UOL Notícias Internacional
 

14/08/2006

Escândalo atinge o Concurso Internacional de Piano Villa-Lobos

The New York Times
Larry Rohter,
em São Paulo
O novo Concurso Internacional de Piano Villa-Lobos tinha como objetivo lembrar ao mundo que o Brasil não é apenas uma potência da música popular, além de encorajar os jovens pianistas a acrescentarem aos seus repertórios os trabalhos do mais renomado compositor clássico do Brasil. Em vez disso, o evento, cuja duração é de uma semana, terá início aqui nesta segunda-feira com o seu brilho maculado por acusações de que o processo de seleção dos concorrentes foi manipulado.

As acusações foram feitas pelo ex-diretor do concurso, o pianista israelense Ilan Rechtman, que foi demitido em abril último. Ele afirmou que John Neschling, regente e diretor artístico da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, e o organizador do concurso, interferiu de forma inapropriada no processo de seleção, a tal ponto que 11 dos 20 pianistas que estarão tocando aqui não constavam da lista original de concorrentes escolhidos.

"Esta seleção precisa ser política, com um candidato de cada país", teria dito Neschling a Rechtman, segundo este último, em um encontro a portas fechadas em abril, pouco antes de ele ser demitido. "Vamos selecionar três chineses, mas devemos nos assegurar de que haverá mais brasileiros do que chineses. Afinal, este é um concurso brasileiro", teria continuado Neschling.

Em uma entrevista na quinta-feira, na sede da orquestra, aqui em São Paulo, Neschling, um brasileiro que talvez seja mais conhecido como compositor da trilha sonora do filme "O Beijo da Mulher-Aranha", negou furiosamente que algum dia tenha feito tais comentários ou agido de maneira imprópria. Segundo ele, Rechtman foi demitido porque a sua conduta era "moralmente inaceitável", e, caso tivesse permissão para continuar no cargo, teria prejudicado a credibilidade do concurso, que é patrocinado pelo Ministério das Relações Exteriores e por duas grandes empresas brasileiras.

"É claro que se trata de política, mas apenas de política cultural", argumentou Neschling, referindo-se ao processo de seleção. "Queremos tornar a música de Villa-Lobos mais popular no mundo. Essa é a única política que temos". Neschling disse que as acusações, amplamente divulgadas na imprensa brasileira, se constituem em um insulto àquela que ele descreve como sendo "a melhor orquestra da América Latina". Sob a sua direção, a orquestra prosperou, realizando mais de 130 concertos por ano, fazendo turnês, criando uma base de 10 mil assinantes e gravando obras de compositores brasileiros.

"Nós trabalhamos arduamente e produzimos uma enormidade", declarou Neschling. "Assim sendo, a suposição de que uma instituição como esta se envolveria em alguma fraude de baixo nível, em algum jogo sujo para ludibriar os músicos, é algo de ridículo que só pode ter saído de uma mente doentia."

Ao mesmo tempo em que demitiu Rechtman, Neschling também afastou um norte-americano que era um dos dois juízes responsáveis pela avaliação dos cerca de cem candidatos, alegando que ele era muito ligado a Rechtman. O norte-americano, Jeffrey Moidel, foi substituído pela pianista brasileira e ex-administradora de gravações Rosana Martins, que depois disso foi nomeada administradora artística da orquestra.

"Nunca passei por nada desse tipo antes, e acho tudo isso muito estranho e peculiar" desabafou em uma entrevista por telefone Moidel, que é pianista, professor de canto e diretor de ópera, e que leciona no Cornish College of Arts, em Seattle. "Não quero ser muito simplista e dizer que Neschling colocou no cargo a pessoa que queria, mas os resultados não correspondem às avaliações que fiz."

No universo refinado, mas altamente competitivo, do piano clássico, a confusão ocorrida aqui se transformou em tema de discussões, sendo que estudantes de piano de todo o mundo debatem o assunto em blogs ou por e-mail. Um website (www.alink-argerich.org/newsall.asp) dedicado a concursos de piano clássico, administrado pelo crítico e escritor alemão Gustav Alink, deu ampla cobertura à polêmica, referindo-se ao caso como "um processo de seleção maculado" pelo escândalo.

Mas Neschling alega que foi compelido a tomar uma atitude contra Rechtman, que segundo ele encorajou e promoveu irregularidades no processo seletivo. De acordo com Neschling, a irregularidade mais séria foi a decisão de Rechtman de modificar a seleção feita pelo segundo juiz, o professor brasileiro de música e de piano Gilberto Tinetti.

Rechtman admite ter alterado algumas das avaliações. Mas ele disse que só agiu dessa forma a fim de impedir que o concurso se transformasse em alvo internacional de piadas, depois que Tinetti lhe disse ter reconhecido a interpretação de alguns concorrentes brasileiros, e que os tinha favorecido. "Como diretor do concurso, eu estava atuando em um ambiente no qual tudo era político, onde pouquíssimo valor era dado aos fatores de ordem musical. Assim, eu fiz o que achei que tinha que ser feito", justifica-se Rechtman. "Se tudo tivesse sido meticulosamente categorizado com a certificação Price Waterhouse, acredite em mim, eu não teria mexido em nada. Mas tudo à minha volta era corrupção."

Rechtman disse ter ficado especialmente perturbado com o fato de um pianista chinês, cuja amostra de interpretação ele descreve como "bela e magnífica", ter sido avaliado de forma tão negativa por Tinetti que o músico provavelmente ficaria impossibilitado de se qualificar. O pianista, Wenyu Shen, ficou em segundo lugar no prestigioso Concurso Queen Elizabeth, em 2003, aos 16 anos de idade, e é tido como um dos mais promissores pianistas jovens do mundo.

Tinetti alega que a exclusão de Shen não foi parte de uma tentativa orquestrada de excluir um forte candidato estrangeiro. Segundo ele, o que ocorre é que a avaliação musical é um processo altamente subjetivo, e o seu gosto difere do de Rechtman. "Tenho uma reputação de seriedade e justiça e, portanto, estou indignado por ter sido acusado de favorecer amigos", queixa-se Tinetti. "Sempre haverá discordâncias no campo artístico. Esse candidato chinês, em particular, enviou um disco medíocre, e eu ouvi outros que na minha opinião eram melhores."

Também foi questionada a inclusão na etapa final do concurso da própria pianista da orquestra de São Paulo, a russa Olga Kopylova. Rechtman diz se recordar de Neschling lhe ter dito: "Vamos inseri-la, já que isso será bom para a orquestra". Neschling nega essa acusação, mas defende a escolha, alegando: "Nenhuma lei ou regra proíbe um músico da nossa companhia de participar do concurso, contanto que ele passe pelo mesmo processo seletivo que os demais concorrentes".

Rechtman e os dois juízes também disseram ter detectado edições nos CDs apresentados por alguns pianistas, o que se constitui em uma violação das regras do concurso, e que deveria ter implicado na eliminação desses músicos. Mas dois dos pianistas acusados de violar as regras, um cubano que mora no Brasil e um russo, se classificaram apesar disso entre os 20 finalistas que tocarão perante o júri. Como resultado da polêmica, sete dos 11 juízes originalmente contratados se retiraram do concurso. Entre eles estão Robert Moir, da Pittsburgh Symphony; Loie Farris, da Toronto Symphony; David Lockington, um ex-diretor musical da Long Island Philharmonic; e James Keller, que já foi editor musical da revista "The New Yorker".

"É óbvio que eles estão duvidando da integridade do concurso", disse Moidel, acrescentando que alguns juízes têm mantido contato com ele. "Depois do que aconteceu comigo, eles não sabem se as notas que darão realmente terão importância, já que a minha não teve importância alguma."

Nenhum dos juízes que renunciou e que foi procurado pelo telefone quis fazer comentários que não fossem em off. "Eu desejaria jamais ter me envolvido nisso", declarou um deles, que não quis divulgar o seu nome porque Neschling está ameaçando processar Rechtman e Moidel. "O resultado foi fraudado, e não quero ter nada a ver com isso."

Uma dos finalistas também se retirou do processo, alegando motivos similares: Inna Faliks, uma norte-americana de 27 anos, nascida na Ucrânia, e que ganhou vários outros concursos. Ela abandonou a competição nesta semana, oficialmente devido a problemas de saúde, mas em uma entrevista telefônica a partir de Nova York, onde mora, ela admitiu que outros fatores também influíram na sua decisão: "Eles conhecem a reputação que têm, e eu não acho que gostaria de comprometer a minha saúde, a minha energia e a minha carreira musical participando de algo que parece contar com menos integridade do que seria apropriado", afirmou a pianista. Danilo Fonseca

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