UOL Notícias Internacional
 

15/08/2006

Cessar-fogo frágil permite que milhares voltem para casa

The New York Times
John Kifner*

em Beirute, Líbano
Dezenas, talvez centenas de milhares de libaneses lotaram as ruas do Sul na noite de segunda-feira (14/8) com o início de um tenso e frágil cessar-fogo entre tropas israelenses e guerrilheiros do Hizbollah.

O cessar-fogo parecia estar se sustentando, mas o exército israelense disse no início da terça-feira que o Hizbollah tinha lançado vários foguetes, possivelmente Katyushas, tarde na segunda-feira, e que todos tinham caído no Sul do Líbano. Os israelenses disseram que não tinham respondido ao que parecera um esforço de provocação.

Com colchões e móveis amarrados em cima dos carros, os refugiados, na maioria xiitas, empacotaram o que tinham levado com eles quando fugiram e voltaram para casa, horas depois do cessar-fogo iniciado às 8h da manhã. Em muitos casos, encontraram suas casas ou aldeias destruídas pelo mês de ataques israelenses. Muitos acenavam com bandeiras vermelhas e brancas com o cedro do Líbano ou amarelas do Hizbollah e faziam sinais de vitória.

No Norte de Israel, moradores começaram a sair de abrigos contra bombas na segunda-feira. Mas os residentes que havia deixado a região pareceram mais circunspetos que os libaneses em relação à solidez do cessar-fogo, e poucos voltaram.

Rajadas de metralhadoras e fogos de artifício soaram em Beirute na noite de segunda-feira -um contraste em relação às bombas dos últimos dias- quando o xeque Hassan Nasrallah, líder do Hizbollah, apareceu na televisão para declarar que o grupo havia vencido "uma vitória estratégica e histórica".

O presidente Bush, porém, respondeu de Washington com a pergunta: "Como vocês podem se dizer vitoriosos quando eram um Estado dentro de um Estado, seguros no Sul do Líbano, e agora vão ser substituídos pelo exército libanês e uma força internacional?". Bush e seus assessores procuraram retratar o acordo de cessar-fogo como afirmação da política externa americana.

"Demorou um tempo até fechar a resolução", disse ele no Departamento de Estado. "Mas os observadores mais objetivos dão crédito aos EUA por liderar o esforço para conseguir uma resolução que agisse na raiz do problema."

A questão crítica do que exatamente acontecerá com os numerosos foguetes do Hizbollah, alguns de longo alcance, continua um mistério e pode atrapalhar o cessar-fogo. Em manobra política delicada, o Hizbollah parece estar hesitando diante da decisão do governo libanês de concordar com a resolução do Conselho de Segurança da ONU que determina que o exército libanês, junto com uma força internacional, deve ser a única força legítima no Sul do Líbano.

Na segunda-feira, a ONU assumiu a tarefa de criar rapidamente uma nova força para patrulhar o Sul do Líbano, como pede a resolução. Vários países expressaram interesse em se unir à tropa que está sendo planejada com assistência francesa e pode passar de 2.000 membros para 15.000.

"A situação em terra é muito complexa", disse Mohammed Chatah, autoridade libanesa trabalhando por trás das cenas em nome do primeiro-ministro Fouad Siniora. Uma reunião do gabinete, marcada para segunda-feira para discutir o plano militar, foi adiada enquanto as negociações continuavam com Nabih Berri, porta-voz xiita do parlamento do Líbano que se tornou mensageiro do Hizbollah.

O problema foi de percepção política, disse Chatah, pois qualquer acordo de desarmamento dos membros do Hizbollah -agora considerados por muitos como heróis nacionais- os faria parecer perdedores.

"Isso não é desarmamento", disse Chatah. "Ninguém espera isso. É isso que o exército libanês vai fazer, por razões óbvias."

"Então sim, estamos resolvendo as questões", disse das discussões nas quais alguns dos ministros do governo foram contra a posição do Hizbollah. "Não há crise nacional. Há questões a serem resolvidas. Qualquer implicação de que o Hizbollah é uma milícia renegada é errada", disse ele. "A maior parte do pessoal do Hizbollah é de classe trabalhadora, que mora na região. Então sim, talvez se derreta; permaneça ativa, mas não de forma militar."

Reunir uma força militar internacional com 15.000 soldados libaneses é uma medida considerada crucial para o esforço de paz.

Em Israel, enquanto isso, o primeiro-ministro Ehud Olmert, enfrentando amplas críticas, admitiu em discurso ao parlamento israelense que havia "deficiências" na condução da guerra.

"Teremos que rever todas as batalhas", disse Olmert. "Não vamos varrer as coisas para debaixo do tapete."

Antecipando a possibilidade de outra guerra com o Hizbollah no futuro, ele disse que Israel ia "se sair melhor" da próxima vez.

O rival de Olmert, Benjamin Netanyahu, do partido de direita Likud, partiu para o ataque, no que certamente se tornará uma crise política em Israel. "Deve ser dito honestamente que há muitas falhas, falhas em identificação da ameaça, na preparação para responder à ameaça, na administração da guerra, na administração interna", disse Netanyahu. Ele acrescentou que Israel deve "aprender as lições e corrigir os erros".

Durante o dia na segunda-feira, autoridades israelenses disseram que mataram oito suspeitos combatentes do Hizbollah em quatro pequenas emboscadas.Nenhum foguete do Hizbollah caiu em Israel durante o dia.

Enquanto o cessar-fogo amanhecia na segunda-feira, aviões israelenses cobriam Beirute com panfletos com o desenho de um clérigo de turbante preto, presumivelmente Nasrallah, em cima de um castelo de areia, dizendo que o Hizbollah e seus mestres sírios e iranianos tinham levado o povo libanês ao "limite do abismo" com apenas "destruição, desabrigados e morte". O panfleto advertia que Israel poderia voltar com "toda a força necessária".

Mas a guerra psicológica pareceu ter pouco efeito sobre os refugiados que empacotavam seus pertences e se dirigiam ao Sul, expressando ódio a Israel -e, em um grau impressionante nesta nação normalmente pró-Ocidente, contra os EUA, que é tido como patrocinador incondicional dos israelenses.

"Bush fez isso", disse Majid Kubaisy, caminhando por cima de vidro quebrado e das ruínas de sua loja de artigos esportivos na área xiita do limite Sul de Beirute, onde residentes voltaram na segunda-feira para um cenário desolado de prédios destruídos, poeira e cheiro de explosivos.

Como muitas outras pessoas que voltavam aos seus bairros, Kubaisy culpou os EUA tanto quanto Israel pela destruição e disse que tinha apenas redobrado sua fidelidade ao Hizbollah.

"Se Nasrallah levantar a mão, todos seguirão", disse ele. "Desta vez defendemos nossas terras; da próxima tomaremos a ofensiva."

Nos Jardins de Sanayah, parque bem cuidado de quatro quadras em um bairro elegante sunita do oeste de Beirute, 7.000 refugiados, na maioria xiita, que tinham montado um acampamento de tendas, partiram para suas casas. As tendas que tinham ocupado o jardim foram retiradas, e as pessoas empilharam colchões e artigos de cozinha em seus carros para a viagem. Jovens voluntários que estudaram no Ocidente acenavam com pranchetas para organizarem a retirada na segunda-feira, enquanto um caminhão descarregava caixas do Crescente Vermelho de ajuda do Kuwait.

"Por que o seu governo dá bombas e inteligência à Israel?" disse Rahih Al Tiwwi, um dos voluntários, verificando a partida de seis membros da família de Omar Mezhef, que estavam em um Toyota.

Ali perto, uma minivan lotada com uma família estava carregando colchões de espuma. A frente da van estava decorada com um retrato de Nasrallah e um adesivo que mostrava um foguete com os dizeres: "a divina vitória".

Os voluntários que administraram o refúgio do parque eram um grupo jovem de voluntários de diferentes divisões religiosas libanesas. Perguntado sobre sua religião, normalmente um importante aspecto da identidade aqui, um dos voluntários respondeu: "Sou libanês".

"E que se dane a pergunta", acrescentou. "Sem ofensa."

Mais de 800.000 pessoas, quase um quarto da população libanesa, fugiu do Sul durante o conflito de um mês, escapando para a segurança relativa de Beirute e outras grandes cidades, onde procuraram refúgio nas escolas, parques e na casa de parentes.

No início da segunda-feira, muitos disseram que não acreditavam que suas dificuldades estavam terminadas.

Quando tentaram se dirigir para o Sul, os refugiados encontraram grandes engarrafamentos pelas estradas destruídas pelas bombas israelenses. A passagem estava particularmente difícil para as aldeias isoladas nas montanhas do Sul.

O engarrafamento começou a poucos quilômetros do sul de Beirute, perto de Naame, onde soldados libaneses e voluntários freneticamente tentavam dirigir o trânsito.

Mas, o que foi impressionante, em contraste com o trânsito normalmente beligerante do Líbano, as pessoas na estrada costeira se saudavam e trocavam bênçãos.

Trabalhadores correram para consertar estradas antes da enxurrada de carros. Perto de Sidon, tratores do município tentavam cobrir de terra uma área onde uma ponte tinha sido explodida, e os viajantes ajudavam. Quando a terra formou uma única passagem na ponte destruída, os motoristas, guiados pelos soldados libaneses, fizeram seu caminho pelo afunilamento de forma extraordinariamente ordenada.

"Finalmente podemos ir para casa vitoriosos e com a cabeça para cima", disse Muhammad Alaway, sentado em seu Volvo amarelo com todos os 13 membros de sua família. "Se encontrarmos nossa casa, vamos ficar nela", disse Alaway. "Se estiver destruída, vamos montar uma tenda e ficar ali até reconstruirmos."

*Robert f. Worth colaborou de Beirute, Hassan M. Fattah de Tiro, Líbano, e Greg Myre de Kiryat Shmona, Israel Deborah Weinberg

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