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17/08/2006

Luta contra terroristas envolve escrutínio facial

The New York Times
Eric Lipton

em Dulles, Virginia
À medida que o homem se aproximava de um ponto de checagem de segurança no aeroporto daqui, na quarta-feira (16/08), ele pegava e colocava de volta no chão, repetidamente, a sua mochila, tocando o queixo com os dedos, esfregando um objeto com as mãos e, finalmente, pegando um maço de cigarros, ainda que fosse proibido fumar no local.

Dois agentes da Administração de Segurança de Transportes estavam por perto, silenciosos e quase imóveis, olhando diretamente para o homem. A seguir, após um sinal de aprovação com a cabeça, eles se aproximaram, conversaram brevemente com o homem e, depois, rapidamente, o levaram até um canto para submetê-lo a uma busca intensa.

Ele era mais um passageiro que acabava de conhecer os "agentes de detecção de comportamento" da Administração de Segurança de Transportes.

Espelhando-se na segurança dos aeroportos israelenses, a agência de transporte norte-americana tem feito experiências com esta nova equipe, cujos membros não procuram bombas, armas de fogo ou facas. A missão deles é procurar qualquer pessoal mal-intencionada.

Até o momento, esses agentes especialmente treinados estão atuando em apenas cerca de doze aeroportos em todo o país, incluindo o Aeroporto Internacional Dulles, aqui, no entorno de Washington, e eles representam apenas uma minúscula fração dos 43 mil funcionários da agência.

Mas depois do plano envolvendo bombas líquidas no Reino Unido, autoridades da agência dizem que desejam contar com centenas de agentes detectores de comportamento treinados até o final do ano, atuando na maioria dos grandes aeroportos do país.

"A observação do comportamento humano é provavelmente a coisa mais difícil de se derrotar", afirma Waverly Cousin, ex-policial e ex-encarregado de revistas em pontos de checagem, que atualmente é supervisor da unidade de detecção de comportamento no Aeroporto Internacional Dulles. "As pessoas simplesmente não sabem o que eu vou ver".

Até mesmo no seu primórdio o programa gerou alguns protestos.

Em um aeroporto, passageiros abordados apenas devido ao seu comportamento já chegaram a ser ameaçados de detenção caso não cooperassem, fazendo com que viessem à tona questões de ordem constitucional que já estão sendo examinadas nos tribunais. Alguns especialistas em liberdades civis dizem que o programa, caso não seja administrado apropriadamente, poderia se transformar em uma outra versão da abordagem de indivíduos devido às suas características raciais.

Outras dúvidas foram levantadas nesta semana por dois dos maiores proponentes das técnicas, uma ex-autoridade israelense da área de segurança e um psicólogo comportamental, que desenvolveram o sistema de observação de reações musculares involuntárias a fim de identificar o estado mental dos indivíduos.

Eles disseram que a abordagem da agência enfatiza muito pouco a entrevista que se segue à abordagem, e que ela se baseia em um sistema de pontuação comportamental que não é necessariamente aplicável aos aeroportos.

"Isso pode ser o melhor que se pode fazer agora, mas está longe de ser suficientemente bom", opina Paul Ekman, professor aposentado de psicologia da Universidade da Califórnia em São Francisco, que se especializou em detectar mentiras e logros, e que ajudou a Administração de Segurança de Transportes a elaborar o programa. "Podemos fazer algo muito melhor, e devemos fazer isso por se tratar de algo que pode salvar vidas".

Funcionários da agência admitem que o programa, que eles chamam de Escrutínio de Passageiros por Técnica de Observação (ou Spot, na sigla em inglês), pode não ter atingido ainda um estágio de perfeição. Mas eles acrescentaram estão fazendo ajustes constantes, e que estão convencidos de que a técnica consiste em um acréscimo valioso ao seu arsenal de instrumentos de segurança.

"Existem infinitas maneiras de encontrar coisas que possam ser usadas como armas, e maneiras infinitas de escondê-las", disse o diretor da Administração de Segurança de Transportes, Kip Hawley, ao dar uma entrevista nesta semana. "Mas se formos capazes de identificar o indivíduo, esta é sem dúvida a melhor maneira de encontrar a ameaça".

A versão norte-americana do programa de observação de comportamento em aeroportos teve início em Boston, conta Thomas G. Robbins, ex-comandante da polícia do Aeroporto Internacional Logan. Segundo ele, depois dos ataques de 11 de setembro de 2001, a polícia local começou a se perguntar se uma técnica há muito usada por ela para tentar identificar traficantes de drogas nos aeroportos não poderia também funcionar com terroristas. Os policiais observavam as expressões faciais dos viajantes, movimentos corporais e dos olhos, mudanças na tonalidade da voz e outros indicadores de estresse e desorientação. Se os policiais suspeitassem de algo, eles davam início a uma conversa casual com a pessoa, fazendo perguntas como: "O que você viu em Boston?", seguida, talvez, por algo como: "Ah, você gosta de apreciar paisagens? De qual você gostou mais?".

Segundo Robbins, as perguntas em si não são significativas. O que importa é a forma como as pessoas as respondem, especialmente se o indivíduo demonstra algum sinal de tentar encobrir a verdade.

A partir de dezembro do ano passado, a Administração de Segurança de Transporte decidiu experimentar essa abordagem em cerca de doze aeroportos, incluindo o Logan. Em cada aeroporto eles utilizaram seis policiais que costumavam ser escrutinadores comuns, que receberam quatro dias extras de aulas de técnicas de observação e de questionamento e que tiveram três dias de prática de campo.

Os funcionários da Administração de Segurança de Transporte não têm poderes de polícia, de forma que se observam alguém que seja suspeito, eles podem conversar com a pessoa, mas não têm permissão para realizar um interrogatório mais formal. Isso faz com que tenham como única opção pedir ao passageiro que passe por uma revista mais minuciosa em um posto de checagem, conforme fizeram com o homem no Aeroporto Internacional Dulles. Ou se o suspeito for suficiente sério, eles chamam a polícia local, designada para atuar no aeroporto, para assumir a investigação.

Em nove meses - um período no qual sete milhões de pessoas embarcaram no Aeroporto Internacional Dulles - várias centenas de indivíduos foram solicitados a passar por um escrutínio mais rigoroso, e cerca de 50 foram entregues à polícia para interrogatórios complementares, diz John F. Lenihan, o diretor de segurança da agência de transporte no Dulles.

Desses 50, seis foram formalmente acusados ou passaram por investigações policiais mais rigorosas, porque os agentes de detecção de comportamento conseguiram abordar pessoas que tinham motivos para estar nervosas, geralmente devido a questões de imigração, mandados de prisão ou documentos forjados.

"Essa é uma camada extra de segurança que fica sobre aquela que já tínhamos", diz Hawley, referindo-se ao programa.

Mas Rafi Ron, o ex-diretor de segurança do Aeroporto Internacional Ben-Gurion, em Tel Aviv, e que foi um dos consultores que ajudou a treinar os funcionários no Aeroporto Logan, diz que o sistema da agência, embora possa ser considerado uma melhoria para a segurança do aeroporto, ainda é falho. Segundo ele, o que chama mais atenção é o fato de uma parcela muito pequena dos passageiros assinalados ser obrigada a passar por uma entrevista mais formal, como no sistema israelense. Além disso, quando tal entrevista é realizada, os encarregados são membros da polícia local, que podem não contar com o treinamento necessário para análise comportamental.

Ele citou o caso de Richard Reid, conhecido como o homem do sapato-bomba, que despertou suspeitas ao chegar ao Aeroporto Internacional de Charles de Gaulle, mas que acabou recebendo permissão para embarcar depois que a polícia o interrogou.

"Se você não faz as entrevistas da forma apropriada, estará perdendo aquilo que é provavelmente a parte mais importante e poderosa do procedimento", disse ele.

Uma outra dúvida foi levantada por Ekman, que desenvolveu algumas das técnicas de escrutínio facial que os agentes da Administração de Segurança de Transporte estão sendo treinados para usar. Por exemplo, o medo é traído pela elevação e contração das sobrancelhas, pela elevação da pálpebra superior e pela contração dos lábios para trás, em direção às orelhas.
Segundo ele, o sistema de pontos introduzido pela Administração de Segurança de Transporte se baseia em reações faciais que ocorrem em entrevistas com indivíduos sentados, e não com pessoas que estão de pé em uma fila de aeroporto.

A técnica já gerou pelo menos um processo na justiça, que foi movido em Boston. A polícia estadual do Aeroporto Logan acabou pegando, com base em observações comportamentais, o coordenador nacional da Campanha Contra a Repressão com Base e, Critérios Raciais, do Sindicato Americano de Liberdades Civis.

O coordenador, King Downing, que é negro, tinha acabado de desembarcar de um vôo quando parou para dar um telefonema e percebeu que um policial estava escutando a sua conversa. Quando Downing encerrou a ligação, o policial exigiu que ele se identificasse. O policial insistiu, enquanto o coordenador se aproximava de um táxi, afirmando que Downing iria fazer "uma visita ao centro da cidade" caso não apresentasse um documento de identidade. Downing foi liberado após exibir a identificação, mas o incidente gerou o processo.

"Existe uma grande chance de que esse método de segurança venha a ser utilizado de uma forma discriminatória", alerta John Reinstein, um advogado do Sindicato Americano de Liberdades Civis que está trabalhando no caso Downing. "Ele introduz no sistema de escrutínio vários elementos altamente subjetivos que dependem da decisão de cada policial".

Funcionários da Administração de Segurança de Transporte, que não participaram do incidente envolvendo Downing, disseram que sabem que as pessoas que estão nos aeroportos estão freqüentemente agitadas - elas podem estar atrasadas para os seus vôos, engajadas em uma viagem de emergência ou simplesmente temerosas de voar.

Eles disseram que se comprometeram a garantir que o programa não é discriminatório, e que monitorarão o trabalho das equipes Spot para garantir as autoridades atuarão segundo os indicadores estabelecidos, e não de acordo com quaisquer preconceitos raciais ou étnicos.

Mas eles admitiram que algumas pessoas totalmente inocentes, como o homem do Aeroporto Dulles, provavelmente serão solicitadas a se explicar. Aquele passageiro teve permissão para embarcar, após ser submetido a uma revista rigorosa.

"É algo como jogar uma grande rede de pesca ao lado do barco: Você pega aquilo que estiver lá", diz Carl Maccario, um funcionário da agência que está ajudando a gerenciar as equipes Spot. "Mas, com sorte, dentro da rede virá um terrorista". Danilo Fonseca

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