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27/08/2006

Em escolas por todos os EUA, o cadinho de raças transborda

The New York Times
Sam Dillon

em Sterling, Virgínia
Cerca de 55 milhões de jovens estão matriculados em salas de aula nas escolas do país neste início de ano letivo, tornando este o maior grupo de estudantes na história americana e, em termos étnicos, o mais fascinantemente diverso desde que ondas de imigrantes europeus tomaram as escolas públicas há um século.

Milhões de pais "baby boomers" (a geração pós-Segunda Guerra Mundial) e nascidos no exterior estão matriculando seus filhos, provocando um inchaço demográfico nas escolas que está levando a um aumento da construção de salas de aula. Também está fazendo com que milhares de distritos contratem professores qualificados adicionais em um momento em que o governo Bush está tentando aumentar as qualificações dos professores de todos os graus. Muitos distritos escolares começaram a recrutar no exterior instrutores para matérias difíceis, como ensino especial e matemática avançada.

Kenneth Dickerman/The New York Times 
Escolas norte-americanas apresentam uma diversidade racial nunca vista antes

O aumento das matrículas é óbvio em distritos como este a oeste de Washington, em Loudoun County, um dos que mais crescem no país. Milhares de funcionários do governo, de tecnologia e operários de construção, muitos deles latinos, asiáticos e afro-americanos, estão espalhados em novos bairros à distância de condução do Pentágono e da sede da America Online. Eles estão transformando um distrito escolar que antes era pequeno e predominantemente branco em um cada vez maior e cosmopolita.

Thuy Nguyen, uma aluna de 16 anos da Park View High School em Sterling, está assistindo a recente transformação. Ela se mudou do Vietnã para a Virgínia com sua família quando tinha 9 anos e lembra que a maioria de seus colegas de classe era branca.

"Eu era caloura, tinha medo e não falava inglês muito bem", disse Thuy. "Eu não conversava com ninguém." Seis anos depois ela disse que está fazendo amigos com mais facilidade.

"O que gosto em uma escola com diversidade é que você não se sente intimidada se há outras raças", ela disse. "Eu circulo, falo com o grupo caucasiano, com o grupo do Oriente Médio. Eu tenho amigos de El Salvador, México, Peru -uma garota é meio coreana, meio porto-riquenha, ela é legal- e da Índia, Paquistão, Afeganistão."

"Há uma garota de Bangladesh, nós conversamos sobre tudo. Eu também conheci um garoto sueco. Ele é o maior gato. Eu converso com todos os grupos diferentes. Eu não quero, tipo, ficar restrita apenas ao grupo asiático."

Kathy Hackney é a treinadora de tênis de Thuy.

"Minha equipe parece as Nações Unidas", disse Kathy.

As Escolas Públicas de Loudoun County, onde o salário anual para professores iniciantes é de US$ 40.986, contratou quase todos os 650 novos professores que precisa para preencher suas salas de aula quando o ano letivo começar em 5 de setembro, muitos deles por meio de agências que recrutam professores no exterior, disse o superintendente, Edgar B. Hatrick.

Mas alguns distritos que estão crescendo rapidamente por todo o país estão tendo dificuldades. O Distrito Escolar de Clark County, em Las Vegas, por exemplo, onde o salário inicial dos professores é de US$ 33 mil, contratou 2 mil professores. Mas com o início das aulas previsto para quarta-feira, o distrito ainda está à procura de mais 400, a maioria para lecionar ensino especial e matemática, disse Pat Nelson, uma porta-voz.

O Distrito Escolar Consolidado da Comunidade de Plainfield, a oeste de Chicago, que saltou de 8.700 estudantes em 1998 para 26 mil, já contratou 300 novos professores neste ano, disse John Harper, o superintendente. Mas em um período de 36 horas, poucos dias antes do início do ano letivo na última quarta-feira, 500 novos alunos se matricularam, disse Harper, forçando o distrito a remanejar os horários de aulas e contratar mais professores.

"O planejamento das férias pode ser arruinado quando repentinamente temos centenas de novos alunos", ele disse.

No final, a maioria dos distritos encontra os professores que precisa, mas em casos extremos, alguns aumentam o tamanho das salas de aula ou convocam substitutos até conseguirem contratar professores permanentes.

Em projeções publicadas no ano passado, o Departamento de Educação dos
Estados Unidos disse que as matrículas no ensino básico e no ensino médio cresceriam, em média, em cerca de 200 mil estudantes anualmente, chegando a 56,7 milhões em 2014. As tendências de matrículas seriam desiguais, regionalmente, com as escolas no Nordeste e Meio-Oeste perdendo estudantes, em média, e as do Sul e Oeste crescendo, disse o departamento.

As projeções apontam uma queda nas matrículas nas escolas públicas do Estado de Nova York em 6% de 2002 a 2014, uma queda de 1% nas matrículas em Connecticut no mesmo período, e as de Nova Jersey aumentando em 3,5%.

O departamento apontou o crescimento mais espetacular para Nevada, onde a projeção de aumento das matrículas de 2002 a 2014 é de 28%, e no Texas, onde há previsão de aumento de 16% no mesmo período.

O Distrito Escolar Independente de Frisco, no norte de Dallas, viu um
crescimento espetacular. Em 1998, o sistema tinha oito escolas com 4.500 alunos. Quando as aulas começaram em 15 de agosto, o distrito tinha 23.200 estudantes em 34 escolas. "Nosso desafio tem sido construir escolas rápido o bastante", disse Rick Reedy, o superintendente.

Os primeiros anos do século 21 viram uma tremenda construção de novas salas de aula em muitas regiões, com os distritos escolares gastando cerca de US$ 20 bilhões anualmente em projetos capitais, disse Paul Abramson, que publicou uma pesquisa nacional de construção de escolas no início deste ano.

Equipes de construção concluíram o trabalho em três escolas três dias antes dos estudantes voltarem às aulas, em 7 de agosto, no Distrito Escolar de Flagler County, norte de Daytona Beach, Flórida, onde as matrículas dobraram para 12 mil estudantes desde 1998. Bill Delbrugge, o superintendente, disse que enviou um e-mail implorando por ajuda para concluir o trabalho.

Peter Palmer, um ex-professor, disse que ele e vários outros voluntários arrumaram mesas, levaram livros e carregaram cadeiras por três dias em uma corrida um tanto caótica, mas no final triunfante, para aprontar os novos prédios para os estudantes.

O recente crescimento explosivo forçou as autoridades escolares a improvisos de último minuto também em Loudoun County. Em 15 anos, as matrículas no distrito triplicaram, de 14.633 em 1999 para 47.361 em 2005; o número de estudantes asiáticos multiplicou doze vezes e de latinos dezessete vezes. O distrito construiu 38 escolas desde 1995, incluindo a Legacy Elementary em Ashburn, Virgínia, que foi inaugurada no ano passado em uma paisagem que tratores rapidamente transformaram de plantações de soja em subúrbios.

Até 22 de agosto, a escola já contava com 200 estudantes matriculados além dos 875 que foi projetada para receber.

"Nós estamos em uma situação de excesso de alunos, infelizmente, de forma que teremos que colocar você em uma lista de espera", disse Corinne Mirch, a secretária da escola, para Luis Bermejo, um pedreiro nascido no México que disse que se mudou para o distrito em 1996, e que veio matricular sua filha de 5 anos, Sofia, no jardim de infância. Sofia provavelmente será indicada para outra escola primária em Ashburn, disse Mirch.

Um dos professores para ensino especial de Legacy neste ano letivo foi
recrutado nas Filipinas por meio de uma firma de busca com sede em Delaware, disse o diretor da Legacy, Robert. W. Duckworth. O distrito recrutou na Colômbia um professor de espanhol e um de inglês como segunda língua para a Legacy, por meio do Visiting International Faculty, um grupo com sede na Carolina do Norte.

O grupo está patrocinando cerca de 95 professores estrangeiros nas escolas de Loudoun County, assim como cerca de 1.600 professores em 1.000 outras escolas americanas. O Departamento de Estado emite vistos de intercâmbio cultural de três anos para professores estrangeiros, disse Ned Glascock, um porta-voz do grupo.

Devido à demanda voraz por novos professores qualificados e para ampliar a diversidade do corpo docente, o distrito de Loudoun estabeleceu um esforço de recrutamento permanente, cuidadosamente orquestrado. Quando o distrito identificou uma candidata índia navajo talentosa, Melissa Wright, que se formou na faculdade no Havaí neste ano, vários representantes de Loudoun County receberam uma agradável tarefa: uma viagem de recrutamento em fevereiro para Honolulu.

"Eu a considero fantástica -eu quero lhe oferecer um emprego imediatamente", Wright citou o que um representante do distrito lhe disse.

Nas semanas seguintes, ex-diretores e outros que trabalham para o distrito como "embaixadores de atendimento aos candidatos" enviaram dezenas de e-mails para Wright a encorajando a aceitar a oferta e oferecendo ajuda para comprar carro, encontrar moradia e outros conselhos, ela disse.

Wright, que assinou com o distrito em abril, disse que ela se sentiu atraída pelas descrições de Loudoun County como ímã para famílias internacionais e um lugar que nutre as diferenças culturais à medida que as escolas americanas se tornam cada vez mais diversas.

Há três décadas, em 1973, 78% dos estudantes que freqüentavam as escolas públicas do país eram brancos e 22% faziam parte de minorias, uma categoria que incluía negros, latinos, asiáticos, oriundos das Ilhas do Pacífico e "outros", segundo as estatísticas do Departamento de Educação. Em 2004, o último ano para o qual há dados disponíveis, 57% de todos os alunos de escolas públicas eram brancos, enquanto 43% faziam parte de minorias.

O departamento não projeta dados étnicos e raciais para escolas primárias e de ensino médio, disse Val Plisko, uma comissária associada do Centro Nacional de Estatísticas da Educação.

Mas se a tendência continuar com a dos últimos 30 anos, os estudantes de minorias étnicas provavelmente superarão em número os estudantes brancos em mais ou menos uma década. Em seis Estados -Califórnia, Havaí, Louisiana, Mississippi, Novo México e Texas- eles já superam.

As escolas públicas do país também reuniram uma mistura extraordinária de estudantes no final do século 19 e início do século 20, quando primeiro obtiveram a reputação de cadinhos de raças, disse William J. Reese, um professor de história da Universidade de Wisconsin.

No início do século 20, o senador William Dillingham, republicano de
Vermont, tentou medir a diversidade. Ele liderou uma comissão que estudou as escolas públicas durante o ano letivo de 1908-09 como parte de sua campanha para restringir a imigração de católicos e judeus das regiões sul e central da Europa, categorizando estudantes como de origem americana ou estrangeira.

A comissão apontou que em poucas dezenas de cidades grandes, 42% dos
estudantes eram de origem americana, enquanto 58% eram de origem
estrangeira, disse Reese. A comissão não fez nenhum esforço para contar
estudantes de fora das cidades, ele disse.

Fazer comparações entre as escolas do século 21 e as que operavam na época de Dillingham é difícil, porque as práticas de relatórios mudaram
drasticamente.

"Mas", disse Reese, "nós podemos dizer que os estudantes de hoje são os mais étnica e racialmente diversos que as escolas do país educaram em quase um século". George El Khouri Andolfato

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