UOL Notícias Internacional
 

26/08/2006

Inflação arrasa economia iraquiana

The New York Times
Damien Cave*

em Bagdá
Para Mehdi Dawood, o fracasso iraquiano atingiu o preço do pepino, um alimento básico no Iraque que atualmente drena um quinto da sua pensão mensal.

E o problema não diz respeito apenas às verduras e aos legumes. Os preços do combustível e da energia elétrica subiram mais de 270% em relação ao ano passado, segundo estatísticas do governo iraquiano. Em alguns mercados o preço do chá quadruplicou, o dos ovos dobrou, e em todo país a rotina diária atualmente inclui uma nova pergunta: Posso passar sem o que?

"Eu não compro mais carne", diz Dawood, 66, segurando sacolas em um mercado de Bagdá. "É muito caro".

"Todos estamos sofrendo", disse ele. "A culpa é do governo. Não há segurança. Não há estabilidade".

E isso como se os iraquianos já não tivessem muito com o que se preocupar. Ir ao mercado já exige coragem - após os sucessivos atentados a bomba -, e agora, as necessidades mais básicas da vida estão se tornando drasticamente mais caras.

Nos três primeiros meses do governo do primeiro-ministro Nouri Kamal al-Maliki, a inflação chegou a 70% ao ano, em relação aos 32% do ano passado. Os salários não sobem, os bancos mal estão funcionando e entre as autoridades norte-americanas e iraquianas há o consenso de que a inflação provavelmente aumentará.

Violência, corrupção e as conseqüências de décadas de controle governamental estão empurrando para cima os preços de quase tudo, especialmente os do combustível, o que por sua vez faz com que o custo da produção de mercadorias seja multiplicado.

"É um problema muito sério", afirma Anthony H. Cordesman, analista especializado em Oriente Médio que trabalha no Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, em Washington. "Não existe um sistema estável de transportes rodoviários; e tampouco uma rede de distribuição estável. Há um constante problema quanto à segurança. As forças envolvidas em lutas sectaristas muitas vezes aceitam propinas para permitir que as coisas funcionem. Tudo isso faz com que aumente a pressão sobre os preços".

O gabinete de Al-Maliki respondeu com propostas para atrair investimentos estrangeiros e pedidos de paciência, e até mesmo de perdão, ao povo. Mas bilhões de dólares em auxílio norte-americano já foram investidos no Iraque, gerando pouco impacto.

Comparados aos problemas de segurança, que podem ser abordados de alguma forma com o envio de mais tropas às ruas, o problema econômico é mais difícil de controlar, especialmente porque a maior parte do comércio iraquiano está além do alcance da política governamental.

O combustível continua sendo o exemplo mais visível da falta de funcionalidade econômica. Um litro de gasolina custava até um centavo de dólar em novembro de 2005. Agora, depois que o Fundo Monetário Internacional (FMI) pressionou o Ministério do Petróleo para que este acabasse com os subsídios, o preço oficial do litro de gasolina é de cerca de 17,7 centavos de dólar.

A disparada de preços foi um choque para os iraquianos, que ganham em média apenas US$ 150 por mês - quando têm emprego. As estimativas do índice de desemprego variam de 40% a 60%. E como o preço do litro da gasolina é de 84 centavos de dólar no mercado negro, contra 33 centavos há alguns meses, o preço real que a maioria dos iraquianos paga é mais alto do que o preço oficial.

Atualmente, para encher o tanque do carro os iraquianos precisam desembolsar o dinheiro equivalente a vários dias de trabalho, além de ter uma paciência enorme.

Três anos depois que a escassez de combustível gerou rebeliões em Basra, a tensão é muitas vezes palpável nas bombas de gasolina. As filas para o abastecimento dos carros são de perder de vista, e pelo menos dois tiroteios em postos de gasolina foram registrados em Bagdá apenas neste mês. Próximo a um posto no centro da cidade, nesta semana, as propinas para furar as filas pareciam ser a norma. Em determinado momento, um Mercedes e vários carros de polícia passaram à frente de pelo menos 50 automóveis, enquanto um policial observava sem tomar nenhuma providência.

"Por que você está deixando essas pessoas furarem a fila?", gritou um homem que estava já próximo à bomba de gasolina, após uma espera de sete horas.

O gerente do posto disse que os motoristas que recebem tratamento especial precisam apresentar um documento demonstrando que são médicos, ou que estão participando de um funeral. Algumas centenas de metros atrás, ao lado de um automóvel station wagon em mau estado, Abdul Rehman Qasin apresentava uma teoria diferente: os motoristas que evitam a fila possuem ou dinheiro ou poder. E ele não tem nenhum dos dois.

"Sou um homem pobre", disse ele. "Assim sendo, deixo os meus filhos aqui. Eles passam a noite no carro".

"Com o governo Maliki as coisas estão piorando gradativamente", acrescentou o Qasin. "Só Deus pode nos salvar".

Nos outrora movimentados mercados do Iraque, a frustração é enorme. Ataques com carros-bomba são realizados regularmente contra os distritos comerciais, e os preços parecem aumentar com cada uma dessas ações. Nos mercados de uma área xiita de classe média próxima ao centro da cidade, o grão-de-bico dobrou de preço. O preço da carne de carneiro chega a US$ 6 o quilo, contra US$ 3,30 no mês passado.

Os preços do pepino, do tomate e da berinjela também dispararam, e o dos botijões de gás quintuplicaram, chegando a mais de US$ 15.

"Vivemos em estado de penúria", afirma Dawood, um secretário aposentado.

Mulheres usando véus que fazem compras ali perto concordam. "Estamos cansadas, e a situação é horrível", desabafa Zakiya Abid Salman, 55, uma viúva que carrega berinjelas. "Não há empregos, e os preços estão sempre subindo".

Os comerciantes dizem não ter escolha, a não ser aumentar os preços, devido à elevação dos custos dos negócios. E eles garantem que mesmo assim os seus lucros diminuíram.

Ali Fouad, 27, que coloca peixes vivos em uma banheira rasa, diz que o preço do transporte dos seus produtos das fazendas ao sul de Bagdá quase triplicaram desde o ano passado. Poucos meses atrás ele vendia cerca de 50 quilos de peixe por dia, ganhando cerca de US$ 50 líquidos. Mas ele diz que, como teve que aumentar os preços em aproximadamente 60%, está vendendo menos, e ganhando apenas US$ 20 por dia.

"Hoje em dia o que é a nossa vida?", questiona Fouad. "Estamos trabalhando apenas para comprar gasolina, gelo e eletricidade. Não sobra nada".

Conter a inflação não será uma tarefa fácil. Os especialistas aqui dizem que se esforçam muito apenas para coletar os dados necessários para diagnosticar o problema, e o Iraque carece dos mecanismos usuais para controle de preços.

O Banco Central do Iraque tem apenas três anos de idade. Embora o Fmi anuncie que as autoridades aumentaram as taxas de juros - e aceleraram os esforços para a criação de uma economia funcional de mercado - o estudo mais recente da instituição, realizado em julho, também concluiu que "o sistema bancário está em grande parte inerte". Como resultado, diz o relatório, a eficácia de tais medidas é "muito limitada".

"Aumentar as taxas de juros para empréstimos empresariais e prestações de imóveis - se as pessoas não estão pegando esses empréstimos, que efeito poderiam ter essas medidas?", disse Edward W. Kloth, assessor econômico da Embaixada dos Estados Unidos em Bagdá. "As ferramentas disponíveis são muito limitadas nesse tipo de situação".

Ali al-Dabagh, um porta-voz de al-Maliki, disse em uma entrevista: "O governo está trabalhado arduamente para encontrar soluções". Ele culpou os terroristas por enfraquecerem os líderes iraquianos eleitos, mas admitiu que o país "precisa de uma revolução administrativa".

Para as famílias que tentam sobreviver, o tempo às vezes parece estar se esgotando. Fathi Khalid, 43, um vendedor de verduras cujo balcão está praticamente vazio, diz que os obstáculos parecem se multiplicar a cada dia. Às vezes as estradas são bloqueadas, de forma que as colheitas nunca chegam. E às vezes ele não tem como pagar as propinas exigidas. E a cada semana os clientes compram menos.

"A maioria das pessoas compra a metade do que costumava comprar", diz ele. "As verduras ficam encalhadas aqui, até apodrecerem".

*Qais Mizher, Wisam A. Habeeb e Omar al-Neami contribuíram de Bagdá para esta matéria Danilo Fonseca

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,48
    3,144
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    -0,53
    75.604,34
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host