UOL Notícias Internacional
 

18/08/2006

Exército libanês entra em território do Hizbollah

The New York Times
Sabrina Tavernise e John Kifner*

Merj'Uyun, no Líbano
Soldados do governo libanês, levando a bandeira vermelha e branca com um cedro em caminhões e antigos blindados para transporte de pessoal começaram a cruzar o rio Litani, na madrugada de quinta-feira (17/8). A movimentação das tropas parecia ter um papel mais simbólico do que de segurança.

A transferência de homens do exército libanês para o feudo separado do Sul que o Hizbollah controlou por quase duas décadas marcou o potencial início de uma saída diplomática para a batalha amarga de um mês contra Israel, cujo exército exaltado atolou em sua operação contra uma força menor de combatentes hábeis e entrincheirados.

Apesar de Israel e os EUA terem dito que o exército deve desarmar o Hizbollah sob os termos de uma resolução do Conselho de Segurança da ONU, a realidade em terra é de um acordo cinzento, no qual o Hizbollah tira suas armas das ruas e o exército não procura muito.

"Bem, não é que vão invadir as casas, buscar em cada loja, procurar em cada moita. Não é uma operação de busca e apreensão", disse Mohammed Chatah, assessor do primeiro-ministro Fouad Siniora.

Mas se a transferência de soldados foi em grande parte simbólica, os combatentes pareceram dispostos a aceitar a medida -com algumas proclamações beligerantes -como uma saída honrosa para o confronto sangrento.

O acordo de transferência do exército como parte da resolução do Conselho de Segurança para parar a batalha, fechado em uma reunião do gabinete na quarta-feira à noite, suscitou explicações convolutas de autoridades libanesas.

"Não haverá confronto entre o exército e os irmãos do Hizbollah", disse o ministro de Informação Ghazi Aridi. "Não vão caçar ou, Deus nos perdoe, exercer vingança."

Autoridades israelenses não foram tão tolerantes, ao menos em público. O porta-voz do Ministério de Relações Exteriores israelense, Mark Segev, disse que a "resolução claramente pede a criação de uma zona livre de Hizbollah ao Sul do rio Litani e qualquer coisa a menos significaria que a resolução não está sendo implementada."

Em vez disso, o movimento das tropas na quinta-feira parecia mais uma oportunidade para fotos. Pela manhã, um soldado libanês nesta cidade subiu em seu blindado de transporte e ajeitou a bandeira libanesa para vários fotógrafos.

"Estou arrumando", gritou para os fotógrafos esticando a bandeira libanesa.

Engenheiros do exército colocaram uma ponte de aço sobre uma passagem destruída sobre o rio Litani, fronteira geográfica natural do Sul. Outras tropas passaram pelas montanhas e algumas devem chegar de barco ao porto de Tiro.

Milhares de soldados chegaram às cidades do Sul na quinta-feira, assumindo posições em acampamentos improvisados, casas e até um hospital, cumprindo o requerimento do cessar-fogo negociado pela ONU e esperando impor a vontade do governo sobre a região.

Mas enquanto os soldados ocupavam as estradas, construíam pontes e acenavam para os transeuntes com ar de autoridade, sua exibição de poderio militar foi manchada por aparente inexperiência e um grau de ansiedade.

Em Kafr Kila, um reduto do Hizbollah tão próximo à fronteira que os locais viam os agricultores israelenses colhendo frutas, uma procissão funeral exultada, liderada por uma ambulância do Hizbollah, tocava música funérea em alto-falantes. Os carros levavam bandeiras amarelas do Hizbollah.

Ali perto, vários jovens barbudos estavam amarrando um enorme cartaz amarelo do Hizbollah na porta de uma loja. Era o mesmo visto em várias vilas próximas, que se refere à frase da secretária de Estado Condoleeza Rice, que disse que um "novo Oriente Médio" surgiria do derramamento de sangue no Líbano.

"Rice, você não verá seu novo Oriente Médio", assinado: Hizbollah.

Um dos jovens, de óculos escuros e, como de costume, recusando-se a dar seu nome, disse que a transferência das tropas não era problema. "É bom, deixe que venham", disse ele, desatando a corda azul presa ao cartaz. "Somos todos libaneses, não é problema."

Foi assim no Sul do Líbano na quinta-feira, enquanto filas de caminhões do exército carregados de escrivaninhas, pneus sobressalentes e soldados trafegavam em estradas bombardeadas.

Nesta cidade de maioria cristã, casas de pedra e janelas azuis -que foi sede de uma milícia patrocinada por Israel- 31 veículos, inclusive 12 blindados de transporte, pararam na estrada na frente da antiga base do exército.

Soldados camuflados, boinas e capacetes vermelhos sentaram-se atrás de caminhões e descansaram na sombra na calçada, esperando ordens para se moverem. Até meio dia, as ordens não tinham chegado.

Um bebia café em um copo plástico minúsculo. Alguns deitavam sonolentos ao longo da rua. No final da longa fila de veículos do exército, um soldado corpulento com um bigode volumoso estava sentado em um banco desmontável, em torno das 10h30, com a boca ligeiramente aberta e a cabeça apoiada em um muro. Ele abriu os olhos subitamente e assustou-se. Não tinha dormido em 24h, explicou, e estava trabalhando duro desde as 8h.

Em Tebnine, cerca de uma hora de carro a leste de Tiro, soldados começaram a estabelecer acampamento no hospital central e arredores, descarregando bens pessoais e equipamentos e rapidamente montando seus alojamentos. Eles começaram a eliminar pequenas bombas lançadas por Israel, explodindo-as com grandes estrondos -que faziam muitos tremerem.

Os soldados foram recebidos com desconforto pela comunidade e o Hizbollah. Parecia haver pouca interação entre os homens. Cada lado se saudava educadamente, mas mantinha a distância.

Muitos aldeões saudaram as tropas tradicionalmente, lançando arroz e flores aos conquistadores. Parecia haver uma esperança -apesar de frágil- que o exército se tornasse a força unificadora do país, divido por 17 religiões e tão freqüentemente manipulado por forças externas.

O comandante libanês da força inicial, general Charles Shikani, tentou tocar essa nota, dizendo aos seus soldados: "O povo libanês espera vocês. Saudamos, neste dia solene, primeiramente os mártires que derramaram seu sangue na terra da pátria. E saudamos a resistência", disse ele.

Sua brigada, de 2.500 homens, deve ser reforçada por soldados da paz internacionais. A força deve chegar a 15.000. Mas as contribuições para essa força parecem cada vez mais incertas.

Em outra aparente oportunidade de foto, um avião anfíbio desceu no porto de Tiro, em torno das 13h. Depois de 15 minutos tentando atracar, o primeiro caminhão desceu a rampa. Logo homens com uniformes bem passados e sorrindo nervosamente para as câmeras desceram em dois caminhões carregando seu material, inclusive uma cabine de guarda de 2,4 metros pintada com a bandeira do Líbano, nove veículos blindados e dois jipes da era do Vietnã.

"Este é o nosso governo, temos que respeitá-lo. Se você não puder contar com o seu governo, com quem poderá contar? Mas para nós, a resistência é uma mão e eles são a outra", disse Jawad Alayan, que assistia com seus dois filhos, Mohammed, 11 e Ali, 6, cerca de 200 soldados passarem pela estrada do Sul de Tiro para tomar posições na costa.

*Hassan M. Fattah contribuiu de Tiro, Líbano; Robert F. Worth de Mukhtara, Líbano, e Greg Myre de Jerusalém Deborah Weinberg

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