UOL Notícias Internacional
 

29/08/2006

Herói da direita inflama partido em relação aos imigrantes

The New York Times
Jason DeParle

em Muncie, Indiana
Ele apóia as reduções de impostos e a guerra no Iraque. Ele é contra a pesquisa de células-tronco e o plano de medicamentos prescritos do Medicare. Ele é um mestre dos programas de rádio de seu movimento. Jesus Cristo é seu salvador pessoal e Ronald Reagan seu ídolo político.

Imagine o que poderia ser chamado de conservador perfeito e as chances são de que ele se pareceria muito com o deputado Mike Pence, republicano de Indiana, que em apenas três mandatos transformou 100 aliados na Câmara em uma vanguarda e a si mesmo em uma das estrelas ascendentes do partido.

Ou este era o caso até o primeiro semestre deste ano, quando ele buscou um acordo no rancoroso debate da imigração. Seu plano complicado fortaleceria a segurança nas fronteiras e enviaria os imigrantes ilegais de volta aos seus países de origem, mas deixaria a maioria deles voltar rapidamente. De lá para cá, Pence -chamado no ano passado de Homem do Ano pelo semanário conservador "Human Events"- tem parecido a alguns conservadores como o traidor deste ano. Eles dizem que ele emprestou seu prestígio conservador a uma forma de anistia liberal.

Phyllis Schlafly, do Eagle Forum, chamou seu plano de "uma piada doentia". Richard A. Viguerie, o pioneiro da mala direta, ameaçou punir políticos que o apóiem. Pat Buchanan, editor da revista "The American Conservative", comparou a traição a uma cena de "O Poderoso Chefão".

Perpetuamente cordial, prematuramente grisalho, Pence, 47 anos, disse: "Eu fiquei desconcertado com o nível dos ataques", enquanto enfatizava que o que está em jogo vai além dele.

"É um teste de caráter do movimento conservador no século 21", ele disse. "Nós vamos provar que acreditamos nas idéias cultuadas na Estátua da Liberdade ou o povo americano se voltará para outro lugar."

Pence -que se rotula de "cristão, conservador e republicano, nesta ordem"- promoveu o plano em uma recente viagem pelo seu distrito. Ele citou a Bíblia. Ele citou Ronald Reagan. Ele esteve suando em uma plantação de tomates ao lado de trabalhadores mexicanos. E quando lhe foi perguntado por que um deputado de Indiana estava preocupado com a fronteira, ele respondeu com uma frase pronta: "11 de abril de 1923".

Foi quando seu avô irlandês, Richard Michael Cawley, um motorista de ônibus de Chicago, chegou à Ilha Ellis. "Nós éramos muito próximos", disse Pence, que acrescentou que vê a frugalidade e o trabalho árduo de seu avô na atual geração de imigrantes.

Alguns membros da Câmara de Comércio de Muncie tinham dúvidas. Alguns se preocupavam com o custo. Alguns se queixaram da condescendência. Mas vários o parabenizaram por tratar de uma causa difícil.

"É o maior privilégio da minha vida representar vocês", disse Pence.

Apesar de vir de uma família de democratas católicos irlandeses -seu pai dirigia uma rede de postos de gasolina- Pence ingressou em um grupo
evangélico no Hanover College, atraído não pelas diferenças teológicas, mas pelo estilo mais pessoal de adoração. Sua religião o conduziu para a direita. "Eu tive dificuldade de conciliar meu compromisso com a verdade bíblica com o compromisso do Partido Democrata nacional com o aborto por demanda", ele disse.

Sua esposa, Karen, leciona em uma escola religiosa e envia e-mails pedindo orações aos seus eleitores. "Por favor, rezem para que o Espírito Santo fale por meio dele no churrasco", pedia uma mensagem recente.

Pence, dois anos após concluir a faculdade de Direito, concorreu pela
primeira vez ao Congresso em 1988 e perdeu por margem estreita para o
deputado democrata Phil Sharp, ocupante da cadeira há muito tempo. Ele
tentou novamente dois anos depois, em uma campanha negativa que lhe valeu apenas 42% dos votos. Pence ficou arrasado.

"O que me foi mais doloroso foi a bile na minha garganta pela forma como respondi", ele disse. "Minha fé me diz que se alguém lhe bate na face, você deve dar a outra. Minha resposta, após ser atacado pelo meu oponente, foi esvaziar os silos sobre o sujeito."

Pence fez sua penitência incomum em um artigo chamado "Confissões de um
Candidato Negativo". Então ele passou a dirigir um grupo de pesquisa
conservador, a Fundação para Análise de Políticas de Indiana, e foi
apresentador de um programa de rádio em Indianápolis. A cadeira no Congresso ficou disponível novamente em 2000 e Pence conseguiu se eleger -com civilidade, ele disse.

"Eu sou conservador, mas não sou louco por causa disto", Pence diz com
freqüência.

Ao chegar a Washington, ele ficou atônito com o apoio dos conservadores à expansão do governo. Em 2001, ele foi um dos 34 republicanos que se opuseram à Lei Nenhuma Criança para Trás, que expandia o envolvimento federal na educação. Em 2003, ele foi um dos 25 que se opuseram ao benefício de medicamentos prescritos do Medicare, o seguro saúde público para idosos e inválidos. "Eu votava contra o grande governo conservador antes disto ser bacana", disse Pence.

Os líderes no Congresso ameaçavam represálias, mas a base aplaudia,
especialmente após um discurso em 2004 na Conferência de Ação Política
Conservadora, onde Pence alertou que o movimento estava entrando nas "águas perigosas e não mapeadas do grande governo".

Entre os conquistados estava Paul Weyrich, chefe da Fundação Congresso Livre e uma figura importante do movimento conservador. Ele disse que Pence tinha forte apelo entre os eleitores de quatro importantes causas conservadoras: governo limitado, livre empresa, defesa forte e valores tradicionais.

"Ninguém é perfeito, mas ele chega perto", disse Weyrich. "Ele é o que eu estava esperando em termos de liderança."

No ano passado, Pence se tornou chefe do Comitê de Estudos Republicanos, um grupo conservador. Ele expandiu rapidamente o perfil do comitê e o seu próprio, como notaram seus rivais. Pence, diferente de muitos conservadores, corteja a mídia.

Sua influência ficou aparente no ano passado, após o furacão Katrina, quando Washington ficou repentinamente cheia de conversa sobre nova ajuda aos necessitados. Preocupado com o custo, o grupo de Pence respondeu com a "Operação Compensação", um plano para cortar US$ 500 bilhões ao longo de 10 anos de programas que incluem o Medicaid (o seguro saúde público para pessoas de baixa renda), deduções tributárias para os pobres e atendimento para pessoas com Aids.

O plano ultrajou a liderança, que o acusou de exibicionismo, e não foi
aprovado. Mas mudou rapidamente a dinâmica política, de criação de programas para o corte deles. Cinco meses depois, com Pence nas proximidades, o presidente Bush sancionou um pacote que cortava US$ 39 bilhões em cinco anos. "Eu acho que a Operação Compensação teve algo a ver com isto, apesar de que nunca me gabarei disto", disse Pence.

Edwin J. Feulner Jr., presidente da Fundação Heritage, um grupo conservador em Washington, disse que Pence "realmente teve papel central na retomada dos princípios do conservadorismo na Câmara".

Admiradores até mesmo criaram um site "Mike Pence para Presidente".

Mas alguns colegas reclamam do que chamam de autopromoção e os críticos na esquerda vêem aspereza e hipocrisia por trás da cordialidade. Robert
Greenstein, diretor executivo do Centro para Políticas Prioritárias e
Orçamento, um grupo liberal em Washington, disse que apesar do esforço
republicano ter sido rotulado de redução do déficit, ele na verdade tornou o déficit maior. Isto porque as reduções de gastos foram acompanhadas por um corte de US$ 70 bilhões em impostos, a maioria favorecendo a classe alta. "Isto se trata de Robin Hood ao contrário", disse Greenstein.

Barry Welsh, o oponente democrata de Pence nas eleições de novembro, é um pastor metodista que disse: "Eu considero hipocrisia ele alegar cristianismo enquanto "corta os benefícios daqueles que necessitam deles".

Pence argumentou que a redução de impostos ajuda os pobres ao estimular
economia. Isto ainda poderá se mostrar correto, mas apesar dos grandes
cortes de impostos, o índice de pobreza cresceu nos últimos quatro anos.

"Isto é um fato", disse Pence, contando uma história que o presidente Reagan contou sobre um encanador feliz em ver os ricos prosperarem, "porque nunca fui contratado por um pobre".

Com os republicanos preocupados em perder o controle do Congresso após as eleições de novembro, alguns moderados dizem que a ala de Pence do partido se deslocou demais para a direita; conservadores como Pence e outros dizem que ao aceitarem o que chamam de grande governo, o partido não está seguindo suficientemente seus princípios conservadores.

Quando Pence ingressou na imigração neste ano, a questão, como grande parte da agenda republicana, estava emperrada e os republicanos profundamente divididos. A Câmara aprovou um projeto voltado apenas para a segurança na fronteira. O Senado aprovou uma medida mais ampla incluindo um programa de trabalhadores convidados e um caminho para a cidadania para os imigrantes ilegais que já estão no país.

Pence tentou oferecer algo para todos. Ele incluiu medidas para reforçar as fronteiras e deu ao governo dois anos para implementá-las. Depois disto, um programa de trabalhadores convidados teria início.

Aqueles que estão aqui ilegalmente teriam que deixar o país e se inscrever em "Centros Ilha Ellis" -agências de empregos, a maioria no México, dirigidas por empresas privadas. Ao exigir a reentrada, argumentou Pence, o plano evita a anistia e respeita a regra da lei. Os vistos de trabalhador convidado, válidos por seis anos, poderiam ser renovados, com oportunidade de cidadania após 17 anos.

Bush deu um sinal de aprovação ao convidar Pence a uma reunião no Escritório Oval. (Pence disse que não consultou a Casa Branca antes de propor seu plano.) E a proposta obteve apoio da senadora Kay Bailey Hutchison, uma republicana do Texas.

A idéia enfrentará, na melhor das hipóteses, uma batalha colina acima quando o Congresso se reunir na próxima semana. Mas Tamar Jacoby, um membro do conservador Instituto Manhattan, que considera promissora a abordagem de Pence, disse que sem ele "a questão estaria morta".

É o que temem seus críticos. O Team America, um comitê conservador de ação política, agora tem uma área em seu site chamada "Pence Watch" (Pence sob vigilância). O deputado Tom Tancredo, republicano do Colorado, disse que o plano encorajaria mais imigração ilegal e minaria a coesão cultural. Mas David Keene, o presidente da União Conservadora Americana, credita a Pence "coragem para não pensar de forma restrita" e prevê que sua posição o beneficiará politicamente.

Mas será que Pence teme que sua imagem conservadora possa ficar manchada?

"Não sou completamente imune a tal pensamento", disse Pence, a caminho de um evento para fotos em uma plantação de tomates em Orestes, Indiana. Então fez uma citação de Miquéias: "Pratiques a justiça e ames a benevolência". George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,29
    3,167
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h30

    -0,17
    74.318,72
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host