UOL Notícias Internacional
 

23/08/2006

Um lar de Nova Orleans renasce, com coragem e persistência

The New York Times
John Schwartz
Não há mais mau cheiro no nº 7023 da Fleur de Lis Drive.

Há muitos cheiros ruins nas casas arruinadas próximas -aquelas que ainda exibem marcas do nível elevado das águas e marcações laranjas fluorescentes nas portas que indicam que cadáveres foram encontrados em seu interior.

Mas no nº 7023, o gramado está verde e bem aparado e as floreiras estão cheias de violetas, maria-sem-vergonhas e cravos. Não há lama no interior ou fora, nem uma marca de água e a porta da frente está impecavelmente branca.

É como se a casa de alguma forma não tivesse sido tocada pelas águas que, há um ano, jorraram com fúria por uma brecha há apenas três quarteirões de distância no Canal da Rua 17 e inundaram o rico bairro de Lakewood. Mas, na verdade, esta casa não escapou, nem 134 mil outras em Nova Orleans.

Quando as águas da inundação baixaram, o jardim era uma paisagem bizarra de lama e escombros; os arbustos da frente ficaram cinzentos devido à água salgada. Noventa centímetros de altura de sujeira enchiam seu interior e a marca da altura das águas estava a 10 centímetros do teto do primeiro andar.

Lee Celano/The New York Times 
A casa de Artie Folse, em Nova Orleans, logo após a passagem do furacão Katrina...

Em uma cidade que ainda parece em grande parte atolada em lama, esta casa quase reformada representa 11 meses de trabalho duro de seus proprietários, Artie Folse e Tonja Osborne, dois de uma multidão de moradores de Nova Orleans que nunca desistiram.

Desde as primeiras semanas após a tempestade, Folse e Osborne desafiaram a opinião geral de que pouco podia ser feito na cidade, superando as dúvidas e preocupações mesmo de sua própria família. Seus esforços, observados desde o inverno passado por um repórter do "New York Times", nasceram de uma necessidade de reconstruir que era tão primária como a força que faz a grama crescer por entre as frestas de uma calçada. Em vez de esperar por orientação, direção ou ajuda da cidade, do Estado ou do governo federal, Folse e Osborne simplesmente começaram a trabalhar.

"Se você esperar por alguém lhe dizer o que fazer, nunca acontecerá", disse Folse.

O futuro de Nova Orleans, seja qual vier a ser, será baseado no esforço
teimoso de pessoas como Artie Folse e Tonja Osborne, que podem ser
encontrados em todos os bairros desta cidade. Há muitos, é claro, que
carecem de recursos ou perícia, que sofreram perdas humanas devastadoras ou que sucumbiram ao desespero.

Mas cerca de 30 mil casas estão no momento sendo reparadas ou reconstruídas por toda a cidade, segundo planejadores e autoridades municipais, e o trabalho terá início em outras dezenas de milhares neste semestre, quando os recursos federais começarem a chegar. Aqueles que tentam reconstruir o fazem sem nenhuma garantia de sucesso, com encorajamento mínimo do governo e com uma fé de que seus esforços coletivos podem de fato mudar tal futuro.

Ainda há muito o que fazer no 7023 da Fleur de Lis. Mas Folse e Osborne por enquanto estão na rota dos ônibus de turismo que mostram as ruínas de uma querida cidade americana, que param brevemente diante da casa deles. Os motoristas querem mostrar aos curiosos a casa que parece brilhar.

Lee Celano/The New York Times 
... e agora, em foto registrada no último dia 18, depois de muito trabalho e dedicação

De certa forma, Folse e Osborne tiveram sorte -ou, mais precisamente, eles fizeram sua sorte. Folse, 54 anos, e Osborne, 39, tinham seguro contra enchente, que no final lhes pagou US$ 120 mil. Isto foi suficiente para reconstruir e até mesmo melhorar o imóvel -um sobrado de tijolos comprado em uma execução de hipoteca em 1989 por US$ 130 mil- desde que fossem frugais e realizassem as obras eles mesmos.

Eles também são donos de seu próprio negócio, uma pequena empresa de
caminhões chamada Custom Logistics, que lhes gera US$ 50 mil por ano e
permite horário flexível. E puderam permanecer na casa dos avós falecidos de Osborne, do outro lado do Rio Mississippi, no bairro de Algiers, durante os primeiros estágios da reconstrução.

Mais importante, Folse é tanto hábil quanto incansável. Um dos motoristas, Tony Delvalle, o chama de "um exército de um homem só".

Ele e Osborne não são casados, mas têm uma filha, Taylor Rose, que tem 2 anos. A filha de 12 anos de Osborne, Amber, também mora com eles e Folse compartilha a custódia de seu filho de 16 anos, Andrew, com sua ex-esposa.

Eles fugiram para Houston durante a tempestade e viram a casa novamente, pela primeira vez, em um dia desolador no início de outubro. Osborne lembrou de ter pensado: "Nunca mais moraremos nesta casa de novo".

Amber acrescentou: "Estava um lixo".

Mas em meados de outubro, Folse estava empregando seu tempo limpando o
interior da casa -a princípio, simplesmente porque ouviu rumores de que as casas deixadas intocadas seriam confiscadas pela prefeitura ou estariam sujeitas a multas pesadas. Osborne disse: "Foi algo como, 'vamos fazer algo'".

Remover com pás a lama e os pertences foi um trabalho de partir o coração, disse Folse, acrescentando que ele se sentiu quase sozinho no mundo. Fora alguns poucos operários trabalhando em alguns condomínios próximos, tudo no bairro estava estagnado. Antes da tempestade ele podia ver corvos, gaios, pardais, cardeais e tordos; mas por algum tempo após o furacão, "havia apenas corvos grandes", ele disse. Cães e gatos de rua perambulavam ocasionalmente, com aparência faminta e doente.

Folse iniciava cada dia vindo de carro de Algiers por volta das 6 da manhã, com uma geladeira de isopor cheia de bebidas e um sanduíche de carne, e voltava antes do toque de recolher noturno de Lakeview. Não havia fornecimento de eletricidade ou gás, mas a água da torneira estava boa e ele ligou um gerador para acender a luz e alimentar as ferramentas elétricas. Seu pai de 80 anos, Fred Folse, freqüentemente se juntava a ele no trabalho.

Em novembro, Artie e Andrew passaram sua primeira noite na casa, um
acampamento desolado em um quarto no andar de cima. A escuridão total era rompida mais ou menos a cada 15 minutos, pelas luzes azuis que iluminavam o teto quando carros de patrulha passavam, e o silêncio era total.

"Não havia sapos, não havia grilos", disse Folse. "Não havia nada."

Mas à medida que a casa começou a emergir do estrago, reduzida às
estruturas, à medida que o cheiro de decomposição era superado com água
sanitária e desinfetante, lembrou Artie Folsie, um pensamento o surpreendeu: "Isto até que não está mal".

Se a cidade não os impedisse, ele e Osborne decidiram, eles reconstruiriam.

Em um belo dia em meados de dezembro, Folse mostrou a um visitante a
estrutura esvaziada e falou sobre o futuro em pé sobre a terra do jardim da frente. "Lakeview vai voltar", ele disse.

Folse previu que teria eletricidade e gás em três semanas, uma declaração altamente otimista não condizente com a realidade.

Várias semanas depois, no final de janeiro, o gás e a eletricidade ainda não tinham sido ligados. Mas havia algo surpreendente no jardim da frente de Folse: grama. Ele semeou um pouco de azevém para ver a sopa tóxica de solventes, tinta e gasolina no qual o bairro ficou imerso por mais de duas semanas deixou o solo capaz de suportar o plantio, e ficou surpreso ao descobrir que sim. Ele plantou alguns poucos arbustos pequenos e acrescentou flores, a princípio de plástico.

"Nós estamos tentando influenciar as pessoas a fazer algo", ele disse na época. "Cara, eu gostaria que fosse um encanador em vez de um repórter de jornal!" ele exclamou.

Sem a inspeção de um encanador e obra de reparo, a cidade não ligaria o gás, e assim era impossível terminar as paredes e o piso. Registros e bocas tinham que esperar pelas paredes.

Mas a demanda por encanadores era alta e a oferta escassa; Folse e Osborne estavam aguardando pelo terceiro que tentaram contratar. Sempre que Folse era impedido em um projeto, ele assumia outro: ele instalou 27 novas janelas e 16 portas, usando batentes feitos de madeira lixada e pintada por Osborne. Havia novo piso de madeira para instalar, armários para pendurar e móveis para montar.

"Em mais quatro semanas, nós estaremos em boas condições", ele disse, com seu otimismo reduzindo todos os obstáculos.

Um novo trailer da Agência Federal para Gestão de Emergências estava
estacionado atrás da casa -cômodos apertados, mas habitáveis. O gerador
funcionava ali perto. A família se mudou para o trailer para eliminar o vai e vem de Folse e permitir a Amber voltar à sua nova escola, que reabriu do outro lado do canal, na menos atingida Paróquia de Jefferson.

Poucos dias antes, disse Folse, ele finalmente deixou de lado a reconstrução por alguns minutos para caminhar até o local onde o dique rompeu seis meses antes. "Eu disse: 'Caramba! Foi bem aqui!'"

O bairro ao redor parecia deprimentemente igual, mas para Folse a mudança estava por toda parte -mesmo no tímido retorno da vida selvagem. "Outro dia nós vimos um sapo e eu vi uma minhoca", ele disse.

Durante uma visita em meados de maio, o ar-condicionado estava ligado a toda força, não apenas para aliviar o calor da primavera mas para extrair a umidade do ar e impedir o retorno do mofo.

Mas aquele era apenas parte de seu prazer. "Escute isto!" disse
Folse -saltando e abrindo a nova porta da frente. Ele deu um leve toque com o dedo e ela fechou suavemente, com um suave clique. Ele não mais precisava empurrar com o ombro a porta empenada pela água, ou fechá-la com cadeado à noite.

Então ele realizou outro milagre: ele abriu o novo refrigerador e tirou uma Diet Coke gelada.

Ainda restava muito a fazer, mas Folse disse na época que estava começando a ver sinais de esperança na confusão ao seu redor. As casas do outro lado da rua foram vendidas e as obras estavam começando. "Está começando a voltar", ele disse. "Se pudermos passar ilesos por esta temporada de furacões, meu caro, este lugar vai prosperar."

E se levantou novamente para abrir e fechar a porta. "Isto é o que eu gosto de fazer", ele disse.

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Apesar de todo o progresso, para ele todo canto de sua casa é uma lista de afazeres. Basta parabenizá-lo pela qualidade do trabalho no banheiro das crianças no andar de cima, com seu padrão de cores rosa e amarelo, para ele dizer: "Eu ainda preciso fazer o acabamento da janela, ainda preciso fazer a soleira, ainda preciso fazer a porta do armário e ainda preciso fazer a base do armário".

Em maio, em meio a todo o trabalho, a eleição para a prefeitura pareceu
passar por alto, com Folse se dizendo "chocado" em ver os eleitores
reelegerem C. Ray Nagin, que ele considera ineficaz. Mas, ele acrescentou, "não me importa quem seja o prefeito". Na verdade, ele acrescentou, "eu odeio dizer, mas quase não importa quem seja o presidente".

E apesar de haver ainda mais progresso no bairro, com duas casas
deprimentemente arruinadas do outro lado da rua demolidas e removidas, ainda há muitos estragos.

"Quando mantenho minha atenção estreita, eu me sinto bem", disse Folse
recentemente. "Quando você a amplia e não vê nada acontecendo ali, nada
acontecendo acolá, o mato com 1 metro de altura a três casas daqui e você tendo dificuldade para receber sua correspondência e ter seu lixo recolhido até acharem que vale a pena se darem ao trabalho", e ele fez uma pausa. "É deprimente."

E ele teve algum momento de dúvida profunda, quando achou que a cidade não conseguiria retornar e todo seu esforço foi desperdiçado?

"Não realmente", ele disse. "Não faz parte da minha personalidade."

"Sempre que assumo um projeto", ele disse, "eu assumo a mentalidade de
cortar grama -um pé diante do outro, um passo de cada vez. Apenas sigo em frente".

Seus pais, Fred e Rose Folse, não tinham tanta certeza. Eles temiam que a prefeitura pudesse decidir transformar o bairro do filho em um parque ou área de retenção de enchentes, e um dia em março Fred perguntou ao seu filho: "O que você vai fazer se a prefeitura vier e lhe disser que precisa sair?"

Folse respondeu: "Quem é que virá me tirar?"

Artie Folse mantém os problemas do ano passado em perspectiva. No ano
anterior, Taylor nasceu com um sério defeito de nascença, a onfalocele
(hérnia umbilical congênita). Ela passou quatro meses de seu primeiro ano de vida entrando e saindo do hospital devido a cirurgia, complicações e recuperação, e quase a perderam.

Após uma segunda hospitalização prolongada, o médico dela disse: "Ela nunca vai poder jogar futebol, mas ficará bem". Em 20 de agosto de 2005, a família comemorou o primeiro aniversário de Taylor em casa.

Nove dias depois, veio o furacão Katrina.

Poucas semanas atrás, Taylor andava alegremente ao redor do 7023 da Fleur de Lis e levantou sua camisa para mostrar as cicatrizes em sua barriga. "Bo-bo", ela disse.

Folse disse: "Nós faremos a segunda festa de aniversário dela aqui".

Ele estava sorrindo, mas estava um pouco agitado. Ele passou muito tempo sentado.

Algo, em algum lugar, precisava ser pregado. George El Khouri Andolfato

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