UOL Notícias Internacional
 

16/08/2006

Reservistas israelenses começam a deixar o sul do Líbano sob frágil cessar-fogo

The New York Times
Steven Erlanger*

em Jerusalém
Israel começou a retirar muitos de seus soldados reservistas do sul do
Líbano na terça-feira e espera estar totalmente fora do país na próxima
semana ou em 10 dias, disse o chefe do Estado-Maior das forças armadas, o general de exército Dan Halutz.

O exército libanês, que deve se juntar a uma reforçada força de paz da ONU para estabelecer a ordem enquanto os israelenses se retiram, deverá começar a ocupar a área ao sul do Rio Litani em dois dias, apoiado por um envio inicial de soldados estrangeiros, disse o chefe francês da força de paz da ONU, Jean-Marie Guéhenno, para uma rádio francesa.

Na ONU, Hedi Annabi, o secretário-geral assistente para forças de paz, disse esperar o envio inicial de até 3.500 soldados nos próximos 10 a 15 dias.

Tal ação, ele disse, "iniciará o processo" da retirada israelense e
substituição por tropas libanesas. "Os passos iniciais podem ser dados antes mesmo do envio caso haja vontade política", ele acrescentou.

Mas não há garantia de que o processo ordenado pela resolução do Conselho de Segurança que estabelece o cessar-fogo transcorrerá tranqüilamente. Líderes do Hizbollah disseram que seus combatentes não serão desarmados, como pede a resolução, e que o envio do exército libanês para o sul necessita de maiores discussões dentro do governo.

O cessar-fogo em si é considerado frágil. Israel matou pelo menos três
combatentes do Hizbollah dentro do Líbano na terça-feira, após matar seis na segunda-feira, e o Hizbollah disparou alguns foguetes contra posições israelenses.

O líder do Hizbollah, o xeque Hassan Nasrallah, disse que suas forças não deixarão de lutar até que todas as tropas israelenses tenham deixado o Líbano. Os israelenses disseram que suas posições atuais permitirão que continuem seu avanço se for necessário.

Além disso, a ministra das Relações Exteriores de Israel, Tzipi Livni, disse à CNN na terça-feira que seu governo tem evidência de que o Irã e a Síria já estão rearmando o Hizbollah, com cargas vindas da Síria.

Mas o exército israelense deixou a cidade de maioria cristã de Merj 'Uyun, cenário de fortes combates no fim de semana, e começou a conversar com o exército libanês sobre a coordenação da retirada geral.

Em Damasco, o presidente da Síria, Bashar Assad, disse que Israel "se
encontra diante de uma encruzilhada histórica".

"Ou o país caminha na direção da paz e devolve direitos ou enfrentará
instabilidade constante", disse Assad, "até que venha uma geração e coloque um fim ao assunto", uma aparente referência à possível futura eliminação de Israel.

Ele criticou fortemente o governo Bush, dizendo: "É evidente que após seis anos deste governo não há paz e não haverá nenhuma no futuro próximo".

Após o discurso, o ministro das Relações Exteriores da Alemanha,
Frank-Walter Steinmeier, cancelou uma viagem planejada à Síria. Em uma
declaração, ele chamou o discurso de Assad de "uma contribuição negativa que não é de forma alguma justificável" e pediu à Síria, que mantém uma influência importante sobre o Hizbollah e o Líbano, que exerça "um papel construtivo".

Os libaneses deslocados pelo combate continuavam a voltar para casa no sul do Líbano, apesar dos alertas de Israel de que a área permanece insegura, e as agência de ajuda buscavam transportar medicamentos e alimentos por estradas que foram bombardeadas ou estavam congestionadas de veículos. Representantes da ONU disseram que um comboio de 24 caminhões levou cinco horas para ir de Sidon a Tiro, uma viagem que normalmente leva 45 minutos.

Carros lotados de famílias e com seus pertences amarrados no teto ou quase caindo para fora de caminhões abertos, aguardavam horas no tráfego sob forte calor. Muitos carros superaqueceram, alimentando sessões furiosas de buzinaços e brigas nos acostamentos. Entregas de emergência de combustíveis demoravam horas.

Dezenas de bandeiras amarelas do Hizbollah tremulavam nas janelas dos carros a caminho do sul e apenas poucos dos exilados que retornavam pareciam considerar o Hizbollah responsável por seus apuros.

"Este trânsito -que direito Bush tem de nos fazer viver assim?" disse Bilal Masri, 50 anos, que passou cinco horas em um trecho de 24 quilômetros descendo a costa. Masri, um sunita, trabalha em um depósito de combustível que foi bombardeado por Israel, mas culpa o presidente Bush. "Com que direito ele nos bombardeou?" ele perguntou. "Bush diz que gosta de democracia e direitos humanos; onde está a democracia agora?"

Antes, ele disse, ele odiava Israel apenas um pouco, mas "agora eu realmente a odeio e quero eliminar sua existência".

O futuro tamanho e formato da Força Internacional da ONU no Líbano,
conhecida como Unifil, continua incerto. Seu atual comandante, o general de divisão Alain Pellegrini, disse que poderá levar um ano para que a força atinja sua força máxima de 15 mil soldados, em comparação aos atuais 2 mil.

Autoridades de força de paz da ONU em Nova York disseram que ainda não têm nenhum compromisso firme de quaisquer países para contribuição de soldados, mas esperam recebê-los na quinta-feira, em uma reunião com potenciais colaboradores. Entre os países mencionados como tendo expressado interesse estão a França, Itália, Alemanha, Indonésia, Malásia e, da região, Turquia, Jordânia, Marrocos e Egito.

Ao ser perguntado que país ele espera que comande a missão militar, Annabi disse: "Nós ficaríamos muito felizes se a França concordasse em fornecer uma contribuição significativa que represente a base da força".

As autoridades de força de paz disseram que a força inicial incluirá
companhias de engenharia, sinalização e transporte, uma unidade de patrulha marítima, uma operação de remoção de minas e uma unidade médica. Elas também disseram que ela terá que ser mais "robusta" do que as forças normais da ONU, com um grande complemento de soldados altamente capazes, de rápido posicionamento, do tipo encontrado nas forças armadas ocidentais.

A fragilidade do cessar-fogo é o principal motivo para Israel já ter
retirado vários milhares de seus cerca e 30 mil soldados que estavam no
Líbano. As tropas israelenses estão se reposicionando em áreas mais
facilmente defensáveis, para não se tornarem alvos fáceis para os
combatentes do Hizbollah.

Ao amanhecer de terça-feira ao longo da fronteira, uma unidade de infantaria da reserva deixou o Líbano após uma semana de combate. Enquanto atravessavam pelo portão da fronteira, os soldados se abraçavam, com seus rifles M-16 batendo contra seus uniformes suados.

Amir, 29 anos, que não quis dizer seu sobrenome, trabalha para uma firma de segurança em Jerusalém. "Eu quero saber que não viemos por nada", ele disse. Ele expressou decepção pela resolução de cessar-fogo não ter exigido o retorno imediato dos dois soldados israelenses capturados.

Yaniv Melder, um homem alto e ruivo de 28 anos, é de Meron, uma aldeia no norte, onde estavam caindo foguetes Katyusha. "Pessoas morreram na minha aldeia, assim, apesar de nossos temores, nós invadimos", ele disse. "Está claro que conseguimos algo. Colocar tantos soldados lá dentro é uma declaração por si só."

Mas Yoni Kassous, 30 anos, que trabalha para uma companhia de tecnologia perto de Tel Aviv, ficou incomodado com a guerra e sua condução. "Nós dizemos que vencemos", ele disse. "Mas eu penso: 'O que vencemos? O que realizamos?'" Como muitos dos reservistas, ele espera voltar ao Líbano em um futuro próximo para novamente enfrentar o Hizbollah.

Halutz, o chefe do Estado-Maior, se viu no centro de um grande escândalo na terça-feira, após o jornal "Maariv" ter revelado que ele vendeu mais de US$ 26 mil em ações em 12 de julho, três horas após a captura pelo Hizbollah de dois soldados israelenses. Enquanto a liderança do país se preparava para a guerra, disse o jornal, o general dizia ao seu corretor para vender as ações. Posteriormente as ações sofreram forte queda.

Políticos pediram pela sua renúncia. "Enquanto o país estava em chamas, ele estava apenas preocupado com seu portfólio de investimento", disse Colette Avital, uma legisladora do Partido Trabalhista.

Halutz confirmou a venda, que não é ilegal, condenou a divulgação de uma transação financeira privada como "uma ação cínica da parte de alguém" e insistiu: "No que se refere a valores, eu estou preparado a enfrentar qualquer um em Israel".

Irã e Síria, os países que apóiam o Hizbollah, declararam vitória sobre
Israel na terça-feira. O presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, disse em um discurso televisionado para todo o país que o Hizbollah "hasteou a bandeira da vitória" sobre Israel e impediu os planos americanos de criar um novo Oriente Médio dominado pelos "Estados Unidos, Grã-Bretanha e pelos sionistas", que devem "compensar o Líbano pelos danos". Ele disse que o Irã está pronto para ajudar os libaneses na reconstrução.

Ele disse para uma grande multidão em Ardabil que "de um lado, estão os
poderes corruptos com bombas e aviões modernos, do outro lado se encontra um grupo de jovens devotos que contam com Deus". Ele não mencionou os amplos estoques de foguetes modernos e armas antitanque do Hizbollah, fornecidos em sua maioria pelo Irã.

Em Gaza, onde as tropas israelenses continuavam tentando obter a libertação de outro soldado capturado em 25 de junho, as forças de segurança palestinas procuravam por dois jornalistas da Fox News que foram seqüestrados na segunda-feira, no lado de fora do quartel-general dos serviços de segurança palestinos.

Steve Centanni, um americano de 60 anos, e seu cameraman, Olaf Wiig, um
neozelandês de 36 anos, foram seqüestrados por homens armados, mas ainda não foi feita nenhuma exigência por parte de seus seqüestradores.

O presidente palestino, Mahmoud Abbas, do movimento Fatah, e o
primeiro-ministro Ismail Haniya, do Hamas, ordenaram à polícia e forças de segurança que encontrem e libertem os jornalistas.

Abbas e Haniya estão discutindo uma mudança no governo palestino, que
incluiria membros do Fatah, na esperança de suspender o embargo ocidental e israelense ao financiamento da Autoridade Palestina liderada pelo Hamas.

Haniya teve sucesso em convencer os militantes do Hamas a não dispararem mais foguetes Qassam contra Israel, mas outros grupos militantes, como a Jihad Islâmica e as Brigadas dos Mártires de Al Aqsa, do próprio Fatah, disseram que continuarão disparando foguetes.

*Robert Worth, em Beirute; Dina Kraft, em Kiryat Shmona; e Warren Hoge, na ONU, contribuíram com reportagem para este artigo George El Khouri Andolfato

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