UOL Notícias Internacional
 

31/08/2006

No Sudão, paz frágil em Darfur pode se transformar em nova violência

The New York Times
Lydia Polgreen*

em El Fasher, Sudão
Em um campo de pouso aqui no coração de Darfur, aviões de carga Ilyushin voam diariamente, carregados com coisas de guerra: tropas, caminhões, bombas e armas.

Até o momento, as negociações em torno da força da ONU proposta para manter a frágil paz em Darfur têm avançado com dificuldade e sem sinal de acordo. Os lados opostos no conflito agora parecem caminhar rumo a um confronto militar em grande escala, deixando Darfur à beira de um novo abismo -talvez o mais profundo que já encarou.

"Infelizmente, as coisas parecem estar caminhando em tal direção", disse o general Collins Ihekire, comandante da sitiada força de 7 mil soldados da União Africana, que está mantendo o frágil acordo de paz entre o governo e um grupo rebelde.

Quase quatro meses após a assinatura do acordo, o governo está preparando um novo ataque contra os grupos rebeldes que se recusaram a assinar. Anos de conflito já mataram centenas de milhares de pessoas aqui e fizeram 2,5 milhões fugirem de suas casas. Mas este pode ser um prelúdio da morte que provavelmente resultará de novos combates, fome e doenças. Nos últimos meses, o assassinato de membros de grupos de ajuda e o roubo de seus veículos, em grande parte por grupos rebeldes, forçaram os grupos a reduzirem programas que alimentam, vestem e abrigam centenas de milhares de pessoas.

"Nós temos menos acesso agora do que tínhamos em 2004, quando as coisas estavam realmente ruins", disse uma importante autoridade de ajuda em El Fasher, falando sob a condição de anonimato porque pessoal de ajuda humanitária que tem se manifestado abertamente tem sido penalizado e expulso pelo governo. "Se ocorrer uma grande ofensiva militar, pode-se esperar uma evacuação completa dos grupos de ajuda humanitária no norte de Darfur, o que deixaria milhões sem ajuda vital."

Diplomaticamente, o Sudão adotou uma linha dura, se recusando a permitir qualquer força internacional de manutenção da paz além da pequena e relativamente impotente força da União Africana já presente no local.

O Conselho de Segurança da ONU planeja votar na quinta-feira uma resolução que substituiria os 7 mil soldados da União Africana por cerca de 21 mil soldados e policiais da ONU, mas a resolução especifica que as tropas não serão enviadas sem o consentimento do governo sudanês.

Nesta semana, uma visita a Cartum de Jendayi E. Frazer, a secretária assistente de Estado americana para assuntos africanos, fracassou em obter um acordo, potencialmente deixando a população de Darfur sem qualquer força internacional de paz para protegê-la. A força da União Africana dispõe apenas de verba suficiente para mantê-la até 30 de setembro, quando termina seu mandato oficial. No momento seus soldados não estão sendo pagos, em alguns casos há meses. Ela fica constantemente sem combustível, alimentos e equipamento, e seus fornecedores, que também aguardam meses por pagamento, relutam em realizar novas entregas. Os vôos de helicóptero que entregam tudo, exceto o mais essencial -alimentos e medicamentos para os soldados- foram cancelados.

Além disso, a força se vê cada vez mais envolvida nos combates entre o governo e os rebeldes. Dois soldados ruandeses morreram em uma troca de tiros intensa que durou horas. Os líderes rebeldes negam seu envolvimento na emboscada, mas dizem que a União Africana é tendenciosa porque mediou um acordo de paz que rejeitaram.

Mais preocupante é o confronto que se prenuncia entre as tropas do governo e os rebeldes que não aceitaram o acordo de paz, que transcorrerá em um campo de batalha que abriga 250 mil pessoas e poderia facilmente provocar uma série de batalhas por toda Darfur. "Seria catastrófico", disse outro alto representante de ajuda humanitária de um grupo diferente, pedindo para não ser identificado por temer retaliação do governo sudanês. "Em termos de perda de vidas, poderia tornar pequenas as mortes em 2003 e 2004."

Apenas naquele período, pelo menos 180 mil pessoas morreram devido aos ataques a aldeias promovidos pelas forças do governo e suas milícias árabes aliadas, conhecidas como "janjaweed", em batalhas contra grupos rebeldes não-árabes que buscavam maior poder na região. A violência causou a disseminação de fome e doenças, freqüentemente os assassinos mais letais aqui.

El Fasher já foi uma sonolenta capital estadual de uma região empobrecida do Sudão. Agora é uma cidade repleta de tropas do governo em novos uniformes, dirigindo caminhões reluzentes contendo armas de 50 milímetros. Os caminhões são tão novos que seus estepes ainda apresentam as marcas brancas e azuis de fábrica nos sulcos do pneu.

O governo não faz segredo de suas intenções -ele submeteu o plano ao Conselho de Segurança no início deste mês, declarando seu intento de usar 10.500 de seus próprios soldados para esmagar a rebelião, uma medida que violaria o acordo de paz recém-assinado, segundo Ihekire.

Em uma entrevista em Cartum na semana passada, Lam Akol, o ministro das Relações Exteriores, disse que o governo está apenas tentando garantir a paz.

"Nós temos o dever de proteger nosso território", ele disse. "Nós assinamos um acordo de paz, mas se os demais rebeldes não querem aderir, então o que podemos fazer? De que outra forma podemos devolver a região à vida normal?"

Os movimentos rebeldes que se recusaram a assinar o acordo de paz de Darfur se reuniram em um vasto trecho do território ao norte daqui, ganhando força e exercendo seu poderio em ataques contra as tropas do governo e seus aliados, assim como contra a força da União Africana.

Em uma entrevista realizada no território que dominam, os comandantes da nova aliança rebelde, a Frente de Redenção Nacional, disseram estar prontos para o combate.

"Nossa capacidade é ilimitada, por ar e por terra, de repeli-los", disse Jarnabi Abdul Kareem, um alto comandante rebelde.

Em Umm Sidir, mais de 100 soldados rebeldes se aprumavam com seus rifles Kalashnikov para a visita dos jornalistas. Muitos pareciam mal ingressos na adolescência, com amuletos contendo versos do Alcorão pendurados em seus estreitos peitos jovens. Suas picapes surradas continham armamento pesado -armas antiaéreas reluzentes e mísseis portáteis. A divisão e reforma dos grupos rebeldes desde o acordo de paz estava evidente em seus logotipos improvisados. Em um caminhão, as iniciais tinham sido mudadas tantas vezes que a mistura de acrossemias -SLA, JEM, NFR, G-19- se tornou uma coleção de borrões ilegíveis.

Sentados em um círculo sob uma árvore cheia de espinhos, os líderes da
Frente, unidos em seu ódio coletivo pelos signatários do acordo de paz,
disseram que voltam ao campo de batalha de forma relutante.

"Nós estamos empunhando armas em nossa mão esquerda mas um ramo de oliva na direita", disse Abubakar Hamid Nour, um comandante do Movimento Justiça e Igualdade, um grupo islamista que se juntou a uma facção do Exército de Libertação do Sudão na luta contra o governo e a facção rebelde que assinou o acordo.

"Mas o governo escolheu o caminho da força, o caminho das armas", ele
continuou. "O governo dispersou nosso povo, queimou 4 mil aldeias, estuprou as mulheres em Darfur. Este acordo de paz nunca atenderá às pessoas de Darfur que empunharam armas para obter seus direitos."

As batalhas por este trecho de terra já provocaram um preço terrível.

Nos arredores de Hashaba, as pessoas deslocadas pelos combates desde 2003 se assentaram, seus campos de refugiados se tornando aldeias semipermanentes. Há poucos homens aqui -apenas um punhado entre dezenas de mulheres com rostos secos e crianças magras com cabelo de cor ocre, um sinal de desnutrição.

"Nós costumávamos receber comida aqui, mas ninguém vem mais", disse Aisha Adbul Rahman. Em sua cabana havia os ingredientes para o jantar daquela noite -uma cabaça de água marrom, cheia de terra, e meia tigela de painço.

Em Hashaba, em uma clínica dirigida pelo Comitê Internacional de Resgate, uma organização de ajuda, o dr. Hassan Ibrahim Isaac disse que prescreve receitas para doenças banais que matam aqui -malária, diarréia, pneumonia. Mas estes pedaços de papel são como vales de uma loja de empresa falida. A farmácia da clínica está sem antibióticos e medicamentos para malária há muito tempo.

"Eu ainda venho porque não quero que as pessoas desistam de ter esperança", disse Isaac. "Mas cada vez menos pessoas vêm. Elas sabem que não tenho nada para lhes dar."

Esta é a temporada de plantio, quando as chuvas produzem madeixas de verde na terra parda. Colinas antes inóspitas se enchem de relva. Os rios sazonais serpenteiam pela paisagem como veias. Mas eles sangram em campos vazios por grande parte do norte de Darfur, pois a violência afastou muitos aldeões de seus campos. Assim, a terra prevê mais fome quando chegar o momento da colheita.

Oficiais militares da União Africana disseram que as tropas do governo
poderão se agrupar ao longo do eixo entre El Fasher e as cidades de Mellit e Kutum, usando bombardeiros Antonov e helicópteros de ataque para eliminar o máximo de rebeldes que puderem e então forçar o restante a fugir para o norte. Outra possibilidade é do governo atacar pelo sul e tropas aerotransportadas também investirem pelo norte.

Bombardeios a Kulkul já empurram os rebeldes para o norte, para Umm Sidir e além, disseram comandantes militares da União Africana.

Conflitos armados abertos em vasta escala parecem tão prováveis, e a
esperança de chegada de uma força de paz da ONU para reduzir as tensões tão distante, que há uma piada circulando entre os militares e grupos de ajuda humanitária: a mais importante força de paz em Darfur no momento é a chuva.

Ela transforma as estradas de terra que cruzam as planícies áridas e
montanhas em atoleiros intransitáveis, e incham leitos de rio antes secos em correntezas capazes de arrastar facilmente um Toyota Landcruiser, o veículo militar mais usado.

Mas as chuvas terminarão nas próximas duas semanas.

*Daniel B. Schneider, na ONU, contribuiu com reportagem para este artigo George El Khouri Andolfato

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