com que às vezes seja difícil encontrar embarcações acidentadas, afirma John Ariail, oficial da Guarda Costeira.

Na festa da semana passada, a Guarda Costeira e a polícia faziam patrulhas em barcos WaveRunner e grandes lanchas que tinham armas automáticas ameaçadoras na popa.

Mas nem todo mundo se deixa impressionar pelas jovens com óculos escuros Dior ou Prada, que de vez em quando jogam latas de cerveja vazias e cigarros no lago.

"Fico assombrada em ver este tipo de energia selvagem no meio da tarde", disse Keala Murdock, 28, que participou de uma das festas há algumas semanas. "Isso é algo que a gente espera encontrar em uma festa de bêbados ou em um clube barato".

Eric Ferkenhoff contribuiu para este artigo Danilo Fonseca

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