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01/09/2006

Novos livros escolares da China trazem mais cultura e menos história

The New York Times
Joseph Kahn

em Pequim
Quando os alunos de segundo grau em Xangai abrirem os seus livros de história neste outono, eles poderão se surpreender. Os novos textos de história mundial trazem menos guerras, dinastias e revoluções comunistas, e mais capítulos ilustrados sobre economia, tecnologia, costumes sociais e globalização.

O socialismo foi reduzido a um único e curto capítulo no curso de história do último ano do segundo grau. O comunismo chinês anterior à reforma econômica iniciada em 1979 é coberto por uma única sentença. O texto só menciona Mao uma única vez - em um capítulo sobre etiqueta.

Quase que da noite para o dia as escolas mais prósperas do país arquivaram o padrão marxista que dominava os textos de história desde a década de 1950.

Segundo os autores, as mudanças passaram por um escrutínio de autoridades de alto escalão, e são parte de uma ampla iniciativa para promover uma visão mais estável e menos violenta da história chinesa, que atenda às metas econômicas e políticas atuais.

Aqueles que defendem a mudança dizem que ela vivifica os cursos obrigatórios de história para os alunos de segundo grau, preparando-os melhor para a vida no mundo real. Os velhos textos escolares, de forma semelhante ao Partido Comunista, mudaram pouco no último quarto de século de reformas econômicas orientadas para o mercado. Os livros estavam em evidente falta de sincronia com as realidades com as quais os estudantes se deparam fora da sala de aula.

Mas os críticos dizem que os novos textos trocam uma agenda política por outra. Em vez de reescreverem a história, os novos livros diminuem a sua importância. O Estado de um único partido, tendo abandonado grande parte da sua ideologia oficial, prefere pessoas que pensem mais no futuro do que no passado.

Os novos textos se focalizam em idéias e palavras-chave que dominam a mídia estatal e o discurso oficial: crescimento econômico, inovação, comércio exterior, estabilidade política, respeito pelas diversas culturas e harmonia social.

O J.P. Morgan, Bill Gates, a Bolsa de Valores de Nova York, o ônibus espacial norte-americano e o trem-bala japonês são assuntos de destaque. Há uma lição que explica como as gravatas passaram a ser moda.

As revoluções francesa e bolchevique, outrora vistas como pontos de inflexão na história mundial, são atualmente objetos de bem menos atenção. Mao, a Longa Marcha, a opressão colonial à qual a China foi submetida e o Massacre de Nanjing só são tópicos de estudo em um currículo sintético de história no primeiro ano da escola secundária.

"A nossa versão tradicional da história se concentrava na ideologia e na identidade nacional", afirma Zhu Xueqin, um historiador da Universidade de Xangai. "A nova história é menos ideológica, e isso atende aos objetivos políticos de hoje".

Pelo menos inicialmente as mudanças se restringem a Xangai. Aquela região de elite urbana conta com autonomia para alterar os seus currículos e livros escolares, e no passado ela introduziu avanços que o governo central instruiu o resto do país a seguir.

Mas os livros escolares provocaram um intenso debate entre os historiadores, antes que os textos fossem totalmente introduzidos nas escolas de Xangai neste semestre letivo de outono. Várias escolas da cidade começaram a utilizar os novos livros em caráter experimental no último ano letivo.

Diversos acadêmicos disseram que não lamentam o fato de a perspectiva marxistas nos cursos de história ter sido abandonada. Tal visão ainda é ensinada em cursos obrigatórios de política. Mas alguns criticaram aquilo que vêem como uma tentativa de minimizar a importância da história em geral.

A história chinesa e universal ensinada no curso secundário foi comprimida de três para dois anos, enquanto o único curso de história do final do segundo grau se concentra agora em culturas, idéias e civilizações.

"Os livros da fase inicial do curso secundário castraram a história, e aqueles do último ano a eliminaram inteiramente", escreveu um professor de história de Xangai, durante uma discussão online. O professor pediu para permanecer anônimo, já que estava criticando as autoridades educacionais.

Zhou Chusheng, professor da Universidade Normal de Xangai e um dos principais autores da nova série de livros escolares, disse que o seu objetivo foi resgatar a história da ênfase tradicional em líderes e guerras, e fazer dos povos e da sociedade o tema central.

"A história não pertence a imperadores ou a generais", declarou Zhou em uma entrevista. "Ela pertence ao povo. Naturalmente, pode demorar um pouco até que certas pessoas aceitem isso, mas um processo similar está em andamento há muito tempo na Europa e nos Estados Unidos".

Zhou disse que os novos textos escolares seguem as idéias do historiador francês Fernand Braudel. Braudel defendeu a inclusão da cultura, da religião, dos costumes sociais e da ideologia em uma "história total". Essa abordagem tem sido popular em muitos países ocidentais há mais de meio século.

Braudel elevou a história, colocando-a acima da ideologia de qualquer nação. A China se afastou progressivamente da sua ideologia comunista, mas os livros de Xangai são os primeiros a tentar examinar isto como um fenômeno, em vez de tentar pregar o fato como sendo a verdade absoluta.

Ainda se escreve que o socialismo possui "um futuro glorioso". Mas o conceito de socialismo ocupa apenas uma dentre as 52 páginas de um texto do último ano do segundo grau. O socialismo revolucionário merece menos ênfase do que a Revolução Industrial e a era da informação.

Atualmente, só os alunos do primeiro ano do curso secundário estudam Mao - ainda oficialmente reverenciado como o pai da China moderna, mas não mais tido como uma influência na política. No texto do último ano, o líder ainda é ligeiramente mencionado como parte de uma aula sobre o hábito de se hastear bandeiras a meio-pau em funerais de Estado, como o de Mao, em 1976.

Deng Xiaoping, que deu início às reformas orientadas para o mercado, aparece nos textos escolares do início e do final do curso secundário, e é dada uma ênfase à sua visão econômica.

Gerald A. Postiglione, professor de educação da Universidade de Hong Kong, diz que as autoridades da área de educação na China buscaram formas de tornar o currículo escolar mais relevante.

"A ênfase agora está na produção de pensamento inovador e na preparação dos alunos para um discurso global", explica Postiglione. "É natural que questionem se um livro de história que fala tanto sobre o sofrimento chinês durante a era colonial está de fato criando aquele tipo de talento sofisticado que eles querem para a Xangai atual".

Isso não significa que a história e a política se desvincularam. Na primavera passada, um proeminente historiador chinês, Yuan Weishi, escreveu um ensaio que criticou os livros chineses por acobertarem a selvageria da Rebelião Boxer, o violento movimento contra estrangeiros ocorrido na China no início do século 20. Ele solicitou uma análise mais equilibrada daquilo que provocou intervenções estrangeiras à época.

Em resposta a isso, o popular jornal "Ponto de Congelamento", que publicou o seu ensaio, foi temporariamente fechado, e os seus editores demitidos. Quando foi reaberto, o "Ponto de Congelamento" publicou um ensaio contestando Yuan, em uma advertência de que muitos tópicos históricos continuam sendo demasiadamente sensíveis para serem discutidos na mídia popular.

As revisões dos livros de história de Xangai nada fizeram para acalmar as várias preocupações em âmbito doméstico e internacional quanto à forma tendenciosa como as escolas chinesas ensinam a história recente. Assim como os velhos textos escolares, por exemplo, os novos livros minimizam erros históricos ou atrocidades como o Grande Salto Para Frente, a Revolução Cultural e a repressão militar contra pacíficos manifestantes pró-democracia em 1989.

Os livros do primeiro ano do segundo grau ainda usam chavões tradicionais para condenar a invasão da China pelo Japão na década de 1930, e incluem pouca coisa sobre o desenvolvimento japonês pacífico e democrático do pós-guerra. E isso não contribuirá para reduzir a preocupação dos japoneses com o fato de os chineses incutirem nas suas crianças, desde a tenra idade, o ódio ao Japão.

Mas, de maneira geral, a redução do tempo dedicado ao estudo da história e a inclusão de novos tópicos, como cultura e tecnologia, significam que o conteúdo do curso central de história chinesa sofreu uma drástica contração.

Os novos livros deixam de fora marcos da história antiga. Os estudantes de Xangai não aprendem mais que Qin Shihuang, que unificou o país e se tornou o primeiro imperador da China, ordenou uma campanha para a queima de livros e o assassinato de pensadores, a fim de acabar com a resistência intelectual ao seu reinado. Os textos deixam de mencionar rebeliões e golpes bem conhecidos que abalaram ou derrubaram as dinastias Zhou, Sui, Tang e Ming.

Eles não mencionam a resistência dos chineses Han - o grupo étnico dominante do país - à invasão de Kublai Khan, e a fundação da dinastia Yuan, controlada pelos mongóis. Wen Tianxiang, um primeiro-ministro Han que se transformou no mais transcendente símbolo de lealdade e patriotismo no país ao se recusar a servir aos invasores mongóis, também ficou de fora.

Alguns desses fatos e personalidades foram substituídos por referências a velhos costumes e hábitos, o que fez com que alguns críticos afirmassem que o ensino da história perdeu o foco.

"O que seria melhor, fazer com que os alunos se lembrassem do desenho das antigas túnicas, ou ensinar que a dinastia Qin unificou a China em 221 A.C.?", questionou um professor em um fórum online de especialistas em história.

Outros especulam que os livros de Xangai refletem os pontos de vista políticos dos principais líderes chineses, incluindo Jiang Zemin, o ex-presidente e chefe do Partido Comunista, e o seu sucessor, Hu Jintao.

O slogan das "Três Representações" de Jiang tem como objetivo tornar mais genéricas as diretrizes do Partido Comunista e diluir a ênfase tradicional na luta de classes. Hu cunhou a expressão "sociedade harmônica", que segundo os analistas visa persuadir o povo a construir uma China estável, próspera e unificada sob o regime de partido único.

Os novos livros aboliram a ênfase nas mudanças dinásticas, lutas do campesinato, rivalidades étnicas e guerras, dizem alguns críticos, porque a liderança não quer que o povo pense que tais coisas têm muita importância.
As autoridades preferem criar a impressão de que, no decorrer da história, os chineses se preocuparam mais com inovações, tecnologia e relações comerciais com o mundo externo.

Zhou, o acadêmico de Xangai que participou da redação dos livros, diz que a nova história apresenta de fato uma imagem mais harmoniosa do passado da China. "Mas essas alterações não foram motivadas pelo slogan político de ninguém. Elas refletem uma enorme mudança na forma de se pensar sobre aquilo que os estudantes precisam saber", afirma Zhou.

"O governo tem um grande papel na aprovação dos textos", disse ele. "Mas o objetivo do nosso trabalho não é político. É tornar o estudo da história mais normal, e preparar os alunos para uma nova era". Danilo Fonseca

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