UOL Notícias Internacional
 

30/08/2006

No aniversário do Katrina, Bush assume "plena responsabilidade" por demora na ajuda

The New York Times
Anne Kornblut e Adam Nossiter

em Nova Orleans
O presidente Bush, ainda não medindo esforços para demonstrar sua
preocupação com a devastação provocada pelo furacão Katrina um ano após a tempestade, disse assumir "plena responsabilidade" pela lenta resposta federal ao desastre enquanto realizava uma peregrinação cuidadosamente coreografada à cidade que mais sofreu, na terça-feira.

Enquanto sinos tocavam pelas ruas, cidadãos se reuniram para serviços
religiosos e moradores penduravam faixas diante de suas casas em pedaços para marcar o aniversário da tempestade, Bush buscou fazer o que não fez um ano atrás: demonstrar o grau de sua compreensão do ônus físico e emocional do Katrina sobre Nova Orleans.

"Eu voltei a Nova Orleans para lhes dizer que as palavras que disse em
Jackson Square são tão verdadeiras hoje quanto antes", ele disse para um público em grande parte amistoso no colégio Warren Easton, se referindo ao seu grande discurso sobre a tempestade em setembro do ano passado. Tal discurso, que foi um evento cuidadosamente planejado realizado após a maioria das vítimas ter morrido, foi visto como um momento decisivo pelos assessores da Casa Branca, que reconheceram o prejuízo político causado pela reação falha do governo.

"Eu voltei para deixar claro às pessoas que entendo que estamos marcando o primeiro aniversário da tempestade, mas este aniversário não é um fim. Assim, voltei para dizer que permaneceremos ao lado do povo do sul da Louisiana e do sul do Mississippi até os trabalhos serem concluídos", ele disse.

Falando em uma antiga escola pública que foi reconstruída como escola
privada após a tempestade, Bush reiterou sua aceitação de que, no final, ele foi o responsável pela forma como o governo federal lidou com um furacão que matou mais de 1.700 pessoas por toda a área do Golfo e deixou centenas de milhares de deslocados. "Eu assumo plena responsabilidade pela resposta do governo federal e, um ano atrás, eu fiz uma promessa de que aprenderemos as lições do Katrina e que faremos o que for necessário para ajudar vocês a se recuperarem", disse Bush, obtendo aplausos da platéia.

Ele também disse que tentará conceder à Louisiana uma maior participação na receita do petróleo em alto-mar e pediu às empresas que retornem à região.

Em sinal de respeito ao extraordinário passado cultural da cidade, Bush
visitou o lar do lendário músico Fats Domino, no 9º Distrito, e escutou uma banda de metais. Ele conversou sobre restaurar a "alma" de Nova Orleans, mesmo enquanto era forçado a reconhecer que grande parte dos danos ainda não foi reparado. A cidade, ele disse, está chamando seus filhos de volta ao lar.

"Eu sei que vocês amam Nova Orleans e Nova Orleans precisa de vocês", disse Bush. "Ela precisa que as pessoas voltem para casa. Ela precisa que as pessoas -ela precisa que os santos marchem de volta, é o que ela precisa."

Mas ele não se desviou muito do roteiro, nem se aventurou espontaneamente para fora de sua carreata à medida que ela passava pelas áreas de maior destruição no 9º Distrito, onde fileiras de casas evisceradas permaneciam vazias ao longo de ruas desertas.

Em vez disso, em uma série de eventos positivos voltados a ressaltar o
progresso, Bush adotou um tom otimista -às vezes quase desafiador. Ele
retratou o aniversário como um ponto de partida, se esquivando das perguntas sobre os resultados lentos. E apesar de ter se visto diante de vários detratores ao longo do dia, incluindo uma grande faixa que dizia "Fracasso de Bush" enquanto sua carreata passava, Bush manteve sua atenção nos futuros progressos. Ele se encontrou privativamente com vários moradores, mas a Casa Branca não revelou o conteúdo das conversas.

Longe da excursão presidencial, havia choro privado em algumas das ruínas do 9º Distrito e, na Prefeitura, famílias enfurecidas assinaram uma faixa gigante com centenas de flores-de-lis, o símbolo da cidade, uma para cada vítima. Exatamente às 9h38 da manhã, o prefeito C. Ray Nagin soou um grande sino prateado nos degraus da Prefeitura para marcar o rompimento catastrófico do primeiro dique.

Abraçados aos entes queridos em casa, participando da cerimônia sob o calor ou apenas trabalhando em seus lares, cada cidadão, ao que parece, refletiu na terça-feira sobre o desastre de um ano atrás que alterou o modo de vida daqui, mesmo que não para sempre.

Com sua tranqüilidade, calor e brisa, foi um dia diferente daquele cheio de ventos violentos e indícios sombrios de catástrofe de um ano atrás. Nos bairros na terça-feira, as obras prosseguiam, dolorosa e desafiadoramente, sob um calor de quase 38 graus. Prosseguir na reconstrução, como muitos fizeram questão de demonstrar na terça-feira, também foi uma forma de marcar a data -ao não se deixar vencer pelo desastre e suas conseqüências. Vários disseram que havia coisas muito mais importantes a fazer no dia do que participar dos eventos no centro.

"Todas estas coisas são para a TV; ninguém na cidade tem tempo para tolices como estas", disse John Parker, um músico, diante de sua casa, que enfrentou mais de um metro de altura de água, em um quarteirão arruinado na Upperline Street. "Eu imaginei que seria um bom dia para prosseguir no conserto da casa", ele disse. "Então acordei e marquei com nosso eletricista." Ele e sua esposa limparam o local meses atrás, mas ainda levará meses para que possam se mudar de volta."

A parada memorial estava apenas começando no centro, mas Robert P. Davis, um inspetor de eletricidade, não estava participando. "Eu estou trabalhando na minha casa, é o que estou fazendo", ele disse de forma brusca, a um quarteirão da Marengo Street, para onde poucos vizinhos voltaram. "O que aconteceu, aconteceu", ele disse, mostrando orgulhosamente sua casa, atualmente apenas na estrutura. Por ora seus aposentos ficam no trailer da Agência Federal de Gestão de Emergências no quintal. "Nós temos que seguir em frente", disse Davis.

Outros não estavam tão certos de que isto é possível, ao menos por ora. "É um grande dia para todos", disse Kirk Reasonover, um advogado, atravessando apressadamente a Camp Street, no centro. Exilado da cidade e de sua casa por quase quatro meses, ele estava determinado a "passar algum tempo com minha família" neste dia. "Todos os que estavam aqui em 27 e 28 de agosto de 2005 estão pensando a respeito", disse Reasonover. "Foi um daqueles momentos dos quais você nunca esquece."

A cidade não precisa de lembranças da tempestade -elas estão por toda a
parte. Mas a data em si, freqüentemente citada desde a tempestade, é um jogo particular de memória. A terça-feira foi especial neste sentido e muitos aqui, incluindo Nagin, a sentiram. Esse foi um momento difícil para a cidade, disse o prefeito. "Eu pessoalmente tenho muita dificuldade com isto", ele disse para várias centenas de pessoas reunidas nos degraus da Prefeitura.

O dia de Bush -mais um turbilhão de imagens e sons do que substância-
começou com uma missa memorial na Catedral-Basílica de São Luis, na Jackson Square, e concluiu com Bush voltando para seu rancho em Crawford. Após dar a Fats Domino -que por alguns dias muitos temeram ter morrido na tempestade- uma réplica da Medalha Nacional de Artes que ele perdeu na tempestade, ele passou por casas destruídas até chegar a uma área de casas recém-construídas pelos voluntários da Habitat para a Humanidade.

Após passar a noite em seu rancho, Bush passará o restante desta semana se afastando do furacão Katrina e se voltando a outro marco de sua presidência: os ataques terroristas de 11 de setembro. Ele deverá fazer paradas de campanha em Arkansas e Tennessee na quarta-feira, antes de fazer aquele que espera-se que seja um grande discurso sobre terrorismo, na quinta-feira em Salt Lake City.

Bush teve pelo menos uma discussão com uma moradora local, que fez
referência à resposta fracassada no ano passado e ao papel dele naquilo, em uma casa de panquecas onde ele fez seu café da manhã na terça-feira. Enquanto ele passava pelas mesas no evento, uma garçonete lhe perguntou: "Sr. Presidente, o senhor vai dar às costas para mim?"

"Não, senhora", disse Bush, rindo e fazendo uma pausa. "Não de novo." George El Khouri Andolfato

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