UOL Notícias Internacional
 

20/08/2006

Desafiando a morte para ganhar a vida

The New York Times
Jim Robbins

Em Sturgis, Dakota do Sul
Em uma noite quente e abafada na Flórida há 32 anos, Samantha Morgan, 14 anos, estava sentada em transe dentro de um pequeno autódromo barulhento, assistindo um homem em uma motocicleta enquanto pilotava em círculos, sem esforço, em um ângulo perpendicular ao solo a 100 km/h, rindo o tempo todo.

Anne Sherwood/The New York Times 
Samantha Morgan se apresenta na "Parede da Morte"

















"Eu vi aquele sujeito de lado na parede e foi como se alguém tivesse me dado um tapa", ela disse. "Era a coisa mais legal que já tinha visto." Quando a apresentação acabou, ela se aproximou do proprietário, Sonny Pelaquin, e perguntou: "Meninas podem fazer isto?"

Elas podiam e, aos 46 anos, a garota continua fazendo, às vezes 13 vezes por dia, no que é conhecido como "Wall of Death" (Parede da Morte). "Ela é a melhor que há", disse Sandra Donmoyer, 27 anos, que aprendeu o truque com Samantha. "Eu nunca vi ninguém fazer isto como ela. Ela é fantástica."

O "motordrome" Wall of Death é um circo móvel de 9 metros feito de pinho. Ele tem 4,5 metros de altura e parece uma antiga caixa d'água de madeira ou silo; dentro de tal círculo, os motociclistas parecem desafiar tanto as leis da física quanto do bom senso. Eles dão algumas voltas ao redor da arena até estarem velozes o bastante para fazer suas motos aderirem à parede. Eles não usam capacetes, porque a gravidade exerceria tal pressão nos capacetes que seria impossível erguer suas cabeças.

Samantha, que também usa o nome artístico Samantha Morgan Storm, estava se preparando há duas semanas para três apresentações noturnas dentro do Jay Lightnin's Wall of Death no Sturgis Motorcycle Rally, o maior do país, um evento anual que atrai mais de meio milhão de pessoas. O motordrome é a menor parte deste evento, montado no estacionamento em frente a um bar de motoqueiros e costuma atrair 20 a 30 pessoas por apresentação.

A esbelta e modesta Samantha abriu um grande sorriso quando lhe foi perguntado o motivo para ter escolhido esta ocupação incomum, e então deu de ombros. "Eu me apaixonei pelo wall", ela disse.

Ela e Sonny Pelaquin, que morreu por complicações ligadas à diabete, ingressaram no Museu e Salão da Fama da Motocicleta de Sturgis naquele dia.

"Sonny adorava o wall", ela disse, com expressão de recordação. "Ele sempre ria quando pilotava."

Cercada pelos seus cães Mischief e Daisy, em um trailer com ar-condicionado que serve como refúgio para o calor escaldante de Dakota do Sul, ela confessou um certo nervosismo antes de cada apresentação. "Eu sempre fico nervosa. Não assustada, mas nervosa."

Tais sentimentos, é claro, são a moeda do reino para os envolvidos em tais atividades. "Se a roda desliza enquanto você está lá em cima e você consegue controlar e não cair no chão, causa uma certa euforia", ela disse.

Se você cai, é claro, a euforia é superada pela dor. E ela já caiu dezenas de vezes. Também ocorreram três grandes acidentes, o que significa fraturas. O mais memorável foi em uma apresentação na França, em 1992; as fraturas foram tantas -quadril, costas, joelho, ombro, costelas, esterno; "como uma mosca esmagada", ela disse- que foram necessários quatro meses para ela poder voltar para casa. O lado positivo, ela disse, "é que aprendi a falar francês". O mais recente acidente foi em 1998, que lhe valeram pinos de metal nas costas e uma vértebra artificial.

A Wall of Death, ou Thrill Arena, como Samantha prefere chamá-la, não é truque de parque de diversões, mas uma simples exploração da força centrífuga. Os motordromes são uma variação das pistas de corrida de 1 milha (1,6 km) -semelhantes, mas com laterais menos inclinadas- que predominavam nos anos 20. Mas tantos corredores morreram, assim como alguns poucos espectadores, que receberam o nome de Wall of Death e acabaram sendo proibidos. Os motociclistas se voltaram para os motordromes e um novo fenômeno nasceu.

Alguns pilotos até mesmo adicionavam leões, criando o liondrome e a Corrida pela Vida. Assim que os pilotos começavam a andar pelas paredes, leões treinados eram soltos e investiam contra as motos, atacando com suas enormes patas. (Eles geralmente não conseguiam pegar as motos.) A família de Sonny Pelaquin era dona de uma destas atrações; tal era chegou ao fim em 1964, depois de um funcionário de circo bêbado ter enfiado sua mão na jaula do leão e ser mordido. A polícia foi chamada e, uma bala depois, o leão chamado Rei estava morto e o espetáculo encerrado.

Os motordromes estão quase extintos. Restam apenas três no país, disse Samantha, incluindo o California Hell Riders, que estranhamente não fica na Califórnia, mas em Swansea, Massachusetts. Talvez existam uns 15 no exterior. Um dos passatempos de Samantha é pilotar em todos os motordromes existentes que puder encontrar e, até o momento, já foram 11. Um motordrome ornamentado em Munique se destaca.

Jay (Lightnin') Bentley, um piloto de acrobacias da Área da Baía, construiu o usado aqui. Concluído em 1998, ele é o primeiro motordrome construído desde 1958, ele disse. "Foram necessários dois anos para construí-lo, trabalhando dia e noite", segundo ele. "Meus vizinhos pensavam que era Noé construindo uma arca no quintal." Bentley viaja com seu motordrome para apresentações em Sturgis, na Biketoberfest em Daytona Beach, Flórida, ou no Evel Knievel em Butte, Montana; os cinco pilotos -que também montam o pesado motordrome toda vez que é transportado- realizam de 2 a 13 apresentações por dia, dependendo do interesse do público.

Pouco antes das 19 horas, com o sol se pondo atrás das Black Hills, Bentley anuncia nos alto-falantes que a primeira apresentação está prestes a começar. Os pilotos, incluindo Rick Ransom em um kart, e os motociclistas Wahl E. Walker, Samantha Morgan e Bentley, aceleram.

Poucos minutos depois, Samantha, a estrela do show, realiza sua apresentação, vestindo calças colantes, botas e top pretos. Seus longos cabelos loiros, penteados em duas tranças, são soprados para trás pelo vento de 100 km/h enquanto um grande sorriso se abre em seu rosto.

A visão é incomum o bastante para agitar a platéia de motoqueiros beberrões, cujas cabeças se movem em uníssono para manter a atenção na dama. "Esta é uma loucura que você precisa ver pessoalmente, uma insanidade única na vida", disse Rick Krone, um motoqueiro barrigudo e barbado de Fargo, Carolina do Norte. Durante a apresentação, Samantha solta as mãos do guidom, trava a aceleração e vira de cabeça para baixo, com mãos e pés abertos.

As motos e karts voando pelas paredes criam uma percepção distorcida. Nenhuma outra experiência se aproxima disto.

A fascinação de Samantha Morton por este esporte extremo começou cedo. Após fugir de um lar adotivo problemático em Long Island, quando tinha 11 anos, e ter vivido nas ruas das cidades da Costa Leste por alguns anos, ela foi parar em um parque de diversões em Dade County, Flórida. Os apresentadores do show de Sonny Pelaquin, Inferno sobre Rodas, a deixaram entrar. Ela ficou fascinada. Atualmente o repertório dela de acrobacias é um dos maiores. "Ela é única", disse Ransom, que já recebeu algumas orientações dela.

Morgan pilota uma Harley-Davidson 250 1975, mas apenas porque sua moto favorita para "wall", uma Indian 101 Scout 1931 chamada Beth, precisa de uma nova dianteira. Beth é grande, tem um centro de gravidade baixo e se agarra melhor à parede, o que significa que permite a Samantha realizar mais acrobacias. Mas se ela cai, a moto pesada pode ser um problema. "Quando a Indian cai sobre mim, ela me parte no meio", ela disse. Em setembro, ela seguirá para Bonneville Salt Flats em Utah, para tentar quebrar o recorde de velocidade em terra, que atualmente é de 209,399 km/h em uma Indian Chief.

Enquanto ela busca suas metas, Samantha Morgan teme estar chegando ao fim a era das mulheres em motordromes. No auge havia até 30 mulheres pilotando em motordromes, ela disse, mas atualmente não há jovens surgindo para substituí-la. Ela conhece apenas mais uma motociclista, Sandra Donmoyer, que atua nos Hell Riders e é conhecida como Sandra D.

Mas Samantha continuará acelerando desafiadoramente no Wall of Death ainda por algum tempo. Não há programa de aposentadoria para estes pilotos, não há seguro saúde, apenas os dólares arremessados pelos espectadores quando lhes é pedido que doem para cobrir custos médicos; a certa altura do show, Samantha pilota sem usar as mãos para recolher o dinheiro doado.

Mas pessoas como ela gostam do wall pelo prazer de provar a mistura potente de gravidade e adrenalina. Saborear a liberdade dos problemas terrenos, mesmo que por alguns minutos fugazes. "Quando estou no wall", ela disse, "é o único momento em que toda a dor desaparece". George El Khouri Andolfato

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