UOL Notícias Internacional
 

20/08/2006

Na investigação britânica, uma família dividida entre dois mundos

The New York Times
Ian Fisher e Serge F. Kovaleski

Em Londres
O pai, Abdul,parece um imigrante clássico no Reino Unido: um paquistanês que se estabeleceu em Birmingham, abriu uma padaria e trabalhou muitas horas extras. Mas ele também manteve laços excepcionalmente fortes com seu antigo país, fundando uma instituição de caridade para arrecadar fundos para paquistaneses em dificuldades.

O filho mais velho, Rashid, como muitos filhos de imigrantes muçulmanos daqui, teve uma vida mais complicada, pego entre duas culturas, tendo o Islã como apoio consistente. Ele também sentia uma forte atração pelo Paquistão, para onde fugiu em 2002 após um tio ter sido misteriosamente esfaqueado em Birmingham, onde aparentemente ingressou em um grupo extremista islâmico.

O mais novo, Tayib, visitou o Paquistão e parecia estar seguindo os passos de seu pai como padeiro trabalhador no Reino Unido. Nas primeiras horas de 10 de agosto, ele recebeu um cheque de cerca de US$ 3 mil de um cliente, então se sentou com ele até as 2 horas da manhã, conversando e comendo batatas fritas.

"Uma pessoa que está prestes a explodir a si mesma não fica sentada tranqüila, calma, nem sai por aí recebendo pagamentos", disse o cliente, Mohammad Nazam, um ex-vereador de Birmingham que é dono de três supermercados e conhece a família há mais de 40 anos.

Mas poucas horas depois, Tayib foi um dos 24 muçulmanos presos em um plano para explodir aviões sobre o Atlântico, apenas um dia após seu irmão, Rashid, ter sido preso no Paquistão em meio às alegações de que era um principais planejadores.

Pouco se sabe sobre a força das evidências do governo britânico contra os suspeitos. Mas nestes primeiros estágios, os três homens da família Rauf e a instituição de caridade que seu pai ajudou a fundar estão no centro da investigação de um plano que abalou o Reino Unido.

Uma pergunta central é se há alguma ligação entre as duas dúzias de jovens britânicos que foram detidos (23 continuam sendo interrogados) e o mundo do terrorismo sofisticado baseado a milhares de quilômetros de distância, nos recessos obscuros do Paquistão e Afeganistão.

Com tanta coisa desconhecida uma semana após o plano ter sido revelado, a família Rauf representa a mais forte possibilidade de tal elo. Anos antes do plano para explodir aviões, a família Rauf já parecia atrair um volume incomum de suspeitas, não apenas por seus laços com o Paquistão.

Segundo a polícia, a casa deles em Birmingham já foi revistada após duas mortes, incluindo o assassinato do tio dos jovens Rauf. Auditores colocaram a conta da instituição de caridade de Abdul Rauf sob investigação em março deste ano. No verão de 2005, após os atentados a bomba contra o metrô e ônibus que mataram 52 pessoas aqui, uma vizinha da sede da instituição no leste de Londres telefonou para a linha direta antiterrorismo do Reino Unidopara informar sua suspeita.

A operadora da linha, ela disse, descartou seus temores. Entradas e saídas durante a noite na loja, a mudança repentina de importadora de biscoitos em instituição de caridade, tudo após os atentados, não representavam terrorismo.

"Eu entendi o que eles disseram", disse Linda Brown, 48 anos, uma ex-secretária de uma empresa vizinha à instituição, a Crescent Relief, que opera em um parque industrial decadente na seção Dagenham de Londres. "Mas talvez se tivessem investigado, se tivessem espionado, quem sabe o que poderiam ter encontrado?"

Na verdade, há evidência de que pelo menos um dos suspeitos detidos esteve envolvido na instituição de Rauf. Em outubro passado, o jornal "Bucks Free Press", em High Wycombe, listou um suspeito, Khuram Ali, como o contato local para doações à Crescent Relief para ajuda às vítimas do terremoto de outubro de 2005 na Caxemira. O jornal, que disse que 1.000 barracas foram enviadas para a Caxemira, também listava um número de telefone de Ali que está fora de serviço.

Em High Wycombe, onde Ali morava, um vizinho dele, Ashley Tighe, disse em uma breve entrevista no sábado que Ali lhe disse que estava envolvido em um esforço para enviar barracas às áreas atingidas pelo terremoto.

"Ele disse que estava trabalhando para uma instituição de caridade e que enviaram barracas devido ao terremoto, mas que algumas delas se extraviaram no aeroporto", lembrou Tighe. Ele disse que entendeu que a instituição também enviava comida e roupas para a área.

O paradeiro de Abdul Rauf, 52 anos, é desconhecido. Parentes e vizinhos disseram que ele estava no Paquistão no momento das prisões. A "ABC News" noticiou que ele também está sob custódia no Paquistão, mas o governo de lá não confirmou o fato. As autoridades britânicas não sugeriram que Abdul Rauf estava envolvido no plano, nem que seus ativos foram bloqueados pelo Banco da Inglaterra, que agiu contra a maioria dos demais suspeitos.

O retrato de Rauf que surgiu das entrevistas com amigos, vizinhos e parceiros comerciais parece definido por uma intensa devoção religiosa e uma determinação em não perder o Paquistão e suas tradições em meio à vida moderna e secular britânica.

Ao todo, Rauf parece o arquétipo do imigrante bem-sucedido, que, como a maioria dos paquistaneses na Grã-Bretanha, veio do distrito de Mirpur, na Caxemira controlada pelos paquistaneses. Ele é dono de uma padaria que faz pão chato e vende bolos e biscoitos importados do Paquistão, disseram vizinhos e associados comerciais. Ele também está profundamente envolvido em obras de caridade, fundando a Crescent Relief em 2000 e mais recentemente doando dinheiro para as vítimas do terremoto na Caxemira e do tsunami na Ásia, em dezembro de 2004.

"Ela é uma família de classe operária com pouco tempo disponível para vida social", disse Nassar Mahmood, um diretor da Mesquita Central em Birmingham. "Eles não colheram o frutos maduros de seus negócios."

Mas, ele acrescentou, eles não demonstravam animosidade em relação ao Reino unido. "Eu consigo ver quando alguém se sente alienado ou furioso em relação às políticas do país", ele disse. "Mas estas pessoas não eram assim. Elas apreciavam suas vidas no Reino Unido."

Ao mesmo tempo, como muitos imigrantes paquistaneses daqui, Rauf visitava regularmente sua aldeia natal, Haveli Beghal, onde possui uma casa e, segundo relatos, está financiando a construção de uma mesquita. Ele estava lá para participar de um casamento, disseram amigos, quando seus filhos foram presos.

E ele era tão dedicado às suas crenças que construiu um pequeno centro de estudos para crianças muçulmanas nos fundos de sua casa em Saint Margaret's Roda, em Birmingham, uma rua de casas de tijolos modestas no bairro Ward End da cidade.

Uma vizinha, June Lethbridge, disse que entre uma dúzia e 20 meninos freqüentavam as aulas ali três ou quatro vezes por semana. A esposa de Rauf, que nunca saia de casa sem cobrir a cabeça ou o rosto, ensina o Alcorão para meninas.

"O melhor que posso me lembrar é que tudo isto começou a quatro ou cinco anos atrás", disse Lethbridge. "Me surpreendia como tantos cabiam lá dentro."

Algum choque cultural neste caso -- possivelmente entre a lei tradicional e as de seu país adotado -- parece ter ocorrido na família Rauf em abril de 2002.

Mohammad Saeed, um entregador e cunhado de Abdul Rauf, morreu esfaqueado em abril de 2002 em sua casa em Birmingham, diante de sua esposa e dois filhos. Ele tinha 54 anos.

Ninguém foi preso, apesar de a casa de Rauf ter sido revistada. Rashid Rauf, supostamente com 29 anos, fugiu logo em seguida para o Paquistão.

A polícia nunca identificou formalmente o suspeito, mas reportagens apontaram para Rashid e uma suposta disputa familiar que possivelmente levou a uma "morte pela honra", não incomum no Paquistão e freqüentemente envolvendo possível mau comportamento sexual. A polícia de West Midlands se recusou a comentar o caso, fora confirmar que a casa de Rauf foi revistada na investigação do assassinato.

Três anos depois, a família esteve sob suspeita quando tumultos violentos entre jovens negros e asiáticos estouraram em Birmingham, causando a morte de um jovem negro, Isaiah Youngsam. A polícia confirmou que a casa da família Rauf foi novamente revistada na investigação do assassinato, mas que no final outros suspeitos foram presos.

Na semana passada, as autoridades no Paquistão descreveram Rashid Rauf como uma figura central no suposto plano e o principal contato entre britânicos e paquistaneses com ligações com a Al Qaeda e outros grupos militantes.

Não há evidência de que ele tenha voltado ao Reino Unido após 2002. Cerca de um ano após chegar ao Paquistão, Rashid Rauf se casou e se estabeleceu no Punjab, na cidade de Bahawalpur, que também é lar do Jaish-e-Muhammad, um dos grupos islâmicos mais extremistas no Paquistão, com fortes laços com a Al Qaeda.

Sua cunhada é casada com o irmão do fundador do grupo, Maulana Masood Azhar, e membros disseram que Rashid Rauf foi membro ao longo de suas várias encarnações. Mas nesta semana em Bahawalpur, onde charretes puxadas por burros disputam espaço com bicicletas e veículos rurais, vizinhos temerosos e autoridades locais não estavam dispostos a fornecer detalhes de sua vida lá.

"Eles eram excepcionalmente ricos", disse um vizinho, na aldeia altamente pobre. "Eles tinham muito dinheiro e todos se perguntavam de onde vinha o dinheiro."

Vários relatos na imprensa britânica, citando autoridades anônimas, sugeriram que o dinheiro da instituição de caridade da família estava sendo desviado para o plano. Na semana passada, a Comissão de Caridade da Inglaterra e Gales disse estar investigando tal possibilidade.

A última declaração oficial para a comissão mostrava que a Crescent Relief teve uma renda bruta de 89.202 libras, cerca de US$ 168 mil, no ano fiscal encerrado em outubro de 2004.

Em março, a conta foi investigada pelo banco, o Barclays, devido a uma transferência de 50 mil libras (US$ 94 mil) feita em 2005 para uma conta no Saudi Pak Bank, disse uma pessoa informada sobre a auditoria da conta, que não estava autorizada a falar publicamente.

A pessoa disse que nem o valor nem o destino da transferência feita após o terremoto na Caxemira no ano passado provocou preocupações. A conta foi investigada apenas porque a pessoa que fez a transferência não forneceu a identificação apropriada.

O escritório da instituição de caridade em Dagenham também chamou a atenção dos vizinhos no ano passado.

Brown, a secretária do prédio vizinho, disse que após vários anos servindo como depósito para os biscoitos e bolos importados do Paquistão, logo após os atentados em Londres ela se transformou em uma instituição de caridade para ajudar a Caxemira.

As pessoas da nova instituição, ela disse, começaram a distribuir panfletos sobre as dificuldades da população caxemir, uma região cujo controle é disputado pelo Paquistão e Índia. Brown e uma colega de trabalho disseram que caminhões chegavam o tempo todo, especialmente à noite, e descarregavam dentro do prédio, como se buscassem esconder seu conteúdo.

"Eles mantinham o maior sigilo sobre o que entrava e saía", disse a colega de trabalho, Kay Charles, 60 anos.

Devido à maior preocupação após os ataques terroristas do ano passado, Brown disse que telefonou para a linha direta antiterrorismo. Ela disse que ainda não sabe se algo ilegal estava ocorrendo. Ela disse que foi "apenas uma sensação".

Um dos diretores da instituição de caridade, Mohammad Farooq, que a deixou vários meses atrás, disse que ela é totalmente legítima. "É perfeitamente normal", disse Farooq em uma breve entrevista em sua casa no leste de Londres.

Com Abdul Rauf no Paquistão neste mês, uma amigo disse que o filho mais jovem, Tayib, 22 anos, ficou encarregado de cuidar dos negócios. "Ele sabe quais produtos comprar e quais são os melhores preços", disse o amigo, Abid Hussain, um gerente de supermercado em Birmingham.

Seu outro interesse na vida, segundo várias pessoas, era a mesquita local, seguidora do wahhabismo, a seita radical seguida por muitos militantes.

Um amigo, que disse conhecer Tayib há nove anos e que freqüentou a escola com ele, mas que se recusou a dizer seu nome, disse que a família permanece culturalmente dividida entre o Paquistão e a Grã-Bretanha. O amigo lembrou que quando Tayib conversou recentemente sobre casamento com seu pai, o pai disse que não precisava ser um casamento arranjado.

"Se Tayib considerasse a garota como sendo a certa para ele, ele poderia se casar com ela", disse o amigo. "Os pais não eram tão rígidos assim."

Heather Timmons, em Londres; Souad Mekhennet, em Birmingham; Carlotta Gall, em Bahawalpur, Paquistão; e Margot Williams, em Nova York, contribuíram com reportagem para este artigo. George El Khouri Andolfato

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