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19/08/2006

Ford anuncia mais cortes

The New York Times
Micheline Maynard*

em Dearborn, Michigan
A Ford Motor Company, que está lutando para manter o segundo lugar no mercado americano de carros, disse na sexta-feira que planeja reduzir em um quinto o número de veículos que planeja produzir nos últimos três meses do ano.

Isto representa a maior redução de produção desde a crise do setor dos anos 80. Também ressalta a dificuldade que Detroit, cujos negócios dependem das vendas de utilitários esporte e picapes, está tendo diante da alta dos preços da gasolina. A participação de mercado de Detroit atingiu seu nível mais baixo na história, enquanto as marcas asiáticas, conhecidas pela economia de combustível, estão atingindo recordes de vendas.

As reduções de produção são o mais recente indício de quão difícil será para as empresas de Detroit se rejuvenescerem. A Ford adotou programas ambiciosos de cortes de custos, incluindo a demissão de dezenas de milhares de funcionários, o fechamento de mais de duas dezenas de fábricas e o corte de bilhões de dólares em custos. Mas tais medidas são praticamente anuladas quando as montadoras não conseguem vender os veículos já disponíveis nas concessionárias.

A GM adotou seu próprio plano de reestruturação, visando reverter um prejuízo de US$ 10,6 bilhões no ano passado e sua própria perda de participação de mercado, que caiu 2,5 pontos percentuais neste ano, para menos de um quarto das vendas gerais da indústria. Na semana passada, a GM disse que reduzirá a produção de seus maiores utilitários esporte na segunda metade do ano.

Analistas do setor disseram que as novas reduções da Ford mostram quão urgentemente ela deve mudar sua linha de modelos para depender menos de utilitários esporte e picapes.

"A Ford não pode prosseguir por muito mais tempo sem uma mudança radical em seu modelo de negócios", disse John Casesa, um analista do setor para a Casesa Strategic Partners. As duas empresas "precisam corrigir seu tamanho, reestruturar e se reinventar".

"Esta é apenas a correção do tamanho", ele disse.

As reduções de produção da Ford, a mais antiga das grandes montadoras de Detroit, afetarão profundamente suas picapes série F, que reinaram como os veículos mais vendidos nos Estados Unidos por quase um quarto de século e que correspondem a 30% das vendas. A série F responderá por mais da metade dos cortes de produção.

"A alta sem precedente dos preços da gasolina durante o segundo trimestre teve um impacto em nossa linha de produtos maior do que as de nossos concorrentes, devido ao duradouro sucesso de nossas picapes e utilitários esporte", disse o executivo-chefe da Ford, William Clay Ford Jr., em um e-mail enviado aos funcionários.

"Esta medida, por mais difícil que seja, reflete uma avaliação de mercado conservadora e mais alinhada com a mudança na demanda dos compradores", disse a Ford.

Tal demanda está favorecendo os concorrentes japoneses da Ford. No mês passado, a Toyota ultrapassou a Ford pela primeira vez para se tornar segunda maior montadora no mercado americano em julho (a Ford ainda está à frente no levantamento anual).

Devido às reduções, a Ford disse que 10 fábricas nos Estados Unidos e Canadá deixarão de produzir temporariamente por alguns intervalos até o final do ano, medidas que terão um efeito cascata sobre trabalhadores, concessionárias e comunidades onde a Ford fabrica seus veículos.

A Ford disse que cortará ao todo 168 mil veículos de seu cronograma de produção para o quarto trimestre, que equivale a um ponto de participação de mercado no setor. Ela também está cortando outros 20 mil veículos de seus planos para o terceiro trimestre, além das reduções anteriormente anunciadas de corte de 40 mil veículos.

As medidas terão um impacto imediato no balanço da Ford, que neste ano já perdeu cerca de US$ 1,5 bilhão até o momento. As montadoras registram os veículos como vendidos quando saem da fábrica para as concessionárias, não quando são comprados pelos consumidores. Assim, os cortes de produção eliminam o potencial de receita e lucros.

Na sexta-feira, os serviços de rating Standard & Poor's e Moody's Investors Service disseram estar revendo a avaliação de crédito da Ford para possível rebaixamento. Ambas as firmas já classificam a dívida da Ford abaixo de grau de investimento. Bruce Clark, um vice-presidente sênior da Moody's, disse:
"Os mercados de picapes e utilitários esporte estão desaparecendo sob os pés da Ford mais rapidamente do que o esperado".

As ações da Ford caíram na sexta-feira 2%, fechando a US$ 8.

As montadoras geralmente promovem cortes menores, mais graduais, na produção para evitar as perturbações causadas pelo fechamento de fábricas por longo prazo. Segundo os sindicatos, elas devem pagar os funcionários independente da fábrica estar ou não operando. A última vez em que a Ford adotou tais cortes draconianos foi há mais de 20 anos, quando enfrentou uma crise financeira que quase a forçou a buscar auxílio financeiro do Congresso, como o que resgatou a Chrysler Corporation em 1979.

A montadora está promovendo amplas mudanças em várias frentes.

Apenas neste verão, a Ford cortou pela metade seus dividendos, anunciou que as perdas no segundo trimestre foram maiores do que o esperado e contratou um especialista em reestruturação, Kenneth Leet, para orientar William Ford na venda ou não de marcas de luxo estrangeiras famosas, como Land Rover, Jaguar e Aston Martin.

As medidas coincidem com o papel expandido de Ford dentro da empresa. Desde 1º de julho, ele tem atuado como diretor-chefe de operações de fato, a primeira vez em que dirige as funções cotidianas além de seus cargos como executivo-chefe e presidente.

Em janeiro, William Ford anunciou a fase inicial de seu plano "Way Forward" (caminho à frente). Ele pede que a Ford promova a eliminação de 30 mil vagas de trabalho até 2012 e o fechamento de 14 fábricas.

Criticado por alguns analistas como insuficiente, o plano não leva em
consideração a perspectiva dos preços da gasolina permanecerem elevados.

Na sexta-feira, executivos da Ford argumentaram que ninguém na indústria poderia prever que os preços da gasolina permaneceriam tão altos, apesar de estarem subindo desde 2003 e terem atingido o ponto mais alto no ano passado, após a passagem do furacão Katrina.

George Pipas, o analista chefe de vendas da Ford, notou que as vendas de picapes no ano passado permaneceram iguais em comparação a 2004. Ele disse que montadora notou a queda nas vendas de picapes apenas em abril deste ano. Mas o declínio a partir daí foi rápido. As vendas das picapes série F caíram 46% em julho, em comparação a 2004, enquanto as vendas do utilitário esporte Ford Explorer caíram mais de 50% no mês passado.

O executivo-chefe da General Motors, Rick Wagoner, disse na sexta-feira que ele não prevê a promoção de reduções de produção tão grandes quanto as da Ford, mas não descartou alguns pequenos ajustes. Ele notou que a produção planejada da GM para o terceiro trimestre é menor do que no ano anterior para compensar as vendas menores.

"Nossos estoques estão em boa forma", ele disse aos repórteres na
sexta-feira, durante um jantar na suburbana Woodward Avenue de Detroit, que esteve ocupada por toda a semana com milhares de carros clássicos para o festival Dream Cruise.

Wagoner disse que a GM conta com muitos modelos novos que estão vendendo bem, apesar dos preços mais altos da gasolina, e ele acredita que a nova linha de picapes da empresa, o Chevrolet Silverado e GMC Sierra, não sofrerá quedas significativas porque muitos compradores precisam de uma picape para trabalhar.

"A situação dos preços dos combustíveis representou uma pequena surpresa para todos -certamente para nós", ele disse. "Nós todos estamos buscando reagir a isto."

Os analistas contestaram a afirmação da Ford de que os altos preços da
gasolina não eram previsíveis. "Eles podem dizer que ninguém poderia prever, com a exceção de todo mundo", disse James P. Womack, co-fundador do Lean Enterprise Institute, que estuda eficiência na produção.

Ele prosseguiu: "A coisa toda em Detroit se resumiu a esperança e oração de que os juros permaneceriam baixos, o preço dos combustíveis permaneceriam baixos e que os japoneses exibiriam alguma contenção".

Certamente, não se espera das montadoras uma previsão precisa dos preços da gasolina. Por causa disto, disse Casesa, suas operações de manufatura precisariam ser flexíveis para que pudessem passar de um tipo de veículo para outro sem a necessidade de deixar fábricas inteiras ociosas.

A flexibilidade tem sido uma característica chave das montadoras japonesas, particularmente a Toyota, cujas fábricas nos Estados Unidos são capazes de produzir carros, minivans, utilitários esporte e picapes -às vezes três tipos diferentes de veículos na mesma linha de montagem.

Tanto a GM quanto a Chrysler estão se esforçando para tornar suas fábricas mais flexíveis e a Ford insiste que a flexibilidade será um ponto chave de seu programa Way Forward. Ele está sendo implementado por Mark Fields, que foi nomeado presidente para a região das Américas no ano passado.

Fields, antes designado para as operações da Ford na Europa, contou com
apenas poucas semanas para elaborar o plano Way Forward original, dizendo repetidas vezes que o programa será modificado à medida que as
circunstâncias mudarem.

Agora, disse Casesa, Fields está sob pressão para assegurar que sua próxima versão seja certeira. Caso contrário, seu emprego estará em risco. "Fields já teve sua chance e agora deve anunciar seu grande plano e implementá-lo", disse Casesa.

Se a Ford for incapaz de corrigir seu curso, disse Womack, ele teme pelo futuro da empresa, que foi fundada pelo bisavô de William Ford, Henry Ford, em 1903.

"Há um elemento trágico aqui ou pelo menos um pouco de elemento patético", disse Womack. "Há a sensação de esvaziamento de todos os quatro pneus e também do estepe. Você está em meio a um tempo de descontinuidade e um mar de mudanças está à frente", ele disse.

Ainda assim, a Ford pode contar com muitos consumidores fiéis. Bill Deater, um fazendeiro que mora perto de Port Huron, Michigan, disse que Ford superará as dificuldades e crescerá novamente. Ele sempre foi um comprador fiel da Ford e levou sua picape Ford F-1 de 1948 para participar do evento Dream Cruise, em Detroit. Sua esposa dirige um Mustang conversível 1966, e o casal também é dono de um Ford Expedition e de uma picape F-250.

"Muita gente em Michigan depende deles", disse Deater. "Eu acho que serão capazes de se recuperar."

*Nick Bunkley, Royal Oak, Michigan, contribuiu com reportagem para este
artigo George El Khouri Andolfato

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