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23/08/2006

Afegãos perdem a confiança em Karzai, amplamente visto como ineficaz

The New York Times
Carlotta Gall

em Lahore, Paquistão
Após meses de grande frustração com a corrupção, a economia e a falta de justiça e segurança, as dúvidas em relação ao presidente do Afeganistão, Hamid Karzai, e por extensão ao esforço liderado pelos Estados Unidos para reconstruir o país, levou a uma crise de confiança.

Entrevistas com afegãos comuns, diplomatas estrangeiros e autoridades afegãs deixam claro que a crescente insurreição do Taleban no sul representa o desafio mais sério à sua presidência até o momento.

A insurreição, juntamente com outras questões, provocaram uma erupção de dúvidas em relação a Karzai, que é amplamente considerado como tendo fracassado em resolver uma série de problemas. Isto, por sua vez, leva mais e mais afegãos a se perguntarem o que o governo está fazendo.

A corrupção é tão disseminada, o governo aparentemente tão letárgico e a divisão entre ricos e pobres tão grande que Karzai está perdendo apoio popular, alertaram autoridades como Ahmad Fahim Hakim, o vice-presidente da Comissão Independente de Direitos Humanos Afegã.

"Nada do que ele prometeu se materializou", disse Hakim, repetindo os comentários de diplomatas estrangeiros e outros em Cabul, a capital. "Sob a superfície, está fervendo."

Pela primeira vez desde que Karzai assumiu o governo há quatro anos e meio, afegãos e diplomatas estrangeiros estão especulando sobre quem poderia substituí-lo. A maioria concorda que a resposta por ora é ninguém, deixando o destino do empreendimento liderado pelos Estados Unidos intimamente ligado ao seu próprio sucesso ou fracasso.

Na terça-feira, o gabinete de Karzai anunciou que ele falou naquele dia com o presidente Bush, que lhe assegurou a continuidade do apoio americano. Karzai também aceitou o convite de Bush para visitar Washington.

Karzai, um político tribal consumado, tem sido a pedra angular do esforço para formar um governo democrático centralizado no Afeganistão para substituir o governo do Taleban, que foi removido do poder em 2001.

Para seus simpatizantes, ele conseguiu manter a paz em uma sociedade
dividida e rebelde, dando aos senhores da guerra regionais e líderes armados uma participação no poder ao mesmo tempo em que colocava o país no caminho de um futuro democrático.

"A percepção de crescente insegurança tem afetado a psique do povo afegão", disse Jawed Ludin, o chefe de gabinete de Presidente, em uma entrevista por telefone em Cabul. Mas ele a considerou uma percepção da realidade em vez de uma crise. Ele disse que as pessoas "ainda confiam" em Karzai e "ainda pensam que ele é capaz de liderá-las".

Mas os custos de seus compromissos estão se tornando mais pesados de
suportar para os afegãos comuns e doadores estrangeiros. Os críticos dizem que os compromissos isolaram muitas pessoas dos benefícios da mudança democrática e atrapalharam a condução da administração do presidente e dos governos locais.

Tumultos em Cabul em 29 de maio, que deixaram 17 mortos na pior violência na capital desde a derrubada do Taleban, foram um sinal preocupante, disseram muitos aqui. A violência estourou depois que três afegãos foram mortos por um caminhão militar americano desgovernado. Outras quatro pessoas foram mortas quando soldados americanos dispararam contra a multidão enfurecida.

Depois, os manifestantes tomaram as ruas e atacaram os escritórios
estrangeiros. Eles também cantavam "Morte a Karzai!" -uma indicação de que ele é responsabilizado pelo crescente desencanto. "Ele ficou abalado", disse um diplomata ocidental.

As recriminações contra o presidente prosseguiram e os próprios erros de Karzai não ajudaram a redimir sua posição política.

Em uma reação às manifestações, o presidente nomeou um poderoso comandante local, com ligações com o crime organizado, como chefe de polícia de Cabul. Ele também deu altos postos na polícia a 13 ex-comandantes que seriam afastados sob as há muito esperadas reformas na polícia.

Os assessores de Karzai indicaram que os passos foram necessários para
assegurar a segurança na capital. Mas as nomeações alienam ainda mais os diplomatas e grupos de ajuda estrangeiros, assim como os afegãos comuns. "Ele está acomodadiço demais", disse Joanna Nathan, do International Crisis Group, uma organização de pesquisa de políticas. "A reforma da polícia foi incrivelmente decepcionante."

Entrevistas recentes com uma série de afegãos ilustraram um tema comum de queixas sobre funcionários do governo corruptos e voltados aos seus próprios interesses.

No início deste mês, 60 membros do Parlamento, que até agora em grande parte demonstravam apoio, assinaram uma medida protestando contra a nomeação de certas autoridades e a má atuação de seu governo.

Um grupo de anciãos da província de Baghlan, no norte do Afeganistão, disse ter sido repelido quando foi à capital para pedir a substituição de seu governador, que estaria preocupado apenas com seu próprio poder.

"Nós queremos apenas um governador neutro, imparcial", disse um
representante, Abdul Shukur Urfani. "As pessoas vão dar início a
manifestações, porque estão insatisfeitas com o que o governo está fazendo."

Karzai tem considerado muitos destes problemas como insignificantes, mas a corrupção de fato ocorre em todas as esferas.

Em uma ponta da escala está o escândalo imobiliário de três anos atrás,
quando ministros do governo, na ausência do presidente, concederam a si
mesmos e amigos propriedades de primeira linha em Cabul, onde os preços dos terrenos dispararam desde a invasão americana.

Uma investigação foi discretamente abandonada e as autoridades foram
autorizadas a construir casas ostentosas, que agora se destacam diante dos transeuntes como um lembrete constante dos excessos oficiais.

Em outros lugares, apesar da corrupção ser pequena em escala, ela tem um impacto enorme sobre os pobres, que representam a maioria da população. Um motorista entrevistado recentemente em Kandahar, no sul do Afeganistão, disse que recebia o equivalente a US$ 40 por mês, mas pagava metade disto em subornos para a polícia local, o que o deixava incapaz de alimentar sua família.

Um político da oposição, Abdul Latif Pedram, disse: "Nunca houve tanta
corrupção no país. Nós temos uma economia mafiosa e uma economia de drogas".

A mais irritante para as pessoas comuns é a corrupção dos juízes, o que
torna compensações quase impossíveis. Não há virtualmente nenhum processo envolvendo autoridades locais ou de alto escalão. Os chefes de polícia e governadores corruptos permanecem em seus cargos ou, se as queixas se tornam barulhentas demais, são transferidos para outros cargos, disse Hakim, da comissão de direitos humanos.

No sul do Afeganistão a situação é tão ruim que as pessoas começaram a se voltar para o Taleban em busca da justiça rápida e severa administrada pelos mulás, disse Abdual Qadeer Noorzai, uma autoridade de direitos humanos naquela região.

Karzai tem sido lento para tratar dos problemas ou tem agido apenas quando pressionado.

Por exemplo, sua escolha para ministro-chefe foi de um aliado próximo, Fazel Hadi Shinwari, que já tinha servido quatro anos como chefe da Suprema Corte, presidindo uma das instituições mais corruptas e intocáveis do país. Os problemas eram tão visíveis que o Parlamento se recusou a confirmar a nomeação, forçando o presidente a nomear um novo ministro-chefe, que foi aprovado.

Há queixas semelhantes nas províncias. Os governos britânico e holandês, que estavam se preparando para enviar tropas sob o comando da Otan para o sul do Afeganistão, tiveram que pressionar Karzai a afastar dois governadores, ambos aliados pessoais, que alienaram grande parte das populações provinciais.

O gabinete do presidente apontou que ele precisa equilibrar exigências
tribais, facciosas, regionais e étnicas do país em suas nomeações, e que leva tempo para formar as instituições fundamentais que foram destruídas por anos de guerra.

Mas para muitos as nomeações indicam a tendência de Karzai de aplacar as poderosas facções armadas em vez de tomar as decisões duras para melhorar a governabilidade.

Também há queixas sobre a economia. Três milhões de afegãos ainda dependem de alimentos doados e o governo foi obrigado a apelar por mais ajuda para os agricultores afetados novamente pela seca neste ano. Os preços subiram acentuadamente com o afluxo de ajuda estrangeira.

Apesar do boom da reconstrução, uma falta de energia elétrica e outros
serviços impede a criação de empregos em grande escala, e centenas pedem diariamente vistos para trabalhar no Irã ou no Paquistão. A pobreza e a falta de emprego estão entre os fatores que empurram as pessoas para os braços do Taleban, disseram líderes locais no sul.

"O governo está perdendo a propaganda de guerra e precisa apresentar uma face mais forte para seu povo, disse Nathan, do International Crisis Group.

Um grande problema, todos reconhecem, é a ausência de segurança, para a qual o presidente e seu governo ainda dependem dos estrangeiros, liderados pelos Estados Unidos e agora pela Otan.

As forças afegãs e internacionais se vêem travando batalhas diárias por
todas as cinco províncias do sul, enquanto as baixas aumentam acentuadamente entre civis, soldados estrangeiros e forças do governo, igualmente. A escala da insurreição virtualmente eliminou a capacidade do governo de fornecer serviços em muitos lugares, um problema que pode levar a um aumento das queixas, alertaram muitos diplomatas.

A culpa pela falta de segurança não é toda de Karzai. A responsabilidade também é da coalizão liderada pelos Estados Unidos, que prometeu cuidar da segurança e da infiltração pela fronteira.

Mas a solução, alertaram tanto líderes civis quanto militares, não é apenas militar.

"O governo precisa se estabelecer em maior escala nestas províncias, para combater a corrupção, estar presente com as instituições em cada distrito e fornecer serviços para toda a população", disse Tom Konigs, o chefe da Missão de Assistência da ONU no Afeganistão, que atualmente monitora a ajuda para o desenvolvimento. Isto inclui a melhoria da governabilidade local, o desenvolvimento do trabalho, da diplomacia e esforços para combate aos narcóticos, ele disse.

"Em cada um destes campos nós precisamos ser bem-sucedidos", ele
acrescentou. "Caso contrário, nós não seremos capazes de estabilizar o
Afeganistão." George El Khouri Andolfato

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