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25/08/2006

Uso de bombas norte-americanas por Israel é alvo de investigação

The New York Times
David S. Cloud

em Washington
O Departamento de Estado está investigando se o uso de bombas de fragmentação norte-americanas no sul do Líbano por Israel violou acordos entre os Estados Unidos e o governo israelense. Tais acordos limitam as situações em que o Estado judeu pode empregar tais armas, segundo informaram dois funcionários do governo.

A investigação feita pelo Escritório de Controle dos Negócios no Setor de Defesa, uma divisão do Departamento de Estado, teve início nesta semana, após relatos de que três tipos de munições de fragmentação, armas para matar pessoas em terra, que lançam várias sub-bombas por uma ampla área, foram encontrados em diversas regiões do sul do Líbano, tendo sido responsáveis pela morte de populações civis.

Gonzalo Gallegos, porta-voz do Departamento de Estado, afirmou: "Ouvimos as alegações de que essas munições foram utilizadas, e estamos buscando mais informações". Ele se recusou a tecer maiores comentários.

Vários funcionários da ativa e aposentados disseram duvidar que a investigação resulte em sanções contra Israel, mas a decisão de realizar a investigação pode ter como objetivo ajudar o governo Bush a reduzir as críticas dos governos e dos analistas árabes quanto ao apoio de Washington às operações militares israelenses. Segundo o Departamento de Estado, a investigação não foi anunciada publicamente.

Além da investigação do uso de armamentos no sul do Líbano, o Departamento de Estado adiou a remessa de foguetes de artilharia M-26, uma arma de fragmentação, que Israel procurou comprar enquanto o conflito estava em andamento.

A investigação provavelmente procurará determinar se Israel informou apropriadamente os Estados Unidos a respeito do uso de armas de fragmentação, e se os alvos dos israelenses foram estritamente militares.

Até o momento, o Departamento de Estado está se baseando em relatórios de funcionários da ONU e de organizações não governamentais no sul do Líbano para coletar informações a respeito do uso desses armamentos, disseram os funcionários.

David Siegel, porta-voz da Embaixada de Israel em Washington, disse: "Não fomos informados sobre nenhuma investigação desse tipo, e quando formos informados teremos o maior prazer em responder".

Os funcionários puderam contar com a garantia de anonimato para discutirem as investigações porque estas envolvem questões diplomáticas sensíveis, além de acordos entre os dois países que são mantidos em sigilo há anos.

Os acordos que regulam o uso de munições de fragmentação fabricadas nos Estados Unidos por parte de Israel remontam à década de 1970, quando ocorreram as primeiras vendas dessas armas, mas os detalhes sobre eles jamais foram publicamente confirmados. O primeiro deles foi assinado em 1976, e reafirmado em 1978, depois de uma incursão israelense no Líbano.

Matérias da imprensa no decorrer dos anos informaram que esses acordos exigem que as munições só sejam utilizadas contra exércitos árabes, e definem claramente os alvos militares segundo condições similares às das guerras do Oriente Médio de 1969 e 1973.

Uma investigação parlamentar após a invasão israelense do Líbano revelou que Israel utilizou essas armas em áreas habitadas por civis, violando assim os acordos. Em resposta a isso, o governo Reagan impôs uma proibição de seis anos das vendas de armas de fragmentação a Israel.

Autoridades israelenses admitiram pouco após o início da ofensiva, no mês passado, que estavam usando munições de fragmentação contra locais de lançamento de foguetes e outros alvos militares. Embora as posições do Hizbollah estivessem freqüentemente escondidas em áreas civis, autoridades israelenses disseram que a sua intenção era utilizar as bombas de fragmentação contra alvos localizados em terreno aberto, e não contra áreas em que houvesse moradias.

Autoridades do governo Bush advertiram Israel para evitar baixas civis, mas não fizeram nenhum protesto público contra o uso de armas de fragmentação pelos israelenses. As autoridades norte-americanas dizem que não se sabe ao certo se as armas, que também são usadas pelas forças armadas dos Estados Unidos, foram usadas em áreas de populações civis, e tampouco se elas foram fornecidas pelos Estados Unidos. Israel também fabrica os seus próprios tipos de armas de fragmentação.

Mas um relatório divulgado na última quarta-feira pelo Centro de Coordenação de Ação Contra Minas, da ONU, que conta com funcionários no sul do Líbano que procuram bombas que não explodiram, informa que foram encontradas muitas bombas secundárias que falharam, inclusive centenas feitas nos Estados Unidos, em 249 locais ao sul do Rio Litani.

Segundo o relatório, entre as munições encontradas havia 559 M-42s, uma sub-bomba antitropas usada em peças de artilharia de 105 milímetros; 663 M-77s, uma sub-munição usada em foguetes M-26; e cinco BLU-63s, uma sub-bomba usada na bomba de fragmentação CBU-26. Também foram encontradas 608 sub-munições M-85, de fabricação israelense.

As sub-munições não detonadas que foram encontradas no Líbano representam provavelmente apenas uma fração do número total que foi lançado pelos israelenses. As munições de fragmentação podem conter dezenas, ou mesmo centenas, de sub-munições que são projetadas para explodir e matar ou ferir, ao se espalharem por uma vasta área. Elas são eficientes contra lançadores de foguetes ou tropas.

O governo libanês anunciou que o conflito provocou a morte de 1.183 pessoas, e deixou 4,054 feridas, em sua maioria civis. As Nações Unidas anunciaram nesta semana que o número de baixas civis no Líbano após o conflito, provocadas por munições de fragmentação, minas terrestres e bombas não explodidas é de 30 feridos e oito mortos. A organização não divulgou números relativos especificamente às bombas de fragmentação.

Dezenas de israelenses foram mortos e centenas feridos em ataques com foguetes do Hizbollah, alguns dos quais foram carregados com esferas de aço, a fim de aumentar a sua letalidade.

Os funcionários disseram que é improvável que Israel seja considerado culpado de violar um outro acordo, a Lei de Controle de Exportação de Armamentos, que exige que os governos estrangeiros que recebem armas norte-americanas só as utilizem em legítima defesa. Provar que a campanha lançada por Israel não se constituiu em autodefesa será difícil, especialmente devido ao fato de o presidente Bush ter anunciado o seu apoio à ação israelense, depois que combatentes do Hizbollah atacaram cruzando a fronteira.

E mesmo se ficar determinado que Israel violou o acordo secreto sobre as bombas de fragmentação, não se sabe ao certo que ações os Estados Unidos tomarão.

Em 1982, a remessa de bombas de fragmentação para Israel foi suspensa durante um mês, depois que os israelenses invadiram o Líbano e o governo Reagan determinou que Israel "poderia" ter usado essas armas contra civis.

Mas a decisão de impor aquilo que equivale a uma moratória por tempo indefinido foi tomada pela Casa Branca devido a pressões do Congresso, que realizou uma longa investigação sobre o problema. Israel e Estados Unidos reafirmaram as restrições ao uso de munições de fragmentação em 1988, e a moratória foi suspensa antes do fim do governo Reagan. Danilo Fonseca

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