UOL Notícias Internacional
 

16/08/2006

Michael Schiavo desponta como arma política

The New York Times
Abby Goodnough

em Clearwater, Flórida
As cortinas ainda permanecem bem fechadas na casa de Michael Schiavo, em um beco sem saída daqui, e de certa forma ele permanece tão privado e inacessível quanto na época em que sua falecida esposa, Terri, esteve no centro de um fervoroso debate nacional sobre vida e morte, no ano passado.

Mas Michael Schiavo, que venceu uma difícil batalha legal para remover o tubo de alimentação de sua esposa com dano cerebral, também permanece furioso com os legisladores em Tallahassee e Washington que se intrometeram no caso. Daí a criação no início do ano da TerriPAC, um comitê federal de ação política voltado contra os políticos que tentaram impedir a morte de Terri Schiavo, e o surgimento de Michael Schiavo, segundo ele um sujeito normal e recém-casado, como arma política nas eleições de novembro deste ano.

Ele não é um orador nato, às vezes abandonando frases no meio ou lutando para encontrar as palavras certas. Ele não votava ou acompanhava as notícias até recentemente, ele disse, e nunca ouviu falar de comitês de ação política (PAC) até estranhos terem sugerido que iniciasse um no ano passado.

Ainda assim, Michael Schiavo voou para Connecticut no mês passado para ajudar Ned Lamont a derrotar o senador Joseph I. Lieberman na primária democrata. Schiavo lembrou aos eleitores que Lieberman apoiou um projeto de lei de emergência pedindo que um tribunal federal considerasse a reinserção do tubo de alimentação em Terri dias antes de sua morte, em março de 2005. Os pais de Terri, que eram contrários à sua morte e rejeitavam a alegação de Michael de que era o desejo dela, imploraram pela intervenção do Congresso e do presidente Bush.

Michael Schiavo também entregou em mãos uma carta cáustica à deputada Marilyn Musgrave, republicana do Colorado, que se manifestou fortemente em oposição à morte de Terri, e endossou sua oponente democrata, Angie Paccione. Ele até mesmo esteve presente em uma convenção de bloggers em Las Vegas, em junho, para ganhar mais espaço no mundo online, participando de uma "mesa redonda" no Riviera Hotel.

"Ele é a face humana da intrusão do governo", disse Paccione, explicando o motivo para ter aceito a oferta de Michael Schiavo de aparecer com ela em uma coletiva de imprensa em 12 de julho. "Nós precisamos que mais cidadãos como ele se manifestem e coloquem um fim nisto. As pessoas confiam em alguém que se parece com elas, fala como elas e tem a mesma experiência que elas."

O deputado Jim Davies, um democrata de Tampa que está concorrendo para substituir o governador Jeb Bush, um republicano, distribuiu uma carta que Michael Schiavo escreveu após endossar sua candidatura em junho. Davis foi um dos principais oponentes da intervenção no caso Schiavo, fazendo críticas no plenário da Câmara antes que o Congresso aprovasse a agora famosa medida que Bush interrompeu suas férias para sancionar.

Michael disse que seu livro escrito às pressas, "Terri: the Truth" (Terri: a verdade, Dutton Adult, 2006) visa ser sua palavra final sobre os eventos que dominaram sua vida por 15 anos. Mas os dirigentes democratas de olho nas eleições de novembro viram ouro em sua revolta.

Quando estes dirigentes encorajaram Michael Schiavo a não desaparecer da atenção pública, o homem que manteve sua boca fechada durante toda sua luta para colocar um fim à vida de sua esposa -certa vez pulando uma cerca de 2,5 metros nos fundos de sua casa para evitar a imprensa aglomerada à frente dela- decidiu que tinha mais a compartilhar.

O que o motivou, ele disse, foram os recortes de jornal e vídeos de televisão do fim do caso, que não analisou até vários meses após a morte de sua esposa.

"Eu não prestei muita atenção neles nas últimas semanas porque estava passando meu tempo com Terri", disse Michael, 43 anos, em seu local de encontro preferido, o TGI Friday's perto de sua casa. "Mas quando eu vi tudo, eu pensei, isto está absolutamente fora de controle".

"Eu precisei lembrar às pessoas que o que este governo fez comigo, ele pode fazer com vocês."

O PAC de Schiavo ainda não fez solicitações diretas de contribuições, mas mesmo assim já levantou mais de US$ 26 mil em oito meses, em grande parte contribuições de US$ 100 ou menos feitas por meio de seu site na Internet, www.terripac.com. O comitê está quase falido no momento, tendo contribuído com US$ 4 mil para cinco candidatos democratas na Flórida, Colorado e Texas e gasto grande parte do restante em viagens, design do site e produção de um vídeo para ajudar com a arrecadação de fundos mais adiante.

"Nós ainda não somos um PAC financeiramente poderoso", disse Derek Newton, um consultor democrata em Miami que vendeu a Michael Schiavo a idéia do comitê e agora serve como seu diretor. "Nós estamos apenas estudando o que faz sentido e como podemos fazê-lo."

Como Michael Schiavo, Newton, 34 anos, está aprendendo no caminho. A
princípio ele não percebeu que PACs federais precisam declarar doações
apenas de US$ 200 ou mais, preenchendo uma pilha de papelada desnecessária. Apesar do trabalho com Michael Schiavo poder lhe dar projeção, Newton, que concorreu a prefeito de Miami em 2004, disse que foi motivado apenas pela revolta diante da política no caso Schiavo.

O PAC não é apenas dedicado à política. Seu site também fornece informação sobre testamentos em vida, que Terri Schiavo não tinha quando seu coração parou brevemente em uma noite de 1990, lhe causando uma lesão cerebral grave. Os organizadores disseram que informação sobre desordens alimentares serão acrescentadas ao site.

Michael Schiavo acredita que o problema cardíaco de sua esposa ocorreu
devido a uma deficiência de vitamina causa por bulimia, apesar de sua
autópsia não ter conseguido provar isto. Seus antigos sogros, Robert e Mary Schindler, o acusaram de tê-la estrangulado, mas os tribunais rejeitaram tal acusação. Os Schindlers e seus filhos, Bobby e Suzanne, estão levantando fundos por meio do Centro para Ética na Saúde da Fundação Terri Schindler Schiavo, um grupo sem fins lucrativos cuja meta declarada é proteger "os direitos dos cidadãos incapacitados, idosos e vulneráveis contra redução do atendimento, eutanásia e morte induzida por médicos".

A fundação já arrecadou US$ 379.855 em contribuições no ano passado, disse seu advogado. Bobby Schindler, seu diretor, disse que sua família não está prestando atenção nas atividades de Michael Schiavo.

"Nossa família acredita que nossa luta com Michael acabou", ele disse.

Segundo Newton, Michael Schiavo se concentrará em candidatos da Flórida como Davis nos próximos meses, mas ele também poderá oferecer ajuda a James Webb, o opositor democrata do senador George Allen da Virgínia; Claire McCaskill, a adversária democrata do senador Jim Talent do Missouri; e vários candidatos ao Congresso na Pensilvânia, seu Estado natal.

Michael Schiavo disse que fará aberturas para o senador estadual James E. King Jr., um republicano de Jacksonville cujo adversário na primária, Randall Terry, liderou protestos em frente à clínica em que Terri Schiavo se encontrava nas semanas que antecederam sua morte e mobilizou o movimento antiaborto contra ele.

Uma porta-voz de King, cujo distrito no Norte da Flórida possui muitos
conservadores religiosos, disse: "Nós não estamos transformando os eventos que cercaram o caso Terri Schiavo aqui na Flórida no centro de nossa candidatura".

De fato, alguns diretores de campanha temem que a associação com o
polarizador Michael Schiavo possa ser tanto benéfica quanto prejudicial. Uma pessoa de uma campanha que contou com a ajuda dele disse que o comitê do candidato recebeu uma série de telefonemas irados em seguida.

Um entre cinco filhos, Schiavo disse que foi criado para ser um lutador, uma qualidade exibida ao longo de seu livro, que foi escrito com Michael Hirsh. Nele, ele reconheceu ter perdido a paciência várias vezes durante a batalha judicial e os repetidos ataques de seus sogros. Seu apetite por combate, que ajuda a explicar o motivo para ter sacrificado parte da privacidade que exigia enquanto Terri estava viva, também está evidente em seu olhar intenso e nas palavras que escolheu para a lápide dela: "Eu mantive minha promessa".

Michael Schiavo, que trocou seu registro de eleitor de republicano para
democrata no ano passado, disse que as pessoas lhe pediram muito para que concorresse a algum cargo após a morte de sua esposa. Mas apesar do atrativo da proposta, ele disse estar satisfeito com um papel mais discreto por ora. Ele se casou em janeiro com Jodi Centonze, que ele conheceu e com a qual passou a sair três anos após o colapso de Terri. Ele trabalha três turnos de 12 horas como supervisor de enfermagem no Presídio de Pinellas County e ajuda a criar seus filhos, Olivia, de 3 anos, e Nicholas, de 2.

"Quem sabe mais à frente", ele disse sobre se candidatar a um cargo
político. "Talvez quando todos entenderem e tudo estiver consertado." George El Khouri Andolfato

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