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24/08/2006

Pesquisas com células-tronco esbarram em obstáculos políticos

The New York Times
Nicholas Wade*
Os biólogos desenvolveram uma técnica para a criação de colônias de células-tronco humanas embrionárias a partir de um embrião humano sem destruí-lo. O método, caso seja confirmado em outros laboratórios, parece à primeira vista acabar com a principal objeção à pesquisa.

Os cientistas dizem que o novo método, que está sendo anunciado por pesquisadores da Advanced Cell Technology nesta quinta-feira (24/08) no site da revista "Science", poderia fornecer um motivo para a redução das restrições ao financiamento federal das pesquisas com células-tronco humanas embrionárias.

Mas os críticos de tais pesquisas fizeram outras objeções, incluindo o possível risco ao embrião e o procedimento de fertilização in vitro em si, no qual embriões são gerados a partir de um óvulo e um espermatozóide.

A nova técnica seria aplicada a um embrião de dois anos de idade, depois que os óvulos fertilizados tivessem se dividido em oito células, conhecidas como blastômeros. Nas clínicas de fertilidade, nas quais o embrião fica disponível fora do corpo da mulher durante o processo normal de fertilização in vitro, um desses blastômeros pode ser removido para exames no sentido verificar se estão presentes certas anomalias, como a síndrome de Down.

O embrião, agora com sete células, pode ser implantado na mulher, caso não seja encontrado nenhum defeito. Vários embriões desse tipo se transformaram em bebês aparentemente saudáveis durante o período de dez anos em que esses exames têm sido feitos.

Até o momento, as células-tronco humanas embrionárias eram coletadas em um estágio posterior de desenvolvimento, quando o embrião consiste de cerca de 150 células.

Tanto este estágio, denominado blastócito, quanto o estágio de oito células, ocorrem antes da implantação do embrião na parede do útero. A coleta de células no estágio do blastócito causa a morte do embrião, o que é um dos principais motivos de objeção por parte daqueles que se opõem a esse tipo de pesquisa.

"Não existe nenhuma razão racional para que alguém se oponha a esta pesquisa", afirma o médico Robert Lanza, vice-presidente da Advanced Cell Technology, cuja sede fica em Worcester, Massachusetts, e líder da equipe de pesquisas.

O desenvolvimento científico poderia intensificar o debate político sobre as células-tronco, e aumentar a importância dessa questão para as eleições parlamentares deste ano. Alguns candidatos já estão fazendo dessa pesquisa um tema central.

As células-tronco humanas embrionárias, que dão origem a todas as células e tecidos do corpo, causaram empolgação em meio aos cientistas e grupos de defensores dos direitos dos pacientes, por serem uma fonte potencial para novos tratamentos de doenças como Alzheimer, Parkinson e diabetes.

Alguns cientistas especularam que o presidente Bush poderia aprovar o novo método, já que evitaria a principal objeção do presidente à pesquisa e demonstraria que ele esteve certo o tempo todo ao aguardar pelo surgimento de uma técnica melhor.

Mas Emily Lawrimore, porta-voz da Casa Branca, sugeriu que a nova técnica não anularia as objeções de Bush, que em julho passado vetou um projeto de lei para a expansão das pesquisas com células-tronco embrionárias financiadas com verbas públicas federais. Embora Lawrimore tenha dito que é encorajador o fato de os cientistas estarem se distanciando da destruição de embriões, ela afirmou: "Qualquer utilização de embriões humanos para objetivos de pesquisa gera sérias questões de ordem ética. Essa técnica não resolve tais preocupações".

No ano passado, Lanza anunciou que culturas de células-tronco embrionárias poderiam ser obtidas a partir de blastômeros de ratos, uma descoberta confirmada por outros cientistas. Atualmente ele diz que o mesmo pode ser feito com blastômeros humanos, e que as colônias de células se comportam da mesma forma que aquelas derivadas dos blastócitos.

Embora tenha usado embriões humanos descartados, Lanza disse que qualquer pesquisador que deseje obter células-tronco humanas embrionárias sem destruir um embrião poderia usar um blastômero removido para o exame conhecido como diagnóstico genético pré-implante, ou PGD, na sigla em inglês.

"Ao cultivar de um dia para o outro a célula obtida para biópsia, as células resultantes poderiam ser usadas tanto para o PGD quanto para a criação de células-tronco sem que isso afetasse as probabilidades de geração de uma criança", afirma Lanza.

Ronald M. Green, especialista em ética da Faculdade Dartmouth e assessor da Advanced Cell Technology, diz esperar que o novo método "proporcione uma forma de acabar com o impasse quanto ao financiamento federal dessa pesquisa".

Green afirma acreditar que o método deveria ser visto como compatível com a emenda Dickey-Wicker, a medida do Congresso que proíbe o uso de verbas federais para qualquer pesquisa na qual um embrião humano seja destruído ou exposto a um risco desnecessário.

O médico James Battey, diretor da força-tarefa de células-tronco do Instituto Nacional de Saúde, diz que não está claro se o novo método seria compatível com a restrição congressual, já que a remoção de um blastômero submete o embrião a um certo risco. Mas os embriões que foram submetidos ao exame genético pareceram tão saudáveis quanto os outros bebês gerados a partir da fertilização in vitro.

Bush permitiu o financiamento federal com células-tronco humanas embrionárias, contanto que estas tivessem sido criadas antes de 9 de agosto de 2001. Embora tal medida possa dar a impressão de inviabilizar a criação de qualquer nova linhagem de células derivadas de blastômeros, Battey afirma que isso não está claro, já que o embrião não seria destruído, e diz que procurará orientação quanto a esse ponto.

A política federal não afeta as pesquisas com células-tronco financiadas pela iniciativa privada, como aquelas feitas pela Advanced Cell.

Os críticos fazem uma série de objeções à criação de linhagens de células-tronco humanas embrionárias com o novo método. Os bispos católicos, em particular, se opõem tanto à fertilização in vitro quanto ao diagnóstico genético pré-implante, e, portanto, ainda fazem objeções à pesquisa, mesmo que as células sejam criadas a partir de um embrião que não será destruído.

Richard Doerflinger, vice-diretor da Pro-Life Activities da Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos, diz que a igreja se opõe à fertilização in vitro devido ao alto índice de morte de embriões nas clínicas, e porque a separação entre a procriação do ato de amor faz com que o embrião se pareça "mais com um produto do que com uma dádiva".

Ao lhe perguntarem se ele quer dizer que os pais de uma criança concebida por meio da fertilização in vitro a amariam menos, Doerflinger disse que estava se referindo à equipe clínica. "O técnico não ama essa criança, não possui nenhuma conexão pessoal com a criança, e, com cada procedimento de fertilização in vitro, ele pode se acostumar cada vez mais à idéia de que a criança é um mero produto", afirmou Doerflinger.

O médico Leon Kass, ex-diretor do Conselho do Presidente sobre Bioética,
disse: "Não creio que essa seja a abordagem procurada, moralmente sem problemas e praticamente útil da qual precisamos". Kass afirmou que o risco no longo prazo do diagnóstico genético de pré-implante é desconhecido, e que a técnica atual é ineficiente, exigindo blastômeros de vários embriões para a geração de cada nova linhagem de célula. Segundo ele, seria melhor obter linhagens de células-tronco a partir das células maduras do corpo, um método no qual os pesquisadores ainda estão trabalhando.

O médico Andrew La Barbera, diretor-científico da Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva, disse que mais de 2,000 bebês nasceram nos Estados Unidos após um diagnóstico de genética de pré-implante. Até o momento não existe nenhuma indicação de que eles corram qualquer risco maior do que os outros bebês gerados a partir da fertilização in vitro. Mas ele frisa que a sociedade necessita de mais dados para que tenha certeza disso.

Os cientistas gostaram do novo processo, mas também manifestaram preocupações. O médico Irving Weissman, especialista em células-tronco da Universidade Stanford, disse que o novo método, caso restrito a blastômeros obtidos a partir dos testes genéticos de pré-implante, não forneceria um tipo de célula altamente desejável, aquelas células derivadas de pacientes que sofrem de uma doença específica.

Muitos cientistas passaram a ver esse uso das células para a exploração dos mecanismos básicos da doença como mais capaz de proporcionar novas terapias do que o uso direto das próprias células. Weissman disse que o novo avanço poderia ser uma "armadilha congressual" caso o Congresso permitisse que novas linhagens fossem criadas somente durante o procedimento de diagnóstico de genética de pré-implante. Segundo ele, esse procedimento só permite a detecção de algumas doenças, e não do mal de Alzheimer, do diabetes e de outras doenças degenerativas para as quais são necessária melhores terapias.

Os parlamentares republicanos que lideraram a resistência ao projeto de lei de células-tronco embrionárias, que conta com apoio bipartidário na Câmara e no Senado, também disseram que a nova técnica não reduz a sua oposição.

Brian Hart, um porta-voz do senador Sam Brownback, republicano do Kansas, e um famoso inimigo do financiamento federal das pesquisas com células-tronco embrionárias, disse que a objeção moral de Brownback permanece de pé.

"Eles estão criando um gêmeo, e a seguir matando o gêmeo", criticou Hart.

No entanto, Lanza diz que a geminação é um fenômeno que ocorre em um estágio mais avançado do desenvolvimento embrionário, e que não há evidências de que um único blastômero possa se transformar em uma pessoa.

O deputado Dave Weldon, republicano da Flórida, e um médico que também se opõe à expansão do financiamento federal, disse em uma declaração: "Existem alternativas mais seguras e promissoras à atual pesquisa com células-tronco embrionárias do que a abordagem de Lanza".

Mas os democratas e outros que fizeram pressões pelo aumento das pesquisas usando embriões que acabariam sendo destruídos ampliaram as suas críticas ao presidente e os seus aliados no Congresso por impedirem o progresso da ciência.

"É trágico que ao atual Congresso republicano continue a apoiar as restrições que negam financiamentos federais aos cientistas engajados em pesquisas médicas que poderiam salvar ou melhorar a qualidade de incontáveis vidas", afirmou o senador Edward M. Kennedy, democrata de Massachusetts.

Analistas políticos disseram que as novas descobertas podem fazer com que as pesquisas com células-tronco embrionárias se transformem em um assunto de campanha, ao manter este tópico na mídia, e ao fazer com que seja mais difícil que os oponentes expliquem a sua posição. "Isso deixa a comunidade pró-vida encurralada", afirma Stuart Rothenberg, um analista não partidário das eleições parlamentares. "Como regra, não se deve fazer oposição aos avanços científicos".

*Gardiner Harris e Carl Hulse contribuíram para este artigo. Danilo Fonseca

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