UOL Notícias Internacional
 

29/08/2006

Na Síria, religião e mulheres procuram expandir sua influência

The New York Times
Katherine Zoepf

em Damasco, Síria
Enas Al Kaldi pára no corredor de sua escola islâmica para meninas e pacientemente ensina uma colega de 6 anos a fazer uma breve recitação do Alcorão.

"É verdade que não entendem o que estão memorizando nesta idade, mas acreditamos que a compreensão vem quando o Alcorão se torna parte de você", disse com orgulho Kaldi, que tem 16 anos.

Em outras partes de Damasco, mulheres que se identificam pela forma como amarram seus lenços na cabeça, reúnem-se para encontros de uma sociedade islâmica exclusiva e secreta conhecida como Qubaisiate.

Ali, aprendem mais sobre sua fé e até como influenciar seus pais e maridos a aceitarem maior presença do islã na vida pública, dizem as participantes.

Essas são duas faces de um renascimento islâmico para as mulheres na Síria, que pode ser mais um desafio poderoso a este Estado que já foi determinadamente secular. Apesar de o governo negar terminantemente, a Síria está se tornando cada vez mais religiosa, e sua identidade secular nacional está se enfraquecendo. Se o islã substituir essa identidade, pode minar a unidade da sociedade que é governada por uma minoria religiosa muçulmana, os Alawitas, e contém muitos grupos religiosos diferentes.

Os sírios, que acompanharam de perto enquanto a Hezbollah levou o Líbano para a guerra, estão dolorosamente conscientes das variadas formas que a autoridade do Estado pode ser minada por grupos religiosos cada vez mais poderosos e sedutores. Apesar de apoiar a Hezbollah, o governo sírio vem tomando medidas para assegurar que o fenômeno que ajudou a construir no Líbano não venha assombrá-lo em casa.

No passado, "diziam que tínhamos que deixar o islã para trás para encontrar nossos futuros. Mas atualmente, se você pergunta à maior parte das pessoas na Síria sobre sua história, elas dirão: 'Minha história é a história islâmica'. A geração mais jovem está toda lendo o Alcorão", disse Muhammad Al Habash, legislador sírio e clérigo muçulmano.

As mulheres estão na vanguarda. Apesar de os homens no mundo islâmico em geral interpretarem as escrituras e liderarem as preces, a Síria, virtualmente sozinha no mundo árabe, está vendo a ressurreição de uma tradição de séculos de sheikhas, ou mulheres acadêmicas religiosas. O crescimento de madrasas para meninas ultrapassou o de meninos, dizem os professores religiosos.

Não há estatísticas oficiais sobre precisamente quantas das 700 madrasas são para meninas. Mas de acordo com uma pesquisa de educação islâmica na Síria, publicada pelo jornal pan-árabe Al Hayat, há cerca de 80 dessas madrasas só em Damasco, atendendo mais de 75.000 mulheres e meninas, e cerca de metade são afiliadas ao Qubaisiate (pronuncia-se qu-bei-ci-aht).

Durante muitos anos, qualquer espécie de crença religiosa era vista com cepticismo. Os homens suspeitos de atividade islâmica são freqüentemente interrogados e presos. No entanto, sujeitar as mulheres a tal tratamento causaria uma revolta pública que o governo quer evitar. As mulheres tiraram vantagem de sua liberdade relativamente maior para formar grupos islâmicos, tornando-se uma força profundamente enraizada e potencialmente subversiva para disseminar práticas islâmicas mais estritas e conservadoras em suas famílias e comunidades.

Como os agentes de inteligência ainda monitoram reuniões privadas que envolvem discussões sobre o islã, grupos como o Qubaisiate freqüentemente reúnem-se clandestinamente, algumas vezes com mulheres vigiando a porta para impedir intrometidos.

O grupo tem o nome de sua fundadora, uma carismática sheikha síria, Munira Al Qubaisi.

Uma mulher que freqüentou encontros do Qubaisiate forneceu um relato geral das atividades do grupo. Rica, de 50 e poucos anos e morando em Damasco, ela pediu que seu nome não fosse divulgado por temer punições.

Meninas que levam sua fé a sério são convidadas por parentes ou colegas a participar de uma reunião, disse a mulher. Ali, a sheikha senta-se em uma plataforma elevada, fala sobre assuntos religiosos e responde perguntas.

As participantes do Qubaisiate amarram seus lenços de forma específica, deixando um volume de tecido sob o queixo. Quando progridem em seus estudos do islamismo e ganham estatura dentro do grupo, a cor de seus lenços muda. As novatas usam branco, em geral com casacos caqui, disse ela. Mais tarde elas passam a usar lenços azuis com casacos azuis. No estágio final, a sheikha pode permitir que se cubram inteiramente de preto.

Hadeel, de 20 e poucos anos que pediu para ser identificada apenas por seu primeiro nome, contou como sua melhor amiga de infância entrou para a 'irmandade' Qubaisi e estimulou-a a fazer o mesmo.

"Rasha ligava e dizia: 'Hoje vamos ao shopping'. Essa era uma senha significando que havia aula às 19h30", disse Hadeel. "Fui três vezes; era incrível. Elas ofereciam comida cara, só para adolescentes, antes da aula. E tinham Mercedes elegantes para levar você para casa depois."

Hadeel disse que primeiro ficou impressionada pela forma que o Qubaisiate, ostensivamente um grupo de preces feminino, parecia escolher filhas de famílias ricas e de influência e meninas que eram consideradas líderes potenciais.

"Eles querem pegar meninas de nome, das famílias poderosas", disse Hadeel. "No meu caso, me escolheram porque eu era boa aluna."

As mulheres que falaram sobre o Qubaisiate pediram que seus nomes não fossem usados porque o grupo é tecnicamente ilegal, apesar de aparentemente as autoridades estarem cada vez mais fazendo vista grossa.

"É um grande prestígio ser convidada a entrar para o Qubaisiate", disse Maan Abdul Salam, que faz campanha para os direitos da mulher.

Abdul Salam disse que tais grupos de prece secretas islâmicas recrutavam mulheres diferentemente, dependendo de sua posição social. "Eles ensinam as mulheres pobres a orar e a serem humildes diante dos maridos, mas ensinam as mulheres de classe alta como influenciar a política", disse ele.

A escola islâmica onde estuda Kaldi, a tutora de 16 anos, não tem uma agenda política explícita. Mas fica na mesquita Zahra, em um subúrbio ocidental de Damasco, um lugar onde floresce a devoção ao islã e a exploração do lugar da mulher dentro dele.

A escola é alegre e aconchegante, com carpete macio oriental e um monte de meninas correndo de meias. Kalid passa os verões, as férias e algumas tardes ali, estudando e ajudando as mais jovens a memorizarem o Alcorão. Seu trabalho de tutora fez dela uma figura importante neste mundo; muitas das meninas a cumprimentam timidamente quando passam por ela.

A escola aceita meninas a partir dos 5 anos, que começam a memorizar o Alcorão do final, onde estão os versos mais curtos. As jovens são ensinadas com a ajuda de gestos, brincadeiras e doces.

O ambiente é relaxado. As crianças lancham enquanto estudam, e a sala reverbera com o som de vozes agudas recitando em uníssono. Várias meninas, preparando-se para os testes para passar para as classes mais altas, balançam em torno das colunas que suportam o telhado da mesquita, murmurando versos altos para si mesmas.

Depois que as meninas na escola Zahra decoram o Alcorão, elas aprendem a recitar o livro sagrado com o ritmo e cadência certos, um processo chamado "tajweed", que em geral leva vários anos de estudo dedicado. Ao longo do caminho, aprendem os princípios do raciocínio alcorânico.

É esta arte de raciocínio alcorânico que mais as distingue das gerações anteriores de muçulmanas, dizem Kaldi e suas amigas.

Fátima Ghayeh, 16, quer ser designer e é a melhor amiga de Kaldi. Ela acredita que "a geração mais velha", ou seja, entre 20 ou 30 anos, freqüentemente permitia que seus pais e maridos ditassem a fé para elas.

Elas cresceram antes do movimento de renascimento islâmico que varreu a Síria e, como resultado, muitas delas não têm uma sensação de propriedade intelectual do ensinamento islâmico, da mesma forma que suas irmãs mais jovens.

"Eles diziam às meninas mais velhas: isso é o islã e vocês devem cumpri-lo", disse Ghayeh. "Elas realmente acreditam que não podem fazer perguntas."

"É porque há 10 anos a Síria estava de fato fechada, e não havia tantas escolas islâmicas. Mas a sociedade mudou. Hoje as meninas estão dizendo:
'Queremos fazer algo com o islã e para o islã'. Somos mais ativas, fazemos mais perguntas."

Ghayeh e Kaldi lembram-se emocionadas do dia em que, no início do mandato do presidente Bashar Assad, foi aprovada a lei permitindo o uso dos lenços islâmicos nas escolas públicas, uma prática que era proibida no governo de seu pai, Hafez Assad. O atual presidente, que assumiu em 2000, também reduziu as horas de aulas que os alunos devem ter por semana sobre a ideologia do partido governante, o Baath, e começou a permitir que soldados rezassem nas mesquitas.

Essas mudanças fizeram sucesso entre os sunitas, 70% da população do país, mas carregam riscos políticos para um governo que há muito é alérgico a demonstrações públicas de fervor religioso.

Nos últimos anos, o governo tem estado ansioso em demonstrar que não teme tanto o islã, por meio de mudanças como essas e por referências crescentes à herança islâmica da Síria em discursos oficiais.

Durante as semanas de guerra entre Israel e Hezbollah, o governo usou freqüentemente referências à causa islâmica e à "resistência libanesa", como chamou a Hezbollah na mídia controlada pelo Estado. Mas ainda fica profundamente ansioso com grupos islâmicos que agem fora do aparato do Estado e a ameaça que podem impor ao controle do Estado.

As meninas na madrasa dizem que, ao mergulharem mais profundamente em sua fé, aprendem sobre seus direitos dentro do islã.

Nos cursos mais elevados na escola de Zahra, as meninas debatem assuntos tais como se uma mulher tem o direito de votar diferentemente do marido. A questão é vazia na Síria, brincou uma aluna, porque o presidente Assad inevitavelmente vence as eleições por miraculosos 99%, assim como acontecia com o pai dele. Outra questão debatida é se uma menina de morais questionáveis tem o direito de usar o lenço na cabeça.

Elas dizem que podem argumentar sobre o Alcorão em pé de igualdade com os homens.

"As pessoas confundem tradição com religião", disse Kaldi. "Os homens estão sempre dizendo: 'As mulheres não podem fazer isso por causa da religião', quando de fato é apenas tradição. É importante para nós estudar para sabermos a diferença." Deborah Weinberg

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