UOL Notícias Internacional
 

23/08/2006

EUA temem papel humanitário do Hizbollah no sul do Líbano

The New York Times
Robert F. Worth e Hassan M. Fattah

em Khiam, no Líbano
Quando a Mercy Corps e outras agências ocidentais de auxílio humanitário chegaram recentemente a este vilarejo devastado na linha de frente da batalha entre Israel e o Hizbollah, trazendo alimentos e remédios, elas rapidamente descobriram que tinham um grande problema pela frente: os Estados Unidos.

Assim como todas as outras agências internacionais de auxílio humanitário que recebem verbas do governo norte-americano, a Mercy Corps está proibida de fornecer dinheiro ou ajuda por meio do Hizbollah, o grupo militante xiita que é considerado uma organização terrorista pelos Estados Unidos. Mas, assim como todas as áreas mais destruídas no sul do Líbano, nas quais vilarejos inteiros foram arrasados pelas bombas israelenses, e onde não há alimentos, água ou eletricidade, esta cidade é um domínio do Hizbollah - e pouca coisa pode ser feita sem a interferência do grupo.

Esse é um fato perturbador para os Estados Unidos, não só porque o país não deseja que o Hizbollah fique ainda mais fortalecido após a sua resistência a Israel, mas também porque o governo norte-americano está ansioso para encontrar e apoiar uma alternativa viável ao grupo militante na região.

E isso não será fácil. O Hizbollah tem sido a mais rápida e, sem dúvida, a mais efetiva organização a fornecer ajuda às destroçadas cidades e vilas do sul do Líbano. Grupos de auxílio como a Mercy Corps - que geralmente atuam através de intermediários locais - precisam freqüentemente se esforçar para encontrar outras formas de prestar auxílio e, mesmo assim, não sabem ao certo se a sua ajuda não está sendo fornecida por meio do Hizbollah.

"É possível distinguir o que fazemos daquilo que o Hizbollah faz", afirma o vice-prefeito de Khiam, Muhammed Abdullah, 45, que está organizando as iniciativas locais, incluindo doações de alimentos e água da Mercy. "Mas é claro que existe coordenação".

Na mesa de trabalho de Abdullah há um pesa-papéis com o logotipo da Jihad da Construção, a companhia de construção do Hizbollah, e na sua ante-sala podem ser vistos na parede dois pôsteres do xeque Hassan Nasrallah, o líder do Hizbollah.

Alguns moradores daqui dizem que o envolvimento do Hizbollah é ainda menos sutil.

"A Unicef esteve aqui, assim como a Mercy Corps e outros grupos", diz Ahmad Zogby, 39, cuja casa foi destruída, assim como a dos seus pais. "Mas o Hizbollah controla tudo o que chega, garantindo que o auxílio seja fornecido da maneira apropriada. Tudo passa pelas mãos do Hizbollah".

Embora o Hizbollah seja apenas um dentre vários grupos de serviços sociais no Líbano, a sua reputação de fornecer serviços honestamente é inigualável, fazendo com que seja muito difícil contornar a influência do grupo.

Na cidade vizinha de Nabatiye, por exemplo, a Mercy Corps começou a trabalhar por meio da Fundação Jabbar, um grupo sem fins lucrativos administrado por Yaseen Jabbar, um membro rico do parlamento.

Mas o prefeito de Nabatiye, Mustapha Badreddine, 55, diz que considera a fundação ineficiente. Badreddine garante não pertencer ao Hizbollah, mas diz que trabalha em conjunto com o grupo porque este é confiável. Pelo menos bem mais confiável do que qualquer outro que atua na área.

"Não dá para dizer se determinada quantia ou auxílio está indo ou não para o Hizbollah", diz ele. "É uma questão de contato humano normal".

David Holdridge, o coordenador de emergências da Mercy Corps no Líbano, diz acreditar que a Jabbar Foundation tem feito um trabalho excelente, e observou que a organização não recebeu dinheiro da Unicef, do Departamento de Estado dos Estados Unidos ou de outros grupos.

Holdridge disse também que o poder do Hizbollah nas comunidades libanesas deixa os grupos externos de ajuda humanitária em uma situação difícil.
Segundo ele, o governo dos Estados Unidos ainda não deixou claras as regras sobre o fornecimento de auxílio e de dinheiro no Líbano, embora seja esperada para breve a divulgação de mais diretrizes. Por ora, os grupos de auxílio são obrigados a fazer escolhas difíceis sobre como e com quem trabalharem aqui.

"Nós claramente não podemos ter e não teremos qualquer contato com a ala militar do Hizbollah, ou com o seu departamento de serviços sociais", afirma Holdridge. "Mas será que podemos trabalhar em conjunto com pessoas eleitas sob a bandeira política do Hizbollah? Essa é uma área indefinida".

Outros grupos internacionais sem fins lucrativos que recebem dinheiro do governo dos Estados Unidos se encontram em uma situação similar.

"Creio que existem aqui organizações e necessidades suficientes para que isto não se constitua em um problema", opina Jeffrey Goodman, assessor médico da International Medical Corps, organização que recebe alguma verba da Agência dos Estados Unidos para Desenvolvimento Internacional (USAID). "Mas não há dúvida de que se trata de uma situação confusa".

Grupos de auxílio humanitário já se depararam com questões similares anteriormente - mais notavelmente na Faixa de Gaza, onde eles ainda estão aguardando uma definição completa do significado do termo "nenhum contato" com organizações terroristas, diz Holdridge. A questão também se fez presente em Darfur, onde o governo sudanês é acusado de ajudar a realizar um massacre maciço e a expulsar populações civis de suas moradias.

Como um exemplo da forma como o Hizbollah influi no cotidiano no sul do Líbano, Ali Bazzi, o prefeito de Bint Jbeil, descreveu os seus grandes sonhos para a sua cidade semi-arrasada, enquanto trabalhadores e tratores se concentravam na reconstrução do lugar.

"Nós transformaremos esta cidade em uma cidade-modelo", afirmou Bazzi, trazendo na mão um característico transceptor do Hizbollah. "Teremos ruas com traçado regular, parques em cada bairro e quarteirões com prédios de apartamentos".

Bint Jbeil, o principal reduto do Hizbollah no sul do Líbano, foi alvo de alguns dos piores bombardeios e combates durante a guerra que durou um mês. Mas Bazzi pretende concluir a reconstrução sem usar um só centavo do governo libanês, e muito menos dos Estados Unidos ou do Ocidente.

Em vez disso, Bazzi está contando com a Jihad da Construção, uma organização financiada pelo Hizbollah que se transformou na arma secreta do grupo para conquistar os corações e mentes libaneses.

Apenas um dia após o término dos combates, a Jihad da Construção obteve o compromisso de prestação de serviços voluntários de 1.700 engenheiros, eletricistas, encanadores, arquitetos e geólogos, que limparam as ruas, cavaram valas e construíram pontes temporárias.

Enquanto o governo de Fouad Siniora apenas começou a organizar comitês de estudo para a reconstrução do país, a Jihad da Construção praticamente já concluiu a análise de danos em todas as cidades do sul do Líbano.

"Fomos vitoriosos contra Israel", afirmou Bazzi. "Agora temos que aproveitar a oportunidade que se segue".

Equipes de voluntários usando bonés da Jihad da Construção se movimentaram por Bint Jbeil e outras cidades do sul do Líbano. Na última segunda-feira, a organização começou a fazer uma lista de famílias que receberão uma ajuda de US$ 10 mil a US$ 15 mil para o pagamento de aluguéis e a compra de móveis até que as suas novas casas sejam construídas, além de ter dado início a um programa de ajuda aos pequenos empresários, para que estes reabram os seus negócios. Os integrantes do grupo trabalharam no sentido de restaurar o fornecimento de energia elétrica e de água em várias cidades.

"Para nós este trabalho é algo tão importante quanto as orações e o jejum", explica Fouad Noureldine, diretor de projetos da Jihad da Construção no sul do Líbano. Alguns dos voluntários da organização em Bint Jbeil alegaram que a Jihad da Construção conta com bilhões de dólares para a reconstrução, mas Noureldine não quis citar uma cifra específica. Ele disse que grande parte do dinheiro da organização veio de doadores libaneses ricos na África, na América Latina e nos Estados Unidos, embora se acredite que o Irã tenha contribuído com um montante significativo.

"Não esperaremos até que o governo faça algo aqui; nós mesmos faremos tudo enquanto eles ainda estão conversando", afirma Noureldine. "Na verdade, estamos satisfeitos com o fato de o governo estar atrasado quanto a tudo. Eles estão tentando dividir a resistência e o povo. Quanto mais eles demorarem a fornecer quaisquer serviços, mais fracassarão".

Noureldine também desprezou a promessa de governo Bush de fornecer US$ 230 milhões em auxílio para a reconstrução.

"Não aceitaríamos nada dos Estados Unidos, nem que eles nos oferecessem todo o dinheiro do mundo", garantiu Noureldine. "Eles não serão capazes de comprar os nossos corações. Atualmente estamos recebendo bilhões através dos canais tradicionais. Não precisamos do dinheiro norte-americano". Danilo Fonseca

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