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25/08/2006

É quente. Está na moda. É Tijuana

The New York Times
William L. Hamilton
Quando você atravessa a fronteira dos EUA para o México, e as portas rotatórias de aço se fecham atrás de você, eles estão lá -os farmacêuticos, de jaleco branco, oferecendo remédios com descontos nas ruas, como se fossem sorvetes, não caixas de remédios, e os táxis bandalha aproveitando-se da sua confusão de pedestre. A avenida Revolucion alonga-se a sua a frente como uma versão psicodélica da Main Street da Disneylândia, com bares de margarita, festas ao ar livre e montanhas de adolescentes de San Diego apreciando um dia de liberdade apesar de terem menos de 21 anos.

Tudo o que você esperava ver, você vê, e acha que conhece Tijuana.

Mas a poucos quarteirões da Revolucion fica o Centro Cultural Tijuana, um complexo de artes monumental, com um planetário, um jardim de esculturas pré-colombianas, plantas nativas e uma nova galeria e espaço de apresentações em construção. Descendo a rua Sanchez Taboada encontra-se o La Querencia, restaurante de cinco meses que é a ponta do iceberg do novo movimento culinário de Tijuana Baja, que agora inclui mais de 20 chefes e uma nova academia de cozinha.

E a cidade continua surpreendendo: o Empório, um hotel butique, tem suficientes sofás Corbusier, madeira clara e velas em pedestais no lobby para satisfazer qualquer estrangeiro de South Beach; Tabule, um bar com um pulsante salão de jantar e um bar de mármore lotado; e boates tecno e bares de arte e cabarés de realismo mágico e cinemas abandonados art-deco.

"As pessoas acham que não temos nada", disse Miguel Angel Guerrero Yagues, chefe de cozinha e proprietário do La Querencia. Esportista, ele serve pratos como tacos de porco selvagem e ceviche de vieiras, um estilo que chama de Baja Méd, ou mexicano-mediterrâneo e combinações que pareçam emblemáticas da nova experimentação urbana de Tijuana. Ele abriu uma pizzaria há poucas semanas, que oferece ingredientes locais como arraia.

"Temos tudo", diz ele, no salão do La Querencia, um espaço amplo com estilo e piso de concreto, mesas de aço laqueado e duas cozinhas abertas. Os clientes vestem-se casualmente ao estilo californiano, com roupas de linho e sandálias de couro. Eles lotam o restaurante, com telefones celulares e copos de vinho, criando um burburinho feliz na hora do almoço. "Temos dois mares, o Pacífico e o Mar de Cortez", diz Guerrero Yagues. "A Califórnia só tem um."

Esta é a Tijuana que você não conhece. A maior parte dos mexicanos, que não dão muito crédito à Tijuana -chamando-a de provinciana, terra ruim da fronteira- também não.

No entanto, Tijuana é a cidade que mais cresce no país (em 1990, tinha 750.000 habitantes; em 2000, 1,2 milhão e deve chegar a 2,2 milhões até 2010). E está mudando. Cosmopolita por natureza, com sua proximidade com os EUA -60 milhões de pessoas cruzam a fronteira a cada ano- Tijuana está desenvolvendo uma nova identidade que a está tirando das sombras de sua própria reputação. Sua famosa ilegalidade tornou-se uma espécie de liberdade e licença para mobilidade social. Empreendimentos atraíram artistas e músicos, chefes e donos de restaurantes, profissionais do México e de outras origens. (O consulado americano admite que a segurança pública continua sendo uma preocupação por crimes e seqüestros relacionados a drogas, apesar de os americanos em geral não terem sido alvos. O consulado adverte aos viajantes que carreguem sempre alguma identificação com fotografia.)

Em várias viagens a Tijuana no mês passado, descobri uma cidade que estava excitada consigo mesma e com o caminho que estava tomando, finalmente orgulhosa pelas características que sempre fizeram dela Tijuana, como as taquerias e as lojas de tortas. Especialistas em tacos como Javier Campos Guttierez, da Tacos Salceados (conhecida como La Ermita, pelo endereço) estão se tornando astros.

Na noite em que lá comi, sentado no balcão com as pessoas empurrando minhas costas (inclusive Ana Laura Martinez Gardoqui, diretora da escola de culinária), o último prato que Campos Guttierez soltou foi um taco de camarão e morango, que era uma brincadeira com as palavras e com os sabores. "Fresa", morango em espanhol, é também uma gíria para "jovem, na moda e chique".

"Você pode ver o desenvolvimento cultural da cidade crescendo junto com a cidade. Então muitos artistas se mudaram para cá, para se apresentar ou cantar aqui", disse Adelaida del Real, que dirige o El Lugar del Nopal.

El Lugar del Nopal é um café, bar, restaurante e cabaré em uma pequena rua residencial do Centro, atrás de uma porta de madeira discreta que você poderia encontrar seguindo um gato. Estar dentro do Nopal é como entrar no sonho de alguém, ou em uma sala de estar com um palco no final. Nas paredes, há máscaras pintadas de várias regiões do México, ferozes e folclóricas, que Jose Pastor, sócio de Real, coleciona, e que deixam as salas do Nopal parecendo um passeio pelo mundo espiritual. Do lado de fora, um terraço coberto por árvores e vinhas deixa ver uma colônia de casitas onde ficavam os músicos de jazz que chegaram a Tijuana nos anos 60, quando estava no circuito.

Del Real e eu conversamos em uma mesa enquanto os clientes tomavam ar, bebiam, liam jornais alternativos, como o Tijuana Metro e Arte de Vivir, e absorviam o ambiente do Nopal de descanso sábio.

Jenny Donovan, autor que se mudou para Tijuana de San Diego há um ano, para explorar o boom das artes, é meu guia para este dia. Donovan é diretor do Multi Kulti, um palácio do cinema barroco agora usado esporadicamente como local de exibições e performances, com sua fachada quebrada, com figuras douradas apagadas e grandes desenhos, protegida por uma rede de plástico. O interior do cinema foi destruído por um incêndio e agora é surrealmente aberto, um anfiteatro acidental onde acontecem festivais de filmes de horror mexicanos, guerras de hip-hop e outros eventos.

Passamos pela Zona Rio para almoçar no Negai, um restaurante fusion de sushi, onde "fusion", como em toda parte na cidade, quer dizer que tem algo de mexicano na mistura. O chefe do restaurante, Angel Villegas, que é irmão de Goyito San, chefe executivo (esta família parece ter nascido na fusão), cobre o sashimi de atum com tamarindo e o hamachi com chili serrano.

O tema é a música de discoteca dos anos 70, e tem cortinas transparentes que separam o bar do restaurante, paredes de zebra e banquetas de couro bege, onde jovens e prósperos empresários mexicanos e suas acompanhantes conversam como se estivessem na beira da piscina. A mesma turma, com bolsas menores e mais brilho em suas camisetas, ou mais de botões abertos nas camisas, aparece mais tarde na noite no Tabule para tomar martinis especiais e apreciar o ambiente de solteiros no cio que tornou o distrito do "meatpacking" em Nova York famoso.

Em outro dia, Donovan me levou para a avenida Television, em um bairro residencial nas montanhas, para visitar o Bulbo, uma comunidade de 15 artistas. Eles trabalham em escritórios improvisados que incluem estúdios de televisão, rádio, gráfica e design de Internet. O Bulbo também publica livros e tem um selo fonográfico.

O fenômeno é novo em Tijuana, com uma energia multidisciplinar que dizem ser única no México neste momento. (As artes estão tendo seus 15 minutos de fama no Museu de Arte Contemporânea de San Diego, com a exibição "Strange New World", de 41 artistas de Tijuana, incluindo membros do Bulbo, em setembro.)

Conversamos na mesa grande na longa cozinha de teto baixo do Bulbo, onde os membros comem o almoço juntos.

"Tijuana é uma nova cidade, então você pode improvisar culturalmente", diz Sebastian Diaz Aguirre, com um rosto tenso que parece uma pintura espanhola. Diaz Aguirre gosta de ir ao Blanco y Negro, um salão de dança de trabalhadores com música ao vivo onde se pode dançar cumbia colombiana ou beber cerveja e assistir -até a cerveja surtir efeito e você dançar também.

O Blanco y Negro fica do outro lado da rua do El Dandy del Sur, bar de artistas onde os clientes não são gringos de San Diego visitando a favela, onde as paredes são decoradas com espelhos e retratos de artistas e onde há corações de papel crepom pendurados do teto. Nas melhores noites, os dois estabelecimentos compartilham os clientes, diz Donovan.

Ainda assim, Tijuana continua na fronteira. A linha na areia entre os EUA e o México, com suas portas de aço rotatórias que giram em uma única direção, está mais controversa, mais caótica e mais confusa do que nunca. Teddy Cruz, arquiteto e planejador urbano que trabalha com comunidades mexicanas na Califórnia e foi meu guia por um dia, acredita que Tijuana é uma oportunidade para se fazer "um turismo diferente".

Por que visitar Tijuana?

"Para estar no meio da discussão", diz Cruz. Ele me levou para as montanhas a leste da cidade, que estão rapidamente sendo cortadas e escavadas para a instalação de maquiladoras, ou plantas de montagem. As maquiladoras de Tijuana montam cerca de 50% dos televisores vendidos na América do Norte; os empregos estão atraindo trabalhadores do México central. As montanhas também estão sendo invadidas por moradias. "Mansões" de estuque, cópias em miniatura de San Diego e com nomes como Capistrano, estão sendo construídas para a classe média. E grandes lojas quadradas como Home Depot e Costco estão abrindo filiais no lado de Tijuana da fronteira.

"Tijuana está se tornando mais um destino do que um corredor para os EUA", diz Cruz.

Mas a fronteira é real e, como um reboque, poderosa em sua força. Michael Krichman, diretor executivo da inSite, organização artística de San Diego que promove projetos que abordam as questões culturais da fronteira, levou-me à praia de Tijuana. Ali, a cerca entre os dois países, de aço, com correntes e arames farpados, está a minha direita enquanto viajamos para o oceano. Ela cruza a areia antes de mergulhar no mar.

Thomas Glassford, artista da Cidade do México, e Jose Parral, paisagista de San Diego, criaram um pequeno parque ali para o inSite no ano passado. Há um ponto acima da praia em que se vê a cerca descendo para a água, o que dá ao visitante uma boa visão do oceano, e do debate. Você pode ver San Diego quando os olhos viajam para longe de Tijuana. Para as famílias passando o final de semana, respirando o ar puro, comendo manga com limão e chili, ou trançando os cabelos, há dois horizontes -o mar e os EUA.

Então, Krichman e sua mulher, Carmen Cuenca, diretora do Centro Cultura Tijuana, e eu fomos almoçar no Saveiros, restaurante italiano. Havia ostras grelhadas, pimentões recheados com bochecha de boi e cogumelos cobertos com huilacoche, o fungo de milho chamado de caviar mexicano. O governador do Estado da Baja Califórnia, Eugenio Elorduy Walther, e seu séqüito de algumas dezenas de pessoas estavam comendo em um salão privado, isolados por portas francesas cortinadas.

Enquanto Cuenca, Krichman e eu deixávamos o restaurante após o almoço, uma multidão de agentes de segurança com óculos escuros espelhados, como extras do filme "Traffic", o épico de Steve Soderbergh que foi o último em uma longa lista de filmes a se aproveitarem da má fama de Tijuana, abriram caminho para que nós passássemos.

"É isso que eu gosto de Tijuana", disse Cuenca enquanto caminhávamos para o carro, abrindo da SUV branca as portas automaticamente. "Todo mundo vai aos mesmos lugares." Deborah Weinberg

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