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31/08/2006

Rompendo a barreira biológica

The New York Times
Lynette Clemetson
Katie Ledbetter, que está esperando uma filha para o final do ano, deliciou-se com a bajulação dos colegas, os comentários animadores das alegrias da maternidade e as lamúrias sobre a perda da vida social e das horas de sono.

Mas como está adotando em vez de dar à luz, Ledbetter, que trabalha para uma empresa de serviços de documentos em Ohio, Standard Register, não teria direito à licença maternidade de seis a oito semanas oferecida às funcionárias grávidas.

Mas em janeiro, a gerente de Ledbetter excitadamente pediu que verificasse sua caixa de mensagens eletrônicas. Um memorando da empresa, que conta com 3.500 funcionários, dizia que, a partir deste ano, a Standard Register ia oferecer aos pais adotivos quatro semanas de licença paga e até US$ 4.000 (em torno de R$ 8.800) em ajuda financeira. Ledbetter, seria a primeira, disse sua gerente. "Foi um presente de Deus", disse Ledbetter, 45, especialista em atendimento ao cliente do escritório da empresa em Charlotte. "Quando você está nessa de adoção, deve prever alguns obstáculos.
Fiquei tão emocionada em saber que minha empresa nos apoiava."

Com mais de 100.000 americanos adotando filhos por ano, os benefícios para adoção estão se tornando uma vantagem competitiva nos pacotes salariais. Seja com licença remunerada, reembolso dos custos ou os dois, os benefícios ajudam os pais a abater as altas taxas de adoção e dedicarem um tempo para a formação de laços com os filhos. Um fator igualmente importante, dizem os beneficiados, é que a assistência transmite uma mensagem que famílias adotivas são tão valorizadas e dignas de apoio quanto as famílias biológicas.

"Hoje em dia, as pessoas consideram da mesma forma construir uma família por gravidez ou por adoção", disse Ledbetter, que tem dois filhos biológicos, Zachary, 11, e Amanda, 22, e está adotando uma criança de um orfanato na Guatemala.

Uma pesquisa de 2006 entre 1.000 empresas, pela Fundação de Adoção Dave Thomas, revelou que 44% ofereciam licença remunerada para adoção, um aumento em relação aos 38% em 2000. E 83% ofereciam assistência financeira para adoção, subindo de 70% em 2000.

Foram pesquisadas empresas de diversos tamanhos, desde pequenas sem fins lucrativos até corporações da Fortune 500. Em março, o Centro de Artes John Michael Kohler, uma organização sem fins lucrativos com 65 funcionários em Sheboygan, Wisconsin, passou a oferecer aos pais adotivos três semanas de licença com salário pleno e três semanas adicionais com 50% do salário. O Bank Rhode Island, que tem 300 funcionários, aprovou quatro semanas de licença remunerada para adoção em janeiro.

"Vemos isso como um aumento significativo, dado o fato que nos últimos anos as empresas em geral vêm buscando formas de cortar custos", disse Rita Soronen, diretora executiva da Dave Thomas Foundation, iniciada em 2002 por Thomas, que foi criança adotada e fundou a rede de lanchonetes Wendy's.

Um estudo similar em 2005 pelo WorldatWork, grupo de recursos humanos e profissionais de Scottsdale, Arizona, revelou que 39% das empresas pesquisadas ofereciam algum tipo de benefício para adoção, 3% a mais que o ano anterior.

Alguns especialistas da força de trabalho dizem que os números podem ser otimistas demais, porque as empresas que respondem às pesquisas tendem a ser as que têm as melhores práticas trabalhistas. Nem mesmo a licença maternidade remunerada é garantida nos EUA. As empresas são obrigadas a dar folga não remunerada às mulheres grávidas, assim como a outros funcionários com incapacidade médica temporária.

Mas um estudo de 2005 pelo Instituto de Famílias e Trabalho, um grupo de pesquisa de Nova York, revelou que apenas 66% das empresas com 1.000 funcionários ou mais oferecem algum tipo de pagamento durante a licença maternidade. Entre as empresas com 50 a 99 funcionários, 36% ofereciam licença remunerada após o nascimento.

Oferecer benefícios aos pais que adotam é, em parte, uma questão de boa vontade e de promover a paridade com programas de licença maternidade, mas também é um gesto competitivo. Muitos pais adotivos são profissionais de carreira -funcionários que as empresas lutam para contratar e manter.

O Bank Rhode Island incluiu o benefício de adoção depois que uma funcionária respeitada que estava adotando uma criança na China apresentou aos seus superiores uma lista de outras empresas que ofereciam assistência a adoção e uma proposta sobre como tal política poderia beneficiar a companhia.

"Compreendemos que, do ponto de vista de recrutamento e retenção, queríamos ficar em um nível competitivo com as grandes empresas e a indústria como um todo. Cada vez mais, as pessoas querem saber antes sobre esses benefícios de equilíbrio entre o trabalho e a vida pessoal", disse Marianne Monte, vice-presidente de recursos humanos do banco, que tem sua base em Providence.

A Fundação Dave Thomas, que administra um programa chamado Local de Trabalho Amigável à Família, fornece orientações para funcionários sobre como fazer lobby por benefícios de adoção e guias para empresas sobre como introduzi-los.

A maior parte das licença de adoção dura de duas a seis semanas, mas algumas empresas são mais generosas. O programa Merrill Lynch Primary Caregiver Leave oferece 13 semanas de licença remunerada a todos os novos pais, biológicos ou adotivos, homens ou mulheres. Também oferece aos pais adotivos ajuda financeira de US$ 3.000 a US$ 5.000.

"É uma forte declaração contra a filosofia de que a empresa tem que ter tudo o que quer primeiro, e você e sua família vêm em segundo lugar", disse Keli Tuschman, diretora de recursos humanos da Merrill Lynch Commodities, que adotou uma menina da China em dezembro.

Como executiva, Tuschman, 42, estava determinada a manter sua carreira. Mas depois de esperar tanto tempo para iniciar uma família -ela se casou com Jim Tuschman, incorporador imobiliário, quase quatro anos atrás e começou o processo de adoção em dezembro de 2004- ela também estava determinada a aproveitar a companhia de sua filha. Desde que voltou a trabalhar, em março, depois de 13 semanas de folga, a empresa permitiu que trabalhasse em casa meio período.

"Você não ganha de volta o tempo com seu bebê", disse ela. "Alguma empresa pode oferecer me pagar mais, mas essa atitude compra minha lealdade."

Algumas agências de adoção requerem, ou fortemente recomendam, que os pais adotivos tirem várias semanas de folga para criarem laços com a criança. A Kentucky Adoption Services Inc., em Owensboro, agência que Ledbetter está usando, requer que ao menos um dos pais fique em casa após a adoção, por ao menos seis semanas, e recomenda oito ou mais, especialmente para crianças mais velhas.

"Ninguém pisca quando uma mãe tira seis semanas ou mais para ficar com o bebê, mas as pessoas se perguntam porque pais adotivos querem o mesmo tempo", disse Lucy Armistead, diretora executiva da agência.

Nem Amanda Lawson nem seu marido, Matthew, tinham direito à licença remunerada. O casal, que adotou uma criança da Guatemala pela agência de Armistead em julho, contou com ajuda financeira da família e de amigos para que Lawson pudesse ficar em casa por oito semanas.

Lawson, assistente executiva de uma organização sem fins lucrativos em Owensboro, juntou suas férias e dias de folga e conseguiu cinco semanas de licença remunerada. Ela tirou outras três semanas sem remuneração. Mas a perda salarial depois de gastar mais de US$ 25.000 (em torno de R$ 55.000) para a adoção, disse ela, foi difícil.

"Foi duro", disse Lawson, 27, que voltou ao trabalho nesta semana. "Sou uma mãe nova como qualquer outra. Essas poucas semanas de salário fazem diferença."

Debra Ness, presidente da Parceria Nacional para Mulheres e Famílias, um grupo de Washington, disse que o lobby por benefícios de adoção faz parte de um movimento mais amplo para expandir o Ato de Folga Médica e Familiar, sancionado em 1993.

A lei requer que toda empresa com 50 ou mais funcionários ofereça 12 semanas de licença sem remuneração para certas necessidades de família ou saúde, inclusive maternidade, paternidade e adoção. Mas especialistas trabalhistas estimam que 40% dos funcionários na força de trabalho privada não são cobertos pela lei porque trabalham para pequenas empresas ou não preenchem os requisitos de horas ou cargo ocupado. E muitos dos que são cobertos simplesmente não podem ficar sem receber.

"Certamente, progredimos muito desde os tempos quando as pessoas nem entendiam o que eram os benefícios para equilíbrio de trabalho-vida privada", disse Ness. "Mas as vidas das pessoas e suas mentes estão muito à frente das medidas, e o apoio ainda não está sintonizado com o dia a dia e as necessidades da maior parte das famílias."

Ledbetter recentemente tirou férias para visitar a Guatemala onde sua adoção está nos estágios finais. Ela e seu marido, Russ, agente de importação exportação da Goodrich Corp, esperam trazer sua filha para casa no final do ano. Ela planeja tirar sua recém conquistada licença remunerada de quatro semanas e outras oito semanas de licença sem remuneração.

Sua boa sorte tornou-se uma inspiração. Entre os futuros pais adotivos com quem conversa on-line regularmente, ela é a única que tem licença remunerada para adoção. "Eles ficaram tão animados por mim", disse Ledbetter. "Querem saber como podem fazer outras empresas entenderem a necessidade." Deborah Weinberg

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