UOL Notícias Internacional
 

21/08/2006

Vídeos de lutas de rua proliferam nos EUA

The New York Times
Warren Saint John
Em novembro passado, William Graham estava sentado tranqüilamente em um bar perto da sua casa em Miami, em uma noite de karaokê, quando subitamente se meteu em uma confusão. Ele se lembra de que, no outro lado do bar, um casal bêbado discutia em voz alta. A mulher olhou para Graham, algo que aparentemente desagradou o namorado dela. O cara se aproximou de Graham, 44, jogou um cigarro contra ele e o chamou para brigar.

Jon Gilbert Fox/The New York Times 
Jim Arvanitis demonstra o golpe da "guilhotina" em seu amigo e "aluno" Porter Dodge
















Infelizmente para o agressor, Graham é um estudante aplicado da arte, ou do ato, de lutar nas ruas. Ele tem aproximadamente 20 DVDs e livros sobre lutas de rua, vários deles do belicoso guru Paul Vunak. Um deles é perfeito para aquelas noites de karaokê nas quais as coisas ficam descontroladas: "A Anatomia de uma Briga de Rua".

Graham se lembrou do seu treinamento, e aquilo que aconteceu a seguir no bar não foi uma cena bonita. Primeiro ele golpeou os olhos do agressor com os polegares, antes de aplicar uma "explosão direta", uma seqüência de socos enérgicos na barriga ("O golpe favorito de Bruce Lee", explica Graham). O agressor caiu no chão, e aí Graham imobilizou-o com um estrangulamento até que os seguranças separaram os dois e os expulsaram do bar -- através de portas diferentes. Segundo Graham, o episódio inteiro durou menos de 20 segundos. Ao final, o agressor foi dominado, e a masculinidade de Graham saiu intacta, exatamente como os vídeos lhe haviam prometido.

Graham conta que o seu oponente estava em um estado de incredulidade após a luta. "Ele achou que íamos passar por toda aquela cena de luta de boxe. Ele não estava pronto para um ataque contra os olhos e uma seqüência de socos no abdômen."

Se Graham decidir aperfeiçoar a sua técnica com a compra de mais vídeos com instruções sobre brigas de rua, não lhe faltarão opções. Antigamente tidos como uma área apropriada para alguns paranóicos e entusiastas de técnicas de sobrevivência, os cursos de brigas de rua se proliferaram por meio dos vendedores online, em uma tendência estimulada em grande parte pela popularidade do Ultimate Fighting Championship e o Pride Fighting Championship, dois campeonatos televisados de lutas envolvendo a mistura de diversas artes marciais.

Don Wasser, o presidente da PFS Video, uma companhia de Pensilvânia que produz vídeos de lutas de rua desde 1991 -- incluindo o clássico de Vunak "Mordida Bárbara: como sair Instantaneamente debaixo de um homem de 110 Quilos" -- afirma que as vendas dos vídeos de briga de rua da sua companhia aumentaram 50% nos últimos quatro anos. Ele atribui esse crescimento aos fãs do Ultimate Fighting, que atrai uma grande audiência por meio de programas por assinatura, e mais recentemente à série de TV, "The Ultimate Fighters", que acompanha os treinamentos e as competições dos lutadores.

"No início as coisas andavam devagar", diz Wasser, referindo-se ao seu negócio. "Mas nos últimos cinco ou seis anos houve uma explosão das vendas."

Segundo Wasser a maior parte dos seus clientes não está interessada em investir muito tempo aprendendo artes marciais tradicionais em um dojô, ou em lutar em academias. Em vez disso, eles gostam da idéia de sentarem-se em um sofá e aprenderem uns dois golpes sujos e violentos, para o caso de se depararem com agressores no mundo real.

Wasser diz que está no ramo da "construção da autoconfiança", e por meio de pesquisas feitas junto à clientela, ele afirma que passou a conhecer bem a psicologia dos seus fregueses.

"Os caras que estão jogando futebol americano não estão de autoconfiança -- eles já a conquistaram", explica Wasser. "É o pessoal do clube de xadrez que busca este tipo de sensação."

Os especialistas em segurança pessoal são em geral unânimes em afirmar que se meter em uma briga é uma idéia extraordinariamente ruim. Perca, e você pode acabar no hospital; vença, e poderá ir para a cadeia ou enfrentar processos na justiça. E, segundo eles, a grande quantidade atual de armas nas ruas torna a situação ainda mais perigosa.

"Ninguém deveria entrar em luta corporal com outro indivíduo, porque nunca se sabe o que se vai enfrentar", explica Donald R. Henne, ex-tenente da polícia de Nova York, e atualmente um diretor da firma de segurança Kroll.

Ele diz que acha os vídeos de brigas de rua risíveis.

"Esses indivíduos que lutam nos campeonatos de vale-tudo são atletas altamente treinados que se exercitam constantemente", diz ele. "É como se alguém assistisse a um vídeo sobre como pilotar uma aeronave e, depois, sentasse em frente aos controles de um Jumbo e dissesse que é capaz de fazer o avião voar".

Mas Bruce Corrigan, um ex-fuzileiro naval que dá aulas de luta e que aparece em uma das séries de vídeo de Wasser, afirma que os clientes que compram o seu vídeo seguem uma filosofia diferente: "É melhor prevenir do que remediar".

Com títulos como "Segredos de Cabeçadas Brutais", "Quarteirões dos Guetos" e "Delta Mojo", os DVDs de lutas de rua podem ser o equivalente da era digital dos manuais que costumavam ser anunciados nas contracapas das revistas em quadrinhos, todos eles prometendo as jovens os segredos de como lidar com agressores que jogam areia nos rostos ou tentam roubar as namoradas dos outros. Assim como nas antigas propagandas, o material promocional dos vídeos é muitas vezes comicamente hiperbólico: "Sabe o que os mais perigos agentes federais do mundo sabem sobre as técnicas de combate sujas, ilegais, realistas, letais e sem armas? Resposta: que você ainda não conhece estas técnicas", declara a página na Web de "Brutal Beyond Belief"
("Inacreditavelmente Brutal"), a série de DVDs sobre brigas de rua feita por um suposto agente ultra-secreto do governo que atende pelo nome de "Doutor Violência". "Grande parte deste material é de uma violência inacreditável!"

A qualidade de produção dos vídeos varia bastante, e eles geralmente trazem uma grande variedade de ex-militares, artistas marciais e, em alguns casos, até ex-membros de gangues dispostos a compartilhar técnicas de sobrevivência que aprenderam nas ruas. Um histórico de violência, real ou exagerado, é considerado um fator positivo.

Um vídeo, produzido por uma companhia chamada TRS Direct, promove os conhecimentos de um instrutor que "treinou agentes da KGB, guarda-costas do Kremlin, pára-quedistas de elite e equipes russas do tipo Swat que atuam em grandes cidades". Uma outra produção faz propaganda de uma técnica de luta israelense que "empolga até soldados norte-americanos com experiência de combate".

Mas apesar da promessa de métodos exóticos de luta de todo o mundo, a maior parte dos vídeos sobre brigas de rua se reduz àquele mesmo punhado de técnicas: pisadas nos pés, socos na laringe, golpes de dedos contra os olhos, cotoveladas violentas, chutes na canela e cabeçadas, que são aplicados sem piedade em figurantes de cara feia que interpretam os agressores prestes a serem derrotados.

Acontece que muita gente que compra vídeos de lutas de rua não se mete realmente em muitas brigas. Michael Rigg, diretor de vendas e marketing da Paladin Press, uma companhia de Boulder, no Colorado, que publica vários produtos que ensinam técnicas de brigas de rua, diz que faz geralmente treinamentos em artes marciais variadas, embora nunca tenha brigado.

"Sou um bom democrata liberal", afirma Rigg. "Mas se alguém me atacar, sou capaz de arrancar um pedaço do agressor e devolver esse pedaço a ele."

Marc Gould, um técnico da área de saúde da Califórnia, de 50 anos, e fã dos vídeos do Ultimate Fighting Championship e de brigas de rua, diz que, embora conheça bastante sobre lutas, só brigou na infância. Mas ele frisa que se uma confusão se apresentar, ele estará pronto para enfrentá-la.

"A cotovelada é o meu golpe favorito", afirma Gould. "Para sairmos de uma briga de rua, é necessário machucar o oponente com muita rapidez."

De certa forma, a indústria de vídeos de lutas está estruturada como a indústria da pornografia. Os lutadores individuais trabalham para as distribuidoras por um preço que varia de US$ 500 a US$ 1.000 por vídeo. E o preço de cada vídeo fica entre US$ 19 e US$ 79. Alguns usam pseudônimos. Jim Grover, que aparece na série da Paladin Press, "Situational Self-Offense" ("Auto-Ataque Situacional"), é na verdade um especialista em segurança chamado Kelly McCann.

Como os vídeos rendem muito pouco dinheiro, os instrutores precisam fazer vários deles para sobreviver. Jim Arvanitis, que se apresenta como especialista no estilo de luta dos gladiadores, fez 21 vídeos. Ele diz que o trabalho lhe permitiu aperfeiçoar certos golpes que em outra situação poderiam fazer com que fosse parar na cadeia.

"Não dá para sair por aí provocando os outros, ou ir a bares para fazer cara feia para os outros", diz Arvanitis. "Sendo assim, é melhor fazer os vídeos."

Wasser afirma que a sua companhia pretende lançar dez novos vídeos de lutas de rua neste ano. Apesar disso, ele diz que se considera um pacifista. "A minha mulher sabe que sou um homem bastante masculino", diz ele. "Prefiro não parar em um hospital ou em uma delegacia de polícia à noite. E, hoje em dia, todo mundo tem um advogado." Danilo Fonseca

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