UOL Notícias Internacional
 

31/08/2006

A nova era: apostando na longevidade

The New York Times
Gina Kolata
Josephine Tesauro nunca pensou que viveria tanto.

Aos 92, ela tem a coluna ereta, a mandíbula firme e saúde vibrante, mora sozinha em uma casa de tijolos imaculada, no alto de uma montanha em Mount Pleasant, um subúrbio de Pittsburgh. Ela trabalha meio período em uma loja de lembranças em um hospital e dirige seu Oldsmobile Cutlass Ciera branco, de 1995, para os encontros dos seus quatro grupos de bridge, para a igreja e para a mercearia. Ela viveu mais que o marido, que morreu há nove anos, deixando-a com 84. Ela também superou os amigos, e três de seus seis irmãos.

Tesauro, no entanto, tem uma irmã viva, gêmea idêntica. Mas ela e sua gêmea não são mais tão idênticas. Sua irmã sofre de incontinência, teve que substituir um quadril e tem um distúrbio degenerativo que destruiu grande parte de sua visão. Ela também tem demência.

"Ela simplesmente não entende", disse Tesauro.

Mesmo os pesquisadores que estudam o envelhecimento ficam fascinados com essas histórias. Como podem duas pessoas com os mesmos genes, crescendo na mesma família, vivendo no mesmo lugar, envelhecerem de forma tão diferente?

A opinião científica do que determina a extensão da vida ou como uma pessoa envelhece vem oscilando. Primeiro, há umas duas décadas, a ênfase era no ambiente, dieta saudável, exercícios, cuidados médicos. Depois, a opinião mudou para os genes. A idéia era que, se você herdasse a combinação certa de genes, poderia comer bifes gordurosos e fumar charutos e viver até os 100.

Essa noção se disseminou e hoje em dia muitas pessoas apontam para um ou outro ancestral que viveu muito e assumem que têm um dom genético para a longevidade.

Mas estudos recentes revelam que os genes podem não ser tão importantes em determinar quanto tempo alguém vive e se uma pessoa terá certas doenças -exceto, talvez, em algumas famílias excepcionalmente longevas. Isso significa que, em geral, é impossível dizer quanto tempo uma pessoa vai viver com base em quanto tempo seus parentes viveram.

A duração da vida não é um traço fortemente herdado, como a altura, diz James W. Vaupel, que dirige o Laboratório de Sobrevivência e Longevidade do Instituto Max Planck.

"A altura dos pais comparada com a estatura média explica 80 a 90% de sua altura em relação às pessoas comuns", disse Vaupel. Por outro lado, "apenas 3% da extensão de sua vida pode ser explicado pelo tempo que seus pais viveram".

"Você realmente descobre muito pouco sobre a sua expectativa de vida pela extensão da vida de seus pais", disse Vaupel. "Isso é o que mostram as evidências. Até gêmeos idênticos morrem em épocas diferentes" -em média, mais de 10 anos de diferença, disse ele.

A razão provável é que a duração da vida é determinada por uma combinação tão complexa de eventos que não há uma forma precisa de prever a expectativa de vida para os indivíduos. Os fatores incluem predisposição genética, doença, nutrição, saúde da mãe durante a gravidez, ferimentos e acidentes e eventos ao acaso, como uma mutação em um gene de uma célula que por fim provoque um câncer.

O resultado é que pessoas mais velhas podem parecer ser derrubadas por muitas razões, ou por razão nenhuma. Algumas podem ser mais vulneráveis que outras e está claro que os mais frágeis têm maior probabilidade de morrer antes. Mas existem aqueles entre os frágeis que, de alguma forma, continuam vivendo. E há pessoas aparentemente saudáveis que morrem subitamente.

Algumas doenças, como Alzheimer e doença cardíaca precoce que são mais ligadas a históricos familiares do que outras, como a maior parte dos cânceres e Parkinson. Mas a predisposição não é garantia que um indivíduo vai desenvolver a doença. A maior parte, de fato, não desenvolve a doença para a qual tem predisposição. E mesmo quando isso acontece, não significa que a pessoa morrerá da doença.

Há, é claro, algumas generalizações válidas. Na média, por exemplo, homens obesos que fumam morrem mais cedo do que mulheres magras e ativas que nunca chegam perto de um cigarro. Mas para o indivíduo, não dá para dizer quem vai ter o que ou quem sucumbirá e quem permanecerá.

"Somos muito bons em prever em nível de grupo", disse Kaare Christensen, professor de epidemiologia da Universidade do Sul da Dinamarca. "Mas somos realmente ruins no nível individual."

Os pesquisadores vêm tentando há décadas descobrir se realmente há uma ligação genética forte para a extensão da vida e, em caso afirmativo, até que ponto.

Eles voltaram seus estudos para famílias, mas as análises dos dados têm sido difíceis e as respostas definitivas também. Se os membros de uma família tendem a viver muito, é porque compartilham alguns genes ou porque vivem no mesmo ambiente?

"Será uma boa posição socioeconômica, boa saúde ou bons genes?" perguntou Christensen. "Como você pode resolver esse nó?"

Sua solução, clássica na ciência, foi estudar gêmeos. A idéia era comparar gêmeos idênticos que compartilham todos os genes com irmãos fraternais, que compartilham só alguns. Para fazer isso, Christensen e seus colegas aproveitaram os registros detalhados que incluíam todos os gêmeos da Dinamarca, Finlândia e Suíça nascidos de 1870 a 1910. Esse estudo acompanhou os gêmeos até 2004 e 2005, quando quase todos tinham morrido.

Agora, Christensen e seus colegas analisaram os dados. Eles se restringiram aos gêmeos do mesmo sexo, para eliminar o problema causado pela tendência das mulheres de viverem mais que os homens. Isso os deixou com 10.251 pares de gêmeos do mesmo sexo, idênticos ou não. E isso foi suficiente para análises significativas mesmo em idades mais altas. "Fomos capazes de resolver o complemento genético", disse Christensen.

Entretanto, a influência genética foi muito menor que a maioria das pessoas, até a maior parte dos cientistas, esperava. Os pesquisadores divulgaram suas conclusões em recente artigo publicado na revista Human Genetics. Gêmeos idênticos tinham idades ligeiramente mais próximas quando morreram do que gêmeos fraternos.

Mas, disse Christensen, até entre gêmeos idênticos "a ampla maioria morre com anos de diferença".

O Instituto Nacional de Envelhecimento está iniciando um projeto de pesquisa com investigadores em três clínicas médicas e no centro de Christensen na Dinamarca. O plano é descobrir famílias excepcionais, nas quais haja um núcleo de parentes muito velhos -duas irmãs com 90 anos, por exemplo- cujos filhos e netos também possam ser estudados.

Hoje, muitas famílias têm alguns membros de idades avançadas, mas poucas famílias têm muitos. Em famílias grandes, uma pessoa pode viver, apenas por acaso, até depois dos 90, mas é improvável que a maior parte dos irmãos e irmãs cheguem lá. Para essas famílias, não parece haver um componente genético determinando a duração da vida.

Por enquanto, o estudo está em fase piloto, testando um sistema de pontuação para definir as famílias que preenchem os critérios.

"Se você é realmente velho, recebe mais pontos", disse Hadley. "Você ganha mais pontos por ter 97 anos do que por ter 92. Mas também estamos estudando toda a estrutura familiar. Se houver apenas dois filhos em uma família e os dois tiverem mais do que 98 anos, isso é excepcional. Mas suponha que tenhamos oito irmãos e todos chegaram a 87. Isso também é bastante incomum." Deborah Weinberg

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