UOL Notícias Internacional
 

17/08/2006

Líbano aprova tropas e Hizbollah passa ao controle de danos

The New York Times
John Kifner e Robert F. Worth*

em Beirute, Líbano
O governo libanês votou na noite de quarta-feira pelo envio do exército nacional para o sul a partir de quinta-feira, segundo a resolução de cessar-fogo da ONU, mas buscou ser evasivo na questão delicada do desarmamento do Hizbollah.

Parece provável que assim que o exército passar do Rio Litani ao reino há muito tempo mantido pelo Hizbollah, os combatentes da milícia apenas esconderão suas armas e se misturarão em meio à população civil.

"Como no passado, o Hizbollah não tinha presença militar visível e não haverá qualquer presença agora", disse o alto comandante de campo de Hizbollah no sul, o xeque Nabil Qaouk, aos repórteres na duramente atingida cidade portuária de Tiro.

Ele elogiou o envio do exército para o sul do Litani, mas disse que o Hizbollah manterá sua presença sem exibir publicamente suas armas. Ele disse que como ainda há tanques israelenses no Líbano, os guerrilheiros se reservam o direito de responder de acordo.

Um representante do Hizbollah no Parlamento, Hassan Fadlallah, foi igualmente insistente, dizendo à TV "Al Jazeera" que sua organização não recuará para a outra margem do Litani, que o destino do arsenal do Hizbollah não está aberto a debate público e que o envio do exército não tem nada a ver com a presença do Hizbollah.

Se esta abordagem atenderá os termos da resolução do Conselho de Segurança que pede o desarmamento das forças não-governamentais, particularmente aos olhos de Israel, dos Estados Unidos e de potenciais colaboradores da força internacional de paz, ainda não se sabe.

Todavia, o exército israelense informou que começou a entregar as posições no sul do Líbano para as tropas da ONU.

Os guerrilheiros do Hizbollah, conhecidos no Líbano como "a resistência", operam há anos no sul. Eles são quase que totalmente homens locais calejados por 18 anos de ocupação israelense após a invasão em 1982.

Naquela época, eles viviam e trabalhavam em suas aldeias de origem,
construindo uma rede social elaborada, fortificações subterrâneas extensas e depósitos de armamento moderno que surpreenderam o exército israelense em um mês de combate feroz.

"Ninguém sabia que eles tinham estas coisas, nem as forças armadas, nem a inteligência", disse um igualmente surpreso general do exército libanês, que falou privativamente.

Após a votação do governo, que conta com dois ministros do Hizbollah, o
primeiro-ministro Fouad Siniora foi à TV com um apelo longo, às vezes
emocionado, pela unidade nacional, expressando uma esperança de que as armas do Hizbollah de alguma forma desapareçam.

O envio do exército, ele disse, representará um fim à "mentalidade de
pequenos Estados".

"Haverá um único Estado", ele disse, "com um único poder de tomada de
decisão. Não haverá dupla autoridade".

"Não haverá presença armada fora da autoridade do Estado", ele disse, em uma aparente referência ao Hizbollah, cujo nome ele não mencionou. "Qualquer fracasso em exercer este direito colocará nosso país em risco de se tornar cenário de conflitos regionais e internacionais."

Em Israel, havia, para dizer o mínimo, fortes dúvidas em relação ao plano.

Danny Yatom, um membro do Parlamento que é ex-diretor do serviço de
inteligência Mossad, disse: "Não há dúvida de que o Hizbollah deve seguir a decisão totalmente, sendo responsabilidade dos americanos e franceses, assim como dos demais membros do Conselho de Segurança e do governo do Líbano, promover o desarmamento do Hizbollah e recuá-lo para o norte do Litani".

Um membro do Likud, Yuval Stienmetz, disse: "Aquele que não completar a
aniquilação do inimigo não deverá se surpreender se o inimigo não se
apresentar como voluntário para aniquilar a si mesmo. Israel devia ter
tomado o sul do Líbano e removido o Hizbollah várias semanas atrás, e a
menos que isto seja feito agora, Israel será forçada a fazê-lo em algum
momento no futuro".

Em meio ao crescente debate em Israel sobre a condução da guerra, o ministro da Defesa de Israel, Amir Peretz, nomeou uma comissão para investigar como as forças armadas e o ministério executaram seus deveres durante o conflito. A comissão será chefiada por Ammon Lipkin-Shahak, um ex-chefe do estado-maior do exército, e incluirá vários outros generais reformados.

O ministro das Relações Exteriores da França, Philippe Douste-Blazy, se
encontrou aqui com Siniora para discutir a possível composição e envio de uma força da ONU reforçada. A França deverá compor a base da força, mas ainda não se sabe quais países se juntarão ao esforço, que deverá chegar a 15 mil soldados. Cerca de 45 países expressaram interesse em contribuir.

Em Berlim, o governo alemão disse que não enviará soldados mas fornecerá policiamento da fronteira síria, patrulhas navais e engenheiros para reconstrução das pontes bombardeadas. Muitos alemães disseram que sua própria história os proíbe de expor seus soldados a situações potenciais de combate.

Nos bairros xiitas duramente atingidos no sul de Beirute, os simpatizantes do Hizbollah se espalharam na quarta-feira para avaliar os danos causados pela guerra.

Em volta deles, moradores e visitantes vagavam em silêncio e espanto diante do cenário destruído. Alguém pendurou uma faixa com as palavras "Made in USA" (produzido nos Estados Unidos) sobre as ruínas de um prédio demolido; os transeuntes paravam para olhar e tirar fotos. Aqui e acolá, era possível ver homens armados tomando conta das ruas.

Mas o exército de voluntários civis do grupo e seus planos avançados para reconstrução eram bem mais aparentes. Um homem magro caminhava pelas ruas repletas de escombros segurando uma pasta cor-de-rosa e uma pilha de formulários impressos de levantamento de danos. Ele usava um boné amarelo com o nome e símbolo do Jihad al Binaa, o comitê de reconstrução do Hizbollah.

"Este não é um trabalho da noite para o dia", disse o voluntário, um
arquiteto de 30 anos que se recusou a dizer seu nome. "O trabalho que está sendo feito agora foi preparado ao longo do último mês, com a colaboração de arquitetos e engenheiros."

Ele mostrou ao repórter seu mapa, que incluía os números de cada prédio no pequeno setor ao qual foi designado. Havia também formulários para cada prédio, com espaços para os nomes dos moradores e a descrição dos danos às unidades e necessidades. Fotos eram tiradas para serem usadas como comparação após a conclusão da reconstrução, ele disse.

Ele é um dos entre 250 e 300 arquitetos e engenheiros que já estão avaliando os danos, disse o arquiteto, e o grupo espera concluir 70% de seu levantamento na Dahia, ou a área xiita, até o final da semana. Então virão a segunda e terceira fases, ele disse, na qual o grupo reembolsará os moradores pelos danos e dará início ao longo processo de reconstrução.

Os planos também incluem uma forte dose de publicidade para o Hizbollah. A poucas quadras dali, voluntários armaram uma tenda e espalharam cadeiras de plástico para a imprensa, e Ghassan Darwish, o funcionário de informação do grupo em Beirute, dava entrevistas.

O grupo dividiu a Dahia em 70 distritos, cada um com dois a quatro prédios, disse Darwish. A meta é devolver as pessoas aos seus lares, à lares alternativos ou dar a elas dinheiro suficiente para alugarem outro apartamento, tudo dentro de 72 horas, ele disse. Enquanto isso, uma equipe de arquitetos estava sendo formada, ele disse, vindos de Dubai, Qatar, Egito e Síria, assim como do Líbano, para a reconstrução de toda a Dahia no espaço de um ano. O dinheiro, ele disse, virá de "pessoas que odeiam Israel e acreditam na resistência".

"Há um contato entre nós e o governo", disse Darwish, um homem atarracado e de baixa estatura vestindo camisa azul. "Mas nós não esperaremos pela burocracia. Estas são as pessoas que protegeram a resistência e nós acreditamos que elas têm o direito de ter um teto sobre suas cabeças em 24 horas."

Descendo a rua, Amina Qausan, uma lojista de 39 anos, olhava para as ruínas de sua loja de roupas. O chão estava repleto de vidro e entulho e as paredes do fundo da loja caíram. Os vestidos femininos que ela vende estavam cobertos de pó.

"Não houve roubo e isto se deve aos bons homens da resistência", ela disse. "Em todo lugar há pessoas que cometem crimes, mas com o Hizbollah patrulhando isto não acontece."

Pelo menos 200 mil pessoas já retornaram à área de Dahia, disse Robin Ledge, uma porta-voz do Programa Mundial de Alimentos da ONU, que está fornecendo ajuda por todo o Líbano.

Apesar do Hizbollah estar claramente visando obter mais apoio com sua
campanha de reconstrução, alguns dizem que o grupo poderá sofrer assim que a realidade dos danos causados pela guerra for de fato compreendida pelas famílias xiitas, a maioria pobres.

"Pelos próximos dois ou três anos, o Hizbollah será como o Exército da
Salvação, amarrado à reconstrução", disse Michael Young, o editor de opinião do "The Daily Star", um jornal de língua inglesa publicado em Beirute. "Mas o partido não pode submeter os xiitas a tal trauma novamente no futuro previsível, talvez por uma década, o que significa que sua capacidade de atacar Israel será limitada. O motivo para o Hizbollah estar tão disposto a reconstruir é por saber que a condição atual dos xiitas poderá voltar a comunidade contra eles caso não resolvam o problema de forma eficaz."

*Greg Myre, em Jerusalém, e Warren Hoge, na ONU, contribuíram com reportagem para este artigo George El Khouri Andolfato

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