UOL Notícias Internacional
 

19/08/2006

Aldeões comemoram marcha do exército libanês para o sul

The New York Times
Robert F. Worth*

em Beirute, Líbano
Na sexta-feira, os aldeões dançavam nas ruas e jogavam arroz enquanto os soldados do exército libanês chegavam à fronteira sul com Israel pela primeira vez em décadas.

Voluntários do Hizbollah distribuíram auxílios de US$ 12 mil como parte de sua campanha para ajudar as famílias cujos lares foram destruídos ao longo do último mês.

Funerais em massa foram realizados por todo o sul do Líbano para centenas de pessoas mortas no conflito, incluindo uma grande quantidade de combatentes do Hizbollah, que foram saudados como heróis e mártires. Ambulâncias, com as sirenes ligadas, abriam caminho para os cortejos fúnebres e o fedor da morte predominava nas ruas. Em Tiro, quase 200 corpos foram removidos das valas comuns temporárias e enterrados individualmente.

Os funerais, a maioria organizada pelo Hizbollah, ilustraram o poder quase total do grupo militante sobre o sul do Líbano e ressaltou a incerteza da nova missão do exército libanês naquela região. Israel e os Estados Unidos disseram que esperam que o exército libanês desarme o Hizbollah segundo os termo da resolução do Conselho de Segurança da ONU.

Mas enquanto os moradores do sul do Líbano comemoravam a chegada dos soldados, bandeiras do Hizbollah tremulavam nas proximidades, com os membros do grupo dizendo não ter a intenção de entregar suas armas por ora.
Autoridades do governo libanês deixaram claro que os 15 mil soldados enviados ao sul do Líbano não procurarão armas. Os soldados da força de paz da ONU, que deverão se juntar ao exército libanês, também não supervisionarão qualquer desarmamento, disseram representantes da ONU.

Na ONU na sexta-feira, diplomatas se esforçavam para cumprir o prazo para o envio em 10 dias dos primeiros 3.500 soldados de tal força, e Mark Malloch Brown, o vice-secretário-geral, apelou na Europa por participação.

Na quinta-feira, a França decepcionou os planejadores ao oferecer apenas 200 soldados, muito menos do que o esperado, enquanto Bangladesh, Indonésia e Malásia, todos muçulmanos, e o Nepal, que é de maioria hindu, oferecerem unidades mecanizadas de linha de frente.

"Isto é de enorme ajuda e uma grande contribuição", disse Malloch Brown, "mas nós queremos que esta força que enviaremos tenha um caráter multinacional, multilateral, de forma que possa contar com a confiança de ambos os lados".

Seja qual for o destino de suas armas, o Hizbollah já se afirmou politicamente por todo o sul, distribuindo alimento e ajuda antes dos grupos internacionais de ajuda humanitária que também estão presentes na área.

O grupo ampliou ainda mais seu programa de ajuda na sexta-feira, ao cumprir a promessa de Hassan Nasrallah, o líder do Hizbollah, de fornecer pagamentos em dinheiro para as famílias deslocadas. Com mais de 200 mil moradores dos bairros xiitas da capital já de volta à área, o grupo começou a distribuir auxílios de US$ 12 mil na sexta-feira -uma soma de dinheiro enorme no Líbano, onde um apartamento grande o bastante para uma família pequena pode ser alugado por US$ 300 por mês.

As autoridades políticas libanesas começaram a reagir à nova popularidade do Hizbollah, rompendo a fachada de unidade nacional que surgiu durante o mês de guerra contra Israel. Na quinta-feira, o líder druso Walid Jumblatt, falando em uma coletiva de imprensa em seu quartel-general, disse: "O Hizbollah precisa decidir de uma vez por todas se é uma organização libanesa ou uma ferramenta da Síria e do Irã".

Jumblatt, um líder da frágil coalizão secular que conta com uma maioria apertada no Parlamento libanês, ridicularizou o novo arranjo no sul, dizendo que ele não muda o papel do Hizbollah. "Israel pode lançar a qualquer momento um ataque preventivo e, por ora, na condição de Estado libanês, nós somos responsáveis pelo sul", ele disse. "E o exército libanês, em tal caso, simplesmente desapareceria em poucas horas."

Mas Jumblatt não chegou a pedir o desarmamento à força do Hizbollah, dizendo preferir o "diálogo". Tal hesitação parece refletir a fraqueza da maioria secular e sua vulnerabilidade às acusações de que está ligada demais a Israel e aos Estados Unidos.

Em vez disso, Jumblatt reservou suas palavras mais duras para a Síria, assim como fez Saad Hariri, o líder da maioria parlamentar secular. Em um discurso no início da semana, o presidente da Síria, Bashar Assad, sugeriu que os líderes seculares do Líbano são a favor de Israel.

Em seu discurso, Hariri atacou o governo sírio, o acusando de usar a tragédia no Líbano para marcar pontos políticos. "O regime da Síria está explorando o sangue das crianças de Qana, das crianças em Gaza e das crianças em Bagdá", disse Hariri, filho do ex-primeiro-ministro assassinado Rafiq Hariri, em um discurso perante centenas de simpatizantes.

De certa forma, as recriminações representaram uma volta ao normal no Líbano, após um mês de unidade incomum causada pelos bombardeios israelenses.

Também eram visíveis outros sinais de que a vida está voltando à normalidade, pelo menos na capital. Alguns poucos vôos comerciais foram retomados na quinta-feira no aeroporto internacional de Beirute, pela primeira vez desde 13 de julho, quando bombas israelenses abriram buracos nas pistas. As forças armadas israelenses ainda estão coordenando os vôos, mas diretores do aeroporto disseram que vôos regulares devem começar na próxima semana.

O centro de Beirute, praticamente vazio ao longo do mês passado, contava com alguns pedestres durante o dia, com a reabertura de lojas e restaurantes.

"Tudo está voltando à vida", disse Farah Ambriss, 24 anos, enquanto
caminhava para se encontrar com amigos, para um almoço em uma mesa ao ar livre na rua Al Maarad. "Mas nós ainda estamos com medo porque as tropas israelenses permanecem no sul."

Perto dali, o proprietário do Duo, um dos restaurantes da rua, permanecia diante de suas portas de vidro e colunas de arenito, recebendo os clientes. O interior estava quase cheio, mas as mesas ao ar livre estavam vazias. "Desde o cessar-fogo, tenho recebido 100 pessoas por dia para almoçar, disse o proprietário, que disse apenas seu primeiro nome, Pierre. "Normalmente recebíamos 500."

Ele disse que a maioria das pessoas está pessimista. "A luta pode recomeçar a qualquer momento. Não há solução clara; ainda está cinzento, nem branco e nem preto."

*Hassan Fattah, em Tiro, contribuiu com reportagem para este artigo George El Khouri Andolfato

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