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19/08/2006

Republicanos trocam o seu próprio candidato por Lieberman

The New York Times
Anne E. Kornblut*
Ao enfrentarem a candidatura independente do senador Joseph I. Lieberman, autoridades republicanas nos níveis estadual e nacional tomaram a decisão extraordinária de abandonarem o seu candidato oficial, e alguns estão trabalhando ativamente para ajudar Lieberman a vencer em novembro.

Apesar de Lieberman ter dito que continuará a se reunir com os democratas caso seja reeleito, todos os três candidatos congressuais republicanos em Connecticut elogiaram Lieberman, e não endossaram o candidato pelo seu partido, Alan Schlesinger. Um grupo independente vinculado aos republicanos está arrecadando dinheiro para Lieberman, que foi um forte aliado do presidente Bush com relação à guerra no Iraque.

O senador John McCain, republicano pelo Arizona, embora diga que apoiará o candidato republicano, não está pretendendo fazer campanha para ele, e chegou a permitir que dois dos seus assessores conversassem com o grupo de Lieberman antes das primárias democráticas em 8 de agosto. E Newt Gingrich, o republicano que já foi presidente da Câmara dos Deputados, apoiou a campanha de Lieberman pela reeleição.

Embora alguns republicanos torçam discretamente pelo seu oponente democrata, Ned Lamont, por sentirem que ele será um grande alvo liberal polarizador, vários membros do partido dizem que seria melhor para a agremiação que um centrista como Lieberman permanecesse no cargo, especialmente após ser rejeitado pelo seu próprio partido.

Mas uma coisa é bem clara: quase não se fala em apoiar Schlesinger, 48, o candidato republicano, um pouco conhecido ex-prefeito de Derby, que teve índices tão baixos nas pesquisas de opinião a ponto de ter quebrado recordes de impopularidade. Pouco conhecido no Estado, Schlesinger recebeu pouca atenção neste verão, após as notícias publicadas no jornal "The Hartford Courant" de que ele jogou em um cassino usando um nome falso, e que já comprou dívidas de jogos. Ele desprezou tais notícias, classificando-as de irrelevantes.

Schlesinger reagiu com raiva à rejeição pelo seu próprio partido, descartando os pedidos para que deixasse de concorrer. Ele garante ser capaz de ganhar, apresentando a sua plataforma conservadora para os eleitores.

"Washington e a mídia tentaram se apossar desta eleição, e transformá-la em um plebiscito sobre o futuro do Partido Democrata em âmbito nacional", acusou Schlesinger em uma entrevista na sexta-feira (18/08). O interesse deles não é eleger um republicano em Connecticut, ou qualquer pessoa em particular naquele Estado".

As dúvidas dos republicanos quanto a Schlesinger se cristalizaram quando o porta-voz da Casa Branca, Tony Snow, se recusou na segunda-feira a afirmar que a Casa Branca apoiaria o candidato. Ken Mehlman, presidente do Comitê Nacional Republicano - cujo trabalho é apoiar os candidatos republicanos em todas as regiões - garantiu que ficará "fora desta disputa".

Todos os principais grupos nacionais republicanos estão retirando o seu apoio organizacional e financeiro a Schlesinger, criando um vácuo que pode ser ocupado por Lieberman, o centrista na disputa.

"A atitude mais correta para as pessoas que acreditam que o mundo é altamente perigoso é reeleger Lieberman", afirma Gingrich. "Isso é algo especialmente verdadeiro porque o próprio candidato do Partido Republicano não tem qualquer possibilidade de ganhar".

Inicialmente, nos dias que se seguiram à vitória de Lamont, as autoridades republicanas queriam um candidato republicano mais forte do que Schlesinger, segundo estrategistas que possuem laços estreitos com o partido e com a Casa Branca.

Um estrategista disse o medo era de que uma disputa acirrada entre Lamont e Lieberman estimulasse a participação dos eleitores democrata, o que por sua vez poderia prejudicar republicanos vulneráveis no Estado, como os deputados Christopher Shays e Robert Simmons.

Embora os republicanos tenham sido sempre pessimistas quanto a encontrar um substituto capaz de vencer a corrida pelo Senado - Connecticut é um Estado preponderantemente democrata - a esperança era encontrar alguém que fosse capaz de empolgar suficientemente os eleitores republicanos para contrabalançar uma temida onda de votos democratas em novembro.

Mas nos dias que se seguiram à primária, os temores quanto a um crescimento democrata diminuíram. Lieberman parece estar gerando entusiasmo mesmo entre os republicanos, ajudado em parte pela ausência de entusiasmo institucional pelo seu rival republicano.

McCain, que foi um dos poucos a dizer que apoiaria o candidato republicano nesta disputa, não pretende fazer campanha para Schlesinger, segundo informaram os seus assessores. O seu apoio oficial ao candidato do partido tem como principal objetivo não desagradar os conservadores, e não apoiar realmente Schlesinger.

À medida que a popularidade de Schlesinger caiu de minúsculos 9% em julho para os quase invisíveis 4% atuais, segundo uma pesquisa da Universidade Quinnipiac divulgada na quinta-feira, a questão para os republicanos passou a ser apoiar ou não o candidato.

O senador Norm Coleman, republicano por Minnesota, disse que, sob uma perspectiva política, um triunfo de Lamont em Connecticut "seria bom para os republicanos, porque este Estado não representa os Estados Unidos típicos".

"Assim, segundo esta perspectiva, uma vitória de Lamont revelaria o caráter anômalo do Partido Democrata", afirmou Coleman, que não está apoiando oficialmente ninguém nesta disputa. "Por outro lado, Joe Lieberman é um bom senador. E sob uma perspectiva norte-americana, seria por que Joe Lieberman retornasse ao Senado".

Outros citaram o apoio de Lieberman à política externa de Bush.

"Para mim, essa não é uma questão complexa", afirma William Kristol, editor da "Weekly Standard", e um neoconservador que está ajudando Lieberman por meio de um grupo independente denominado Veteranos pela Liberdade, que contribui para a arrecadação de verbas e o fornecimento de assessoria estratégica ao senador.

"Os republicanos podem ser ambivalentes; eles enxergam uma vantagem partidária em Lamont", diz Kristol. Mas, ele acrescenta: "Os falcões da política externa, os crentes da doutrina Bush e os defensores da guerra desejam que Lieberman vença".

A campanha de Lieberman tem em grande parte ignorado o apoio republicano, consciente de que a campanha de Lamont tentará usá-lo para afastar o eleitorado democrata e independente.

"Parte do problema aqui é que todos fora de Connecticut querem tirar vantagem desta disputa, conferir o seu próprio ritmo a ela e usá-la em vantagem própria", afirma Dan Gerstein, um assessor de Lieberman. "Não estamos interessados em sermos o futebol político de ninguém".

Autoridades republicanas dizem que esperam tirar Schlesinger do páreo, mas temem que pressioná-lo ainda mais só o antagonizaria, e possivelmente criaria simpatia pela sua candidatura, afastando a atenção de Lieberman e de Lamont.

Na sexta-feira, a governadora M. Jodi Rell se distanciou de Schlesinger, afirmando que ele "é o candidato oficial do Partido Republicano", mas que não conversou com ele e que não tem planos para fazer campanha para o candidato. No mês passado, Rell pediu a Schlesinger que retirasse a sua candidatura, mas na sexta-feira ela disse aos repórteres que "ele deu todas as indicações de que pretende permanecer na disputa".

Segundo especialistas que participaram da pesquisa Quinnipiac, os atuais números apresentados por Schlesinger, mostrando-o com apenas 4% de apoio, são menores do que o de qualquer outro candidato de um grande partido em toda a história de pesquisas feitas pela instituição. A mesma pesquisa de agosto mostrou Lieberman liderando com o apoio de 49% dos entrevistados, contra os 38% de Lamont. A pesquisa tem uma margem de erro de 3% para mais ou para menos.

"Com base nas pesquisas, esta não é uma disputa acirrada, de forma que vamos despender os nossos recursos em outra região", afirmou Brian Nick, porta-voz do Comitê Senatorial Nacional Republicano, que tem a atribuição de recrutar e eleger candidatos republicanos para o Senado.

A Casa Branca adotou uma postura ainda mais passiva na semana passada. Snow, o secretário de Imprensa, disse que o governo foi orientado pelo diretório do partido em Connecticut a não apoiar ninguém, e insistiu que isso não é comum.

Snow afirmou que o governo adotou uma rota similar em eleições passadas nas quais os candidatos "não atenderam às expectativas dos partidos locais", embora ele não fosse capaz de fornecer imediatamente o nome de nenhum desses candidatos. Mais tarde, a Casa Branca divulgou uma declaração citando vários exemplos datando de 190.

"Eu li os comentários de Tony e descobri imediatamente o que ele estava fazendo", disse Ari Fleischer, o ex-secretário de Imprensa da Casa Branca, a respeito de comentários notavelmente descompromissados feitos por Snow, que ocupa agora o emprego que era dele.

"Para os republicanos seria bem melhor se Joe Lieberman ganhasse, em vez de Lamont", continuou Fleischer. "Os republicanos contam com um número suficiente de liberais para atacar - nomes como Russ Feingold, Hillary Clinton e Nancy Pelosi - de forma que não precisamos de mais um. Mas que tipo de mensagem teríamos se um senador que apoiasse vigorosamente os gastos com defesa e a guerra no Iraque vencesse neste ambiente? Isso provaria que é possível apoiar aquilo que George W. Bush está fazendo no Iraque e ainda vencer, até mesmo no nordeste dos Estados Unidos".

*Jim Rutenberg e Jennifer Medina contribuíram para este artigo Danilo Fonseca

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