UOL Notícias Internacional
 

25/08/2006

Plutão é rebaixado à categoria de "planeta anão"

The New York Times
Dennis Overbye
Plutão recebeu a sua notificação formal de expulsão na quinta-feira (23/08).

Joguem fora as toalhas de mesa decoradas com gravuras dos planetas tradicionais. Corrijam os pôsteres nas salas de aula com uma caneta. Usem a tesoura para retirar Plutão dos móbiles do sistema solar.

Após anos de discussão e uma semana de debates acalorados, os astrônomos votaram a favor de uma ampla reclassificação do sistema solar. Naquilo que vários deles descreveram como um triunfo da ciência sobre os sentimentos, Plutão foi rebaixado ao status de "planeta anão".

O novo sistema solar é composto de oito planetas, pelo menos três planetas anões e dezenas de milhares dos chamados "corpos menores do sistema solar", como cometas e asteróides.

Por ora, o grupo de planetas anões inclui, além de Plutão, Ceres, o maior asteróide, e um objeto conhecido como UB313, apelidado de Xena, que é maior do que Plutão e, como este, tem uma órbita que fica além de Netuno, em uma zona de fragmentos de gelo conhecida como Cinturão de Kuiper. Mas existem outras dezenas de potenciais planetas anões conhecidos naquela zona, dizem os cientistas planetários, e o número de astros que compõem esta categoria pode aumentar rapidamente.

Em uma concessão aos fãs de Plutão, os astrônomos declararam que o astro se constitui no protótipo de uma nova categoria de objetos "trans-netunianos", mas por pouco não conseguiram aprovar, durante a votação, a denominação "plutonianos" para tais objetos.

"A nova definição faz todo sentido, segundo a ciência que conhecemos", explica Alan Boss, teórico planetário da Carnegie Institution, de Washington, acrescentando que essa definição não é muito drástica sob o ponto de vista cultural. "Temos um dever de satisfazer o mundo inteiro".

O resultado da eleição concluiu uma desnorteante reviravolta em relação à tendência que prevalecia na semana passada, quando os astrônomos reunidos receberam uma proposta para incluir 12 planetas, incluindo Plutão, Ceres, Xena e até mesmo a lua Charon. Boss afirma que a decisão tomada na quinta-feira é uma prova da integridade que permeou o processo de definição do que vem a ser um planeta. "Os participantes se mostraram dispostos a modificar a sua própria resolução e a encontrar algo que pudesse passar pelos mais rigorosos escrutínios científicos e ser aprovado", afirma Boss.

Jay Pasachoff, um astrônomo do Williams College que defendeu a manutenção do status de Plutão como planeta, afirma: "O espírito que norteou a reunião foi voltado para as futuras descobertas e atividades científicas, e não para o respeito ao passado".

Mike Brown, do Instituto de Tecnologia da Califórnia, que, como descobridor de Xena, era o que mais tinha a perder pessoalmente com o rebaixamento de Plutão e do astro que descobriu, diz estar aliviado. "Apesar de todo esse procedimento maluco, que lembrou um circo, de alguma maneira chegamos à solução correta", afirma Brown. "Há muito tempo que uma decisão dessas precisava ser tomada. A ciência sempre acaba se autocorrigindo, mesmo quando existem emoções fortes envolvidas".

Não é de hoje que Plutão, descoberto em 1930, se diferenciava dos planetas anteriormente descobertos. Plutão não é apenas muito menor do que eles - com apenas cerca de 2.500 quilômetros de diâmetro, menor portanto que a Lua -, mas a sua órbita alongada é inclinada com relação às dos outros planetas, e se superpõe à órbita de Netuno durante parte da sua jornada de 248 anos em torno do Sol.

Muita gente argumentava que Plutão se encaixaria melhor no grupo das outras bolas de gelo que vinham sendo descobertas nas regiões escuras além de Netuno. Em 2000, quando o novo Centro Rose da Terra e do Espaço foi inaugurado no Museu Americano de História Natural, Plutão foi exibido em uma mostra como sendo um Objeto do Cinturão de Kuiper, e não um planeta.

Dois anos atrás, a União Astronômica Internacional designou um grupo de astrônomos para criar uma definição que acabasse com esta tensão. O grupo, liderado por Iwan William, da Universidade Queen Mary, em Londres, acabou paralisado. Neste ano, um novo grupo, com representação mais ampla, liderado por Owen Gingerich, de Harvard, resolveu enfrentar o problema.

Segundo as novas regras um planeta precisa atender a três critérios: orbitar o Sol, possuir gravidade suficiente para contrair-se no formato de um esferóide e ter removido outros objetos celestes da sua vizinhança orbital. O último desses critérios desqualifica Plutão e Xena, cujas órbitas passam pelos objetos compostos de gelo do Cinturão de Kuiper, e Ceres, que está no Cinturão de Asteróides.

Os planetas anões precisam apenas ser arredondados.

"Creio que isso é algo com o qual poderemos nos acostumar, à medida que encontrarmos mais objetos semelhantes a Plutão no sistema solar exterior", afirma Pasachoff.

Entre 400 a 500 astrônomos dos 2,400 que se registraram para participar da reunião da União Astronômica Internacional, em Praga, participaram da votação final. Pasachoff explica que vários dos astrônomos já tinham deixado o encontro, por acreditarem que só haveria resoluções áridas a serem tomadas no encontro final da união.

Essa não foi a primeira vez que os astrônomos modificaram o status de um planeta. O asteróide Ceres foi tido como o oitavo planeta ao ser descoberto em 1801 por Giovanni Piazzi, flutuando no espaço entre Marte e Júpiter. Ele continuou sendo um "planeta" por cerca de meio século, até que a descoberta de um número cada vez maior de corpos celestes semelhantes a ele, naquela mesma região do espaço, levou os astrônomos a batizá-los de asteróides.

Após a votação da quinta-feira, alguns astrônomos observaram que a nova definição se aplica apenas ao nosso próprio sistema solar, e que até o momento não existe algo como um planeta extra-solar.

A decisão deverá implicar em impactos culturais e econômicos sobre as indústrias de artefatos e brinquedos astronômicos, de livros e de materiais didáticos. A World Book Encyclopedia, por exemplo, vinha adiando a impressão da sua nova edição de 2007 até que o status de Plutão ficasse claro.

Neil deGrasse Tyson, diretor do Planetário Hayden, em Nova York, disse que as crianças são flexíveis, quando lhe perguntaram a respeito do impacto cultural da redefinição. Ele disse que não se preocupou em acompanhar a votação da União Astronômica Internacional pela Internet, conforme fizeram vários astrônomos. "No entanto, estou satisfeito com o fato de eles terem decidido implementar esta definição. Na verdade, para mim isso não faz a menor diferença".

Tyson afirmou que a preocupação contínua com aquilo que o público e as crianças pensariam a respeito disso se constitui em um precedente perturbador. "Não conheço nenhuma outra ciência que afirme se preocupar com aquilo que a população pensa", disse ele. "A fronteira do conhecimento precisa se mover de qualquer maneira que se faça necessária". Danilo Fonseca

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