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26/08/2006

Os dias das exportações baratas da China podem estar contados

The New York Times
Carter Dougherty*
Durante 20 anos no ramo de brinquedos, Anthony Temple se deleitou na abundância de animais de pelúcia, canecas e bonecos baratos vendidos pela China. Mas neste ano, sua viagem de compras para sua empresa com sede em Londres, a Rainbow Designs, resultou em um despertar rude.

Viajando pelo delta do Rio Pérola, ao norte de Hong Kong, Temple descobriu que aumentos de custo -de matérias-primas, mas acima de tudo de mão-de-obra- dominaram todas as discussões que teve com os fornecedores.

Longe de estarem dispostas a cobrir as ofertas umas das outras, as empresas chinesas falaram de forma consistente em aumentar seus preços de 5% a 10% a ponto de Temple, cuja empresa é dona dos direitos de distribuição britânicos de criaturas como o Urso Paddington e Pata Jemima, ter ficado convencido de que não se tratavam de simples táticas de negociação.

"Quando parti para lá, eu acreditava que a China era um poço sem fundo de produtos baratos", disse Temple. "Quando eu parti de lá, eu não acreditava mais."

Enquanto a economia chinesa avança, sinais estão se multiplicando de que a gigante asiática está começando a reduzir suas exportações de algo querido para os corações de muitos consumidores em países desenvolvidos: produtos cada vez mais baratos.

Por pelo menos uma década, a China forneceu uma grande ajuda para os bancos centrais que combatiam a inflação na Europa e nos Estados Unidos, ao reduzir consistentemente os preços de uma série de bens, ajudando a compensar a tendência de alta dos preços ao consumidor em geral.

Em Jackson Hole, Wyoming, o presidente do Federal Reserve (o banco central americano), Ben S. Bernanke, abriu uma conferência anual de diretores de bancos centrais, na sexta-feira, com um discurso que destacou como a ascensão da China como potência de exportação alterou a economia mundial em menos de 30 anos.

O papel da China na desinflação global -como o fenômeno é conhecido pelos economistas e diretores de bancos centrais- não vai desaparecer. Mas alguns números recentes, juntamente com as evidências, sugerem que a contribuição da China para os preços baixos em todo mundo pode estar cedendo.

Recentemente, o Banco Central Europeu prometeu aumentar as pesquisas do que é chamado de "efeito China". Importantes autoridades do Federal Reserve também começaram a falar a respeito. E o debate sobre quanto a China contribuiu para o domar da inflação global é um tópico central de um encontro anual em Jackson Hole dos principais diretores de bancos centrais do mundo e economistas acadêmicos.

Nos Estados Unidos, dados mostram que os preços dos importados chineses, que caíram desde que os dados começaram a ser coletados em 2003, estão se equilibrando, assim como os preços de outros mercados emergentes de baixo custo.

Os preços dos bens chineses nas fábricas subiram nos últimos quatro meses, segundo o levantamento dos gerentes de compra realizada pela NTC Research, com sede em Londres. Em março, seu índice ficou ligeiramente abaixo de 50 -um nível que indica preços estáveis- mas agora está em 56, um aumento acentuado segundo os padrões de uma pesquisa que geralmente apresenta aumentos fracionais.

Por anos, a economia galopante da China tem enviado ondas por toda a economia global -à medida que a demanda chinesa provocou alta de commodities críticos como petróleo e cobre e a compra pelos chineses de títulos do Tesouro americano ajudou a manter as taxas de juros baixas.

E nem todos os economistas aceitam a noção geral de que os preços chineses em breve alimentarão a inflação no mundo industrializado e forçarão os bancos centrais a pisarem mais fortemente nos freios. Os céticos em relação ao "efeito China" tendem a se concentrar na capacidade da China e de seus clientes de se adaptar.

À medida que aumentam os custos chineses, os investidores estrangeiros podem se estabelecer em locais como Índia e Bangladesh, que estão atrás da China como centros de manufatura de baixo custo. Outras empresas penetrarão no vasto interior da China para escapar dos crescentes custos trabalhistas na áreas costeiras.

"O arbítrio trabalhista global está vivo e bem", disse Stephen Roach, economista-chefe do Morgan Stanley. "Ainda é bastante lucrativo deslocar produção e empregos para a China para manter seus custos trabalhistas baixos."

As roupas e brinquedos baratos que consumidores de todo mundo compraram à vontade interferiram nos preços, até mesmo provocando sua queda ao longo dos anos. Agora, à medida que os chineses buscam aumentar seus preços em resposta a custos mais altos, alguns diretores de bancos centrais temem que este bálsamo global desaparecerá.

"Mesmo na China, com sua base de manufatura crescendo e grande oferta de mão-de-obra, alguns indicadores estão mostrando pressões para cima nos preços das exportações", disse Mervyn A. King, presidente do Banco da Inglaterra, em um recente discurso. "E, por sua vez, isto está aumentando os preços de nossas importações, acima dos aumentos resultantes de custos de energia mais altos."

A perspectiva de preços mais altos para bens de consumo acabados se tornou uma espécie de obsessão na cadeia de oferta, segundo entrevistas com varejistas, importadores, consultores independentes e associações comerciais na Europa e nos Estados Unidos.

"Nós podemos estar chegando a uma situação onde os preços dos commodities e dos bens manufaturados apresentarão alta", disse Kenneth Rogoff, um ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional. "Isto não é nem um pouco agradável."

O desenvolvimento natural da China a levou a este ponto, disseram os economistas. A mão-de-obra barata e o fácil acesso a portos de primeira classe em Hong Kong permitiram à China inundar o mundo com bens baratos. Mas à medida que surge escassez de mão-de-obra, os trabalhadores chineses estão começando a pedir mais dinheiro, adicionando pressões de custo aos commodities mais caros e criando as condições clássicas para elevação dos preços das exportações.

"As matérias-primas estão em alta; o preço do petróleo está em alta; os salários estão em alta", disse Peter Keller, diretor administrativo da Merton Company, uma fabricante de brinquedos de plástico sediada em Hong Kong. "É verdade que os custos na China estão aumentando e, onde possível, os aumentos de custo estão sendo repassados."

A Merton está enfrentando rápidos aumentos salariais em sua fábrica na província de Guangdong, no coração do boom manufatureiro da China no delta do Rio Pérola. Em 1º de setembro, o salário mínimo deverá aumentar cerca de 20%, para 780 yuans (US$ 98) por mês, na província.

A concorrência intensa ainda está reduzindo as margens de lucro, mas Keller estimou que os preços dos produtos produzidos sob novos contratos serão entre 5% e 10% mais altos do que o resultado dos salários mais altos e contas das matérias-primas.

A boa notícia para os consumidores é que os custos crescentes na China ainda não estão alimentando preços mais altos nas lojas, apesar de estarem provavelmente reduzindo os lucros de importadores e varejistas, disseram os economistas.

A H&M, a gigante sueca do comércio de roupas, está lutando para manter seus preços baixos enquanto seus fornecedores estão cobrando mais, disse Nils Vinge, seu diretor de relações com o investidor.

Algumas estratégias, como transferir a produção para locais mais baratos como Bangladesh ou Turquia, com custos de transporte mais baratos para a Europa, podem reduzir o impacto, mas não para sempre.

"A longo prazo, isto acaba chegando ao consumidor", disse Vinge. "A curto prazo, não."

Dados sugerem que a Europa e os Estados Unidos estão, como a H&M, em algum ponto entre o curto e longo prazo. A inflação tem pairado ligeiramente acima de 2% durante grande parte desta década nos 12 países que usam o euro como moeda, mas recentemente está subindo.

Ela estava em uma taxa anual de 4,8% no mês passado nos Estados Unidos.

No Reino Unidos, o mais recente relatório de inflação do Banco da Inglaterra notou que mesmo após o descarte dos voláteis preços da energia e metais, a inflação está correndo a uma taxa anual de 5%. Ele também acentuou uma reversão nos preços das importações britânicas desde 2004.

O Banco Central Europeu apontou para uma tendência semelhante nos países do euro em seu mais recente relatório mensal. A sensibilidade aos preços mais altos tem voltado mais atenção à China. O Banco Central Europeu também notou que países de baixo custo como a China ajudaram a reduzir a inflação para bens importados em dois pontos percentuais ao ano de 1996 a 2005 para os países do euro.

Temple, o comprador de brinquedos, disse que conseguiu em grande parte
conter os aumentos de custo da China por meio de uma mistura de dura
negociação e lucros menores. Mas em breve os varejistas que abastece, como W.H. Smith, Harrods e Selfridges, se verão sob intensa pressão para elevar preços, ele disse.

"Estes preços terão que ser repassados pela cadeia de varejo no próximo ano", disse Temple. "Os preços terão que subir."

*Donald Greenlees, em Hong Kong, contribuiu com reportagem para este artigo George El Khouri Andolfato

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