UOL Notícias Internacional
 

31/08/2006

EUA e seus aliados se mobilizam para propor sanções contra o Irã

The New York Times
Helene Cooper e David E. Sanger

em Washington
Com o Irã desafiando um prazo que expira nesta quinta-feira (31/08) para que suspenda a produção de combustível nuclear, os Estados Unidos e três aliados europeus estão elaborando uma lista de sanções que poderão apresentar ao Conselho de Segurança da ONU, a começar por restrições à importação de material nuclear.

As medidas punitivas poderão ser expandidas, chegando à restrição de viagens de líderes iranianos, ou à limitação do acesso do país aos mercados financeiros globais, segundo autoridades diplomáticas que estão envolvidas nas conversações e que solicitaram que os seus nomes não fossem divulgados.

Além das medidas no âmbito do Conselho de Segurança, o governo Bush está também tentando persuadir as instituições financeiras européias a suspender novos empréstimos ao Irã. Alguns bancos suíços já começaram discretamente a concordar com a limitação de créditos, segundo autoridades norte-americanas.

Mesmo que se chegue a um acordo entre Estados Unidos, Reino Unido, França e Alemanha, a mobilização pela imposição de sanções enfrenta um grande obstáculo no Conselho de Segurança, devido ao poder de veto da Rússia e da China, e à oposição destes dois países a punições sérias ao Irã.

Além disso, as iniciativas pela aplicação de sanções podem também ser prejudicadas por um relatório a ser divulgado na quinta-feira pela Agência Internacional de Energia Atômica, no qual os inspetores descreverão o lento progresso feito pelos iranianos no programa de enriquecimento de urânio.

O relatório - segundo diplomatas que conhecem o seu conteúdo - descreverá como o Irã voltou a produzir pequenas quantidades de urânio enriquecido, após ter suspendido temporariamente essas atividades no segundo semestre deste ano, não tendo entretanto aumentado o ritmo da produção.

Além do mais, o relatório deverá informar que o grau de pureza do urânio enriquecido não será suficiente para a utilização em armamentos nucleares, mas apenas em usinas de geração de energia. O Irã vem insistindo há muito tempo que o seu programa tem apenas fins pacíficos.

"A grande questão é saber por que eles parecem estar se movimentando tão vagarosamente", disse uma das autoridades européias que estiveram envolvidas com o monitoramento do progresso iraniano no setor nuclear. Segundo a autoridade, uma explicação é que os iranianos não quiseram acirrar o confronto com o Conselho de Segurança, o que ocorreria caso parecessem se apressar para produzir urânio enriquecido.

Outras explicações, fornecidas por alguns funcionários do governo Bush, são que os cientistas do país esbarraram em problemas técnicos, ou que eles estão escondendo algumas das suas centrais de produção. O mistério aumentou com as recentes restrições impostas pelo Irã no que diz respeito aos locais que podem ser visitados pelos inspetores internacionais, e com a recente recusa do país em permitir que esses inspetores observassem as instalações que declarou que não estavam vinculadas ao seu programa nuclear.

O relatório da agência atômica deve expor detalhadamente questões que o Irã não respondeu quanto às suspeitas atividades nucleares que o país se recusou a mostrar aos inspetores internacionais.

Autoridades européias e norte-americanas afirmam, por exemplo, que o Irã se recusou a explicar a alegação feita no início deste ano pelo presidente Mahmoud Ahmadinejad de que o país tinha um ativo projeto de pesquisas em andamento, com a utilização de um tipo avançado de centrífuga de enriquecimento obtida do cientista nuclear paquistanês Abdul Qadeer Khan.

Em uma entrevista, R. Nicholas Burns, o subsecretário de Estado para Assuntos Políticos, disse que quando o relatório da agência for divulgado nesta quinta-feira, o argumento dos Estados Unidos se centralizará na recusa oficial iraniana neste mês em cancelar o enriquecimento de urânio, apesar de um ultimato internacional.

"O único critério que importa é saber se eles atenderam as exigências apresentadas pelo Conselho de Segurança", disse Burns. "E isso eles não fizeram".

Segundo autoridades norte-americanas e européias, a lista de sanções propostas começará com medidas de baixo impacto, que têm como alvo específico o programa nuclear iraniano. Elas incluiriam um embargo às vendas de produtos vinculados à área nuclear ao Irã, o congelamento de bens iranianos no estrangeiro e a proibição de viagens de autoridades iranianas diretamente envolvidas no programa.

As vendas norte-americanas ao Irã estão restritas desde a crise dos reféns norte-americanos em Teerã. Mas empresas européias e russas venderam tecnologia para o incipiente programa nuclear civil iraniano, e autoridades norte-americanas disseram na quarta-feira (30/08) que não se sabe ao certo se as sanções obrigariam a Rússia, por exemplo, a deixar de ajudar o Irã a concluir o seu reator nuclear em Bushehr.

O projeto Bushehr representa lucros de centenas de milhões de dólares para a Rússia, e o governo do presidente Vladimir V. Putin deverá argumentar que as sanções não podem afetar projetos civis que já estejam em andamento. "O cancelamento de Bushehr seria a medida mais impactante dentre as sanções", afirma Robert J. Einhorn, assessor do centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, e ex-secretário assistente de Estado para Questões de Não Proliferação durante o governo do presidente Bill Clinton.

As autoridades norte-americanas acreditam que o debate no âmbito do Conselho de Segurança se estenderá por semanas, e dizem que ele poderá continuar até à abertura da Assembléia Geral da ONU, em meados de setembro, um evento que incluirá um discurso do presidente Bush e reuniões com outros chefes de Estado. O governo norte-americano está se preparando para usar esses encontros para exercer pressões pela adoção de sanções, assim como costumava fazer há quatro anos quando começou a construir os seus argumentos contra o Iraque.

Mas Rússia e China, entre outros países, estão preocupadas com qualquer escalada de um confronto com o Irã, liderada pelos Estados Unidos. No entanto, ao contrário dos esforços do governo Bush quatro anos atrás, as autoridades norte-americanas parecem estar evitando usar informações de inteligência para construir a sua argumentação. Em vez disso, elas estão citando as declarações públicas de Ahmadinejad e a recusa do Irã de acatar a resolução do Conselho de Segurança aprovada em julho, com o apoio da Rússia e da China, que exigiu a suspensão total do enriquecimento de urânio até 31 de agosto.

"A Rússia e a China não podem alegar que não concordaram com a imposição de sanções não militares caso o Irã se recuse a acatar as exigências", observou Einhorn.

Autoridades norte-americanas disseram que a secretária de Estado, Condoleezza Rice, recebeu garantias em junho de que a Rússia apoiaria, no mínimo, uma primeira fase de sanções brandas, caso o Irã se recusasse a atender às exigências.

Mas não se sabe se Rússia ou China aprovarão as sanções caso acreditem que isso os obrigue a votar a favor de mais pressões sobre Teerã nos próximos meses.

Mas é exatamente esta a estratégia dos Estados Unidos, conforme descrita pelo governo norte-americano a autoridades européias. Caso o Irã ainda não tenha cancelado o enriquecimento de urânio dentro de algumas semanas, as sanções propostas pelos Estados Unidos e pela Europa passariam a incluir uma ampla proibição de viagens e o congelamento de bens de membros do governo iraniano, segundo informou uma autoridade graduada do governo Bush. Caso o Irã continuasse a não acatar as exigências, as sanções se intensificariam, incluindo restrições a vôos comerciais para o Irã, e a concessões de empréstimos do Banco Mundial a Teerã.

O Irã indicou em várias ocasiões nos últimos meses que responderia a sanções com ações próprias, desde a suspensão da produção de petróleo - algo que quase certamente faria com que o preço da gasolina e do óleo para aquecimento disparasse - até a ameaça de abandonar o Tratado de Não Proliferação Nuclear, conforme a Coréia do Norte fez três anos atrás.

Outras autoridades norte-americanas disseram temer que as sanções possam fazer com que o Irã insufle a resistência no Iraque, ou que patrocine atos terroristas do Hizbollah, que recebe grande parte do seu auxílio financeiro e armas do Irã. Mas Burns insistiu, em uma entrevista na quarta-feira: "Nós não vamos nos intimidar com os iranianos". Ele deve viajar a Berlim nesta quinta-feira para dar início, juntamente com os seus congêneres europeus, ao trabalho de redação de uma resolução do Conselho de Segurança.

Mas apesar das garantias em caráter reservado que as autoridades norte-americanas afirmam ter recebido de Moscou e de Pequim, os comentários públicos feitos por autoridades russas e chinesas permanecem ambíguos. O ministro da Defesa da Rússia disse na última sexta-feira que é prematuro pensar em ações punitivas contra o Irã, acrescentando que a questão "não é tão urgente" a ponto de o Conselho de Segurança cogitar a aplicação de sanções, e expressando dúvidas quanto à eficácia de tais medidas. Danilo Fonseca

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