UOL Notícias Internacional
 

01/09/2006

Agência nuclear da ONU detecta novos traços de urânio no Irã

The New York Times
Elaine Sciolino*

em Viena
Na quinta-feira (31/08) a agência global de monitoramento nuclear fez com que aumentassem as suspeitas em relação ao programa nuclear iraniano, ao anunciar que inspetores descobriram novos traços de urânio altamente enriquecido em uma instalação iraniana.

No passado, os inspetores encontraram por duas vezes este tipo de urânio, que em níveis extremos de enriquecimento pode servir para a fabricação de bombas atômicas. A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) concluiu que pelo menos uma dessas amostras veio de um equipamento contaminado que o Irã obteve do Paquistão.

Mas, neste caso, o traço nuclear identificador das partículas não era condizente com as outras amostras, afirmou uma autoridade familiarizada com as inspeções da ONU, levantando dúvidas quanto à origem do material.

O relatório de seis páginas enviado pela agência ao Conselho de Segurança da ONU na quinta-feira não traz opiniões sobre a procedência do material, e tampouco sugere que este esteja vinculado a um programa nuclear secreto. Em níveis extremos de enriquecimento, o urânio pode ser utilizado para a fabricação de bombas.

O Irã sustenta que o seu programa nuclear tem como único objetivo a produção de energia, algo que implicaria no uso de urânio com um grau de enriquecimento bem menor do que o da amostra descrita no relatório.

Conforme se esperava, o relatório confirmou que o Irã continuou produzindo urânio enriquecido, mas somente em pequena escala e em níveis de enriquecimento relativamente baixos, na sua grande central em Natanz. A ONU exigiu que Teerã cancelasse tal produção.

Na quinta-feira expirou o prazo estabelecido pelo Conselho de Segurança para que o Irã congelasse as suas atividades de enriquecimento de urânio. O fato de o Irã não haver acatado a decisão da ONU significa que o país ficará sujeito a mais ações punitivas, na forma, talvez, de penalidades econômicas e políticas, seja por parte de todo o Conselho de Segurança, ou por um grupo menor de países liderados pelos Estados Unidos.

Em um discurso na convenção nacional da Legião Americana, em Salt Lake City, o presidente Bush reiterou a sua advertência à liderança iraniana,
afirmando: "A guerra no Líbano e o apoio do Irã ao Hizbollah deixaram mais claro do que nunca que atualmente o mundo enfrenta uma grave ameaça por parte do regime radical iraniano".

Ele concluiu afirmando que embora esteja comprometido com uma solução diplomática para o confronto com o Irã, "é necessário que haja conseqüências para o desafio do Irã, e nós não devemos permitir que o Irã desenvolva uma arma nuclear".

O chefe de política externa da União Européia, Javier Solana, e o negociador nuclear do Irã, Ali Larijani, se encontrarão na Europa na próxima semana, em uma tentativa final de buscar uma saída para o impasse. Depois disso, os representantes das grandes potências mundiais se reunirão na Europa para discutir o caso iraniano. Mas a Rússia e a China se opõem a sanções, e o Irã desprezou todas as ameaças, afirmando que prosseguirá com as suas atividades nucleares, mesmo enquanto estiver participando de negociações.

Como no passado, a AIEA pintou um quadro confuso e incompleto da situação do programa nuclear iraniano, enfatizando as limitações dos inspetores estrangeiros, cujo acesso aos centros de atividade nuclear iranianos foi suspenso pelo Irã no início deste ano.

Por um lado, o relatório deixa claro que, conforme afirmou a autoridade familiarizada com as inspeções, "os inspetores não descobriram nenhuma prova concreta de que o programa nuclear iraniano tenha uma natureza militar".

Por outro lado, o relatório capta um longo padrão caracterizado por confusão, obstruções, revelações parciais de informações e uma cooperação mínima segundo as obrigações internacionais iranianas para com a agência, além de detalhar novas atividades suspeitas.

Desde fevereiro passado, quando a agência enviou o dossiê do Irã para o Conselho de Segurança, Teerã limitou drasticamente o acesso dos inspetores internacionais. A decisão limitou ou bloqueou as inspeções de centenas de instalações, programas e pessoal ligado às atividades atômicas do país. O resultado disso foi mais incerteza e menos informação quanto ao progresso de Teerã na aquisição de know-how referente à produção de urânio enriquecido e plutônio, elementos básicos para a produção de eletricidade e para a fabricação de bombas.

O mais notável no relatório foi a descoberta de partículas de urânio altamente enriquecido em um contêiner de um depósito de refugos em Karaj, não muito longe de Teerã.

As partículas foram coletadas para testes no contêiner há um ano, mas a agência só obteve os resultados algumas semanas atrás, devido à capacidade limitada do seu laboratório de verificação.

No final de 2003, a descoberta de traços de urânio altamente enriquecido no Irã desencadeou preocupações internacionais quanto às intenções nucleares do país, e gerou dúvidas quanto à procedência do material. Uma outra descoberta de material radioativo no início deste ano redobrou a sensação de alarme.

Mas, segundo diplomatas, a revelação feita na quinta-feira foi diferente. "Este é o primeiro caso no qual não existem vínculos conhecidos", afirmou um diplomata europeu, que pediu que o seu nome não fosse revelado devido às regras diplomáticas. "Mas temos que ser cuidadosos, porque é possível que se ache uma explicação para isso no futuro, pelo menos em tese".

Robert Joseph, o subsecretário de Estado para Controle de Armas e Segurança Internacional, foi cauteloso ao comentar esse novo fato, mas disse: "Precisamos nos preocupar bastante com a possibilidade de o Irã estar realizando experiências, e construindo centrífugas, longe da vigilância dos inspetores da AIEA".

O urânio altamente enriquecido, contendo pelo menos 80% do raro isótopo urânio-235, tem um grau de pureza suficiente para a fabricação de bombas, podendo ser inserido no centro de uma arma nuclear.

O Irã afirma que o seu programa atômico tem como objetivo enriquecer urânio em níveis baixos, de no máximo 5%, para a produção de energia nuclear, mas os Estados Unidos dizem que isso é apenas uma história cobertura para a aquisição de um arsenal nuclear.

A agência escreveu ao Irã, solicitando uma explicação sobre a fonte das partículas altamente enriquecidas, mas até agora não recebeu nenhuma resposta.

O relatório não especifica o nível de enriquecimento das partículas, e tampouco fala se estas teriam grau de pureza suficiente para a fabricação de uma bomba. A autoridade que conversou com a reportagem sobre o relatório se recusou a endossar essa conclusão, sugerindo que tal definição carece de sentido. "Eu não diria que o grau de pureza é suficiente para a fabricação de um armamento atômico, mas sim que é muito alto", disse ele.

O relatório também concluiu que o Irã continuou produzindo urânio enriquecido, mas em uma escala modesta, apesar das referências de várias autoridades iranianas a projetos para construir e operar milhares de centrífugas a gás em escala industrial.

De fato, o Irã construiu e colocou em funcionamento apenas um conjunto em cascata de 164 centrífugas, além de outras máquinas isoladas.

Durante o verão, as centrífugas não produziram urânio enriquecido continuamente, mas apenas por um máximo de dez dias, e, com freqüência, operaram vazias, diz o relatório.

Além do mais, somente alguns poucos quilos de material nuclear foram inseridos nas máquinas. E somente uma pequena quantidade de urânio enriquecido - da ordem de dezenas de gramas - foi produzida.

"O desenvolvimento qualitativo e quantitativo do programa iraniano de enriquecimento continua bastante limitado", disse a autoridade. "Sob um ponto de vista técnico, não observamos um processo muito extenso de experimentação com essas máquinas".

O programa parece estar bem atrasado em relação à sua meta que era a instalação de 3.000 centrífugas em Natanz até o último trimestre deste ano.

O relatório documenta a recusa por parte do Irã, no verão passado, em permitir que inspetores visitassem os subterrâneos das instalações de Natanz, e em fornecer aos inspetores passes para múltiplas entradas com validade de um ano que possibilitariam um fácil acesso a instalações espalhadas por todo o país. Desde então, as autoridades iranianas recuaram dessa posição.

O relatório também condenou o Irã por ter mais uma vez deixado de responder a certas perguntas, e não ter fornecido documentos e acesso com relação a uma gama de questões, algumas das quais estão pendentes há mais de três anos.

"Existe um impasse para a resolução dessas questões", afirmou a autoridade. Ele acrescentou que a agência está perdendo a confiança na sua capacidade de dar ao mundo garantias quanto à "integridade" do programa iraniano.

*William J. Broad e David E. Sanger contribuíram de Washington para esta matéria Danilo Fonseca

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