UOL Notícias Internacional
 

26/08/2006

EUA mais preparados para emergência, mas não prontos

The New York Times
Eric Lipton

em Washington
Enquanto a tempestade tropical Beryl agitava os mares ao longo da costa do Atlântico neste verão, as autoridades que monitoravam a tempestade dentro do quartel-general da Agência Federal de Gestão de Emergência (Fema) podiam acompanhar ambos os lados em ação.

Em um monitor de computador estava a imagem do Serviço Nacional de Meteorologia da tempestade, rodopiando lentamente na direção da Nova Inglaterra. Ao lado estava a resposta de alta tecnologia da Fema: um mapa digital dos Estados Unidos com um enxame de pontos, ao estilo Pac-Man, representando os caminhões da Fema transportando suprimentos de ajuda a desastre para a esperada zona de impacto.

O sistema de rastreamento é um sinal concreto de progresso para uma agência que, após o furacão Katrina, se tornou um símbolo internacional de disfunção e incompetência. Mas o sistema está montado apenas para uma pequena fatia do país e inclui apenas uma fração da ajuda enviada a campo. É emblemático de quão inconsistente tem sido o progresso na preparação do país para desastres, um ano após o furacão e cinco anos após os ataques terroristas de 2001.

No ano passado, a Fema, a agência do governo federal para resposta inicial a desastres e supervisão dos esforços estaduais e locais, adotou políticas para ajudar a impedir fraude e desperdício, fortaleceu seus laços com outras agências federais para ajuda nas evacuações e atendimento médico de emergência e instalou equipamentos de alta tecnologia, como o sistema de rastreamento de suprimentos. Após uma busca prolongada, ela contratou um novo diretor, R. David Paulison, um ex-chefe do corpo de bombeiros de Miami-Dade, e reforçou significativamente suas fileiras executivas com mais diretores de emergência experientes.

Mas apesar dos pedidos de muitos críticos da Fema, pouco mudou na agência em si, que ainda conta com menos poder e autonomia do que nos anos Clinton e um orçamento para sua missão central que não foi significativamente aumentado.

As inconsistências estão aparentes em toda parte. Ao longo da Costa do Golfo e em outros lugares atingidos por desastres, como Nova York, avanços importantes foram conseguidos nos preparativos para a próxima catástrofe. Em Nova Orleans, passos extraordinários foram dados para cuidar dos inválidos, idosos e dezenas de milhares de outros sem carros caso outro grande furacão atinja a cidade. Em Nova York, disseram as autoridades municipais, até 3 milhões de pessoas poderiam ser evacuadas das áreas costeiras e 600 mil acomodadas em abrigos estocados com alimentos e suprimentos.

Mas em grandes partes do país, um progresso bem mais limitado foi conseguido nos preparativos para uma catástrofe, concluiu um recente levantamento federal. O Departamento de Segurança Interna, a agência superior da Fema, classificou apenas 27% dos Estados e 10% das cidades como adequadamente preparadas para "lidar com um evento catastrófico". Dallas, Milwaukee, Oklahoma City e Filadéfia estavam entre as cidades com piores notas.

Na Filadélfia, por exemplo, os sistemas de rádio de emergência não são confiáveis por toda a cidade, os planos para atendimento aos idosos e inválidos não estão concluídos, os abrigos são insuficientes e os contratos para suprimentos de emergência praticamente não existem -lapsos que contribuíram para o desastre em Nova Orleans no ano passado.

A preparação desigual deixa muitos especialistas em resposta de emergência, incluindo altos funcionários do governo Bush, incomodados.

"Não há nenhum governador nem prefeito de cidade grande na América que não saiba que todos os olhos estarão voltados para ele quando ocorrer o próximo grande desastre", disse George W. Foresman, subsecretário de preparo do Departamento de Segurança Interna. "Mas falando de forma geral, se você fizer a pergunta, 'Eles estão prontos?', a resposta é não como deveriam estar. E esta é uma grande atenuação."

Paulison, o diretor da Fema, reconheceu em um briefing neste mês que apesar do progresso conseguido, sua agência não concluiu a tarefa de se adaptar.

"Nós não podemos deixar que as mortes e o sofrimento das vítimas do Katrina tenham ocorrido em vão", ele disse. "Nós temos que pegar as lições aprendidas e assegurarmos que esta organização, não só a Fema mas todo o governo federal, seja capaz de responder de forma muito mais ágil e eficaz."

Pronta para agir

No Campo Beauregard de treinamento da Guarda Nacional da Louisiana, longe da vulnerável Costa do Golfo, a Fema montou um amplo depósito para desastre. Carga após carga de água engarrafada, refeições prontas, macas, lonas, cobertores e mantas de plástico foram reunidas neste ano, cada movimentação de bens rastreada pelo novo sistema por satélite da Fema.

Mas em vez de manter os suprimentos em um campo localizado de forma central como fez a Fema no ano passado, a agência os distribuiu por todo o Estado, para locais como Nova Orleans e paróquias vizinhas atingidas duramente pelo furacão Katrina. Com estes e outros estoques -pelo menos o dobro dos suprimentos distribuídos antes do furacão de agosto passado- as autoridades da Fema disseram que dispõem de suprimentos suficientes para atender pelo menos 1 milhão de pessoas por uma semana.

"Nós deslocamos trailers às centenas", disse Garrison Martin, o
administrador da Fema no complexo do Campo Beauregard, assistindo enquanto as empilhadeiras traziam mais bens. "Nós podemos atender a necessidade caso um desastre venha a acontecer novamente."

Martin e outras autoridades federais, estaduais e municipais na Louisiana têm um senso palpável de urgência nos preparativos para outro furacão e outro desastre. Elas elaboraram um plano regional de resposta com poucos precedentes na história americana.

As autoridades federais disseram que se um grande furacão ameaçar a costa da Louisiana neste ano, elas estarão prontas antes da tempestade para ajudar a remover até 80 mil pessoas de ônibus e 61 mil de avião ou trem -quase todos na região que não possuem carro, incluindo turistas. As autoridades federais e estaduais também encontraram abrigos a uma distância segura da costa para até 250 mil pessoas. O Departamento de Defesa, a pedido da Fema, contratou fornecedores para entregar diesel e gasolina em Estados propensos a furacões para geradores e veículos ao longo das rotas de fuga.

O Pentágono também está preparado para intervir e ajudar nos resgates,
evacuações médicas, entrega de equipamento pesado e liberação de estradas, assim como para fornecer de 15 mil a 20 mil soldados do serviço ativo para manter a ordem e oferecer outra assistência. O Departamento de Transporte está até pagando para que 200 ônibus fiquem de prontidão na região do golfo neste verão, caso haja necessidade de evacuações.

O planejamento mais detalhado envolve o atendimento de doentes, idosos e inválidos, para os quais as falhas institucionais e do governo no ano
passado provaram ser na maioria fatais.

Após o furacão, os pacientes do Maison Hospitaliere, um asilo na Bourbon Street, no Bairro Francês de Nova Orleans, tiveram que esperar quatro dias sob forte calor até serem evacuados. Sem ar condicionado, as temperaturas subiram tanto que dois pacientes morreram enquanto esperavam pelo resgate.

"As coisas serão diferentes neste ano", disse Andrew B. Sandler, o
administrador do asilo.

Agora Sandler tem um contrato com uma empresa de ônibus que prometeu honrar o acordo de transportar seus pacientes se necessário, assim como um contrato com uma empresa que administra três asilos no interior para receber seus pacientes. E se seus planos fracassarem, as autoridades estaduais e federais disseram que virão auxiliá-los.

As autoridades federais sabem que algum caos será inevitável em caso de uma evacuação de Nova Orleans. Mas estão usando cada momento desta temporada de furacões para se prepararem para outra tempestade.

"Cada dia que dispomos sem um furacão nós conseguiremos nos preparar um
pouco mais", disse Gil H. Jamieson, que está coordenando os esforços da Fema ao longo da Costa do Golfo.

Não testado no Nordeste

A especialidade do dr. Harvey Rubin é doenças infecciosas, não gestão de desastre. Mas do último andar de um hospital na Universidade da Pensilvânia, Rubin não tinha dificuldade para apontar onde as catástrofes poderiam ocorrer na Filadélfia.

Ao sul, ensanduichado entre um bairro residencial, o aeroporto e três
complexos esportivos, se encontra uma gigante refinaria de petróleo Sunoco. Ela processa produtos altamente inflamáveis e armazena centenas de milhares de libras de ácido fluorídrico, uma produto químico extremamente tóxico usado para produção de combustíveis. Se o produto for liberado no ar por acidente ou ato terrorista, uma nuvem venenosa presa ao solo ameaçaria centenas de milhares de moradores em um raio de quilômetros.

Ao leste, atrás das torres de escritórios, se encontram os ícones históricos da cidade, o Sino da Liberdade e o Salão da Independência; além deles se encontra o porto para embarque de contêineres. Todos são considerados possíveis alvos terroristas.

A Filadélfia não corre alto risco de desastre natural, mas como muitas
outras grandes áreas metropolitanas, ela está vulnerável a acidentes
industriais e ataques terroristas. Mas quando o prefeito John F. Street
ordenou um estudo de quão preparada a cidade estava para uma grande
catástrofe, os resultados ficaram longe de tranqüilizadores.

"Nós nos saímos bem, por sorte, em um desastre normal", disse Rubin, diretor do Instituto para Resposta e Análise Estratégica de Ameaça da Universidade da Pensilvânia e co-diretor do estudo. "Mas uma grande catástrofe -nós não fomos testados. Não seria fácil."

Os planos de evacuação da cidade, mesmo se apenas parte dela tivesse que ser evacuada, são tão pouco específicos que mesmo algumas agências que deveria exercer um papel crítico não sabem o que fazer, disse o relatório.

A cidade, que conta com 1,5 milhão de habitantes, tem poucos planos para evacuar idosos ou pessoas sem carros. Os estoques de alimentos e suprimentos seriam insuficientes para apenas 15 mil moradores, com poucos contratos acertados para a entrega rápida de grandes quantidades de suprimentos adicionais.

De fato, tão pouco pensamento foi dedicado ao planejamento para desastre que as autoridades municipais nem mesmo tinham montado as barreiras de trânsito antiterrorismo ao redor do comando da polícia, que também abriga o central telefônica de emergências. (As barreiras foram recentemente instaladas.)

Se virando sozinhos

As conclusões, divulgadas em junho, refletiam os resultados obtidos no mesmo mês pelo Departamento de Segurança Interna e no mês passado pela Conferência de Prefeitos dos Estados Unidos.

"As fragilidades significativas dos planos de evacuação são uma área de
profunda preocupação", disse o relatório do departamento. O relatório da conferência dos prefeitos notou que os sistemas de comunicação em 80% das cidades não são sofisticados o bastante para permitir que agentes de segurança e resgate se comuniquem uns com os outros, uma meta que os autores do estudo disseram que levaria em média quatro anos para ser obtida.

Alguns Estados, incluindo Flórida, Carolina do Norte e Texas, receberam
notas decentes no levantamento do Departamento de Segurança Interna, em
grande parte devido aos testes freqüentes que enfrentam com furacões. Certos alvos de alto risco como Washington e Nova York também se saíram
relativamente bem, graças às medidas adotadas desde 2001.

Algumas medidas tomadas pela Fema no ano passado -como o estabelecimento de equipes federais de reconhecimento que podem voar até o local e informar as condições mesmo se as redes locais de comunicação não estiverem funcionando- poderiam compensar parte dos lapsos de preparação. A Fema também dobrou sua capacidade, para 200 mil por dia, de receber telefonemas das vítimas que desejam se inscrever para ajuda financeira.

Mas muitos aspectos do esforço ampliado de resposta federal são limitados a áreas particularmente vulneráveis, como o sudeste da Louisiana. Grande parte do restante do país teria que se virar sozinha após um desastre até que a ajuda federal possa ser mobilizada, talvez apenas 48 a 72 horas depois. Com a maioria das áreas inadequadamente preparadas, isto poderia ser precário, reconheceram autoridades federais e administradores de emergências.

"Estes fatores sempre exercem uma pena severa no meio de uma crise: um tempo precioso é perdido na corrida para corrigir as interpretações erradas das equipes de resposta federais, estaduais e locais sobre quais seus papéis, responsabilidades e ações", alertou o levantamento federal de cidades e Estados. "O resultado é uma atuação desigual e erros operacionais repetidos e onerosos."

As autoridades da Filadélfia foram elogiadas por produzirem um relatório sério que aponta suas falhas na preparação. Mas para moradores da área como Theresa Jones, que mora perto da refinaria de petróleo, e Charlie Tomlinson, que usa o metrô, as vulnerabilidades da cidade são preocupantes.

"Se algo acontecer aqui, nós estamos fritos", disse Jones. "Nós seremos
frangos fritos."

Pedro A. Ramos, uma importante autoridade administrativa da Filadélfia,
disse que os moradores podem ficar tranqüilos que a cidade está agindo
energicamente para sanar as falhas de seu plano de desastre.

"Você nunca sabe o que não sabe até que sai à procura", disse Ramos.

Mas enquanto o trem do metrô chegava à estação perto da prefeitura,
Tomlinson disse que não podia deixar de se perguntar por que demorou tanto para a cidade levar a sério a preparação.

"Você imaginaria que cinco anos após 11 de setembro alguém teria cuidado disto", disse Tomlinson. "É um pouco assustador." George El Khouri Andolfato

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