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02/09/2006

Formado no colégio, mas não pronto para a faculdade

The New York Times
Diana Jean Schemo

Em Dundalk, Maryland
A princípio, Michael Walton, ao começar a estudar na faculdade comunitária daqui, tinha certeza de que havia algum erro. Após se sair muito bem no colégio em Virgínia Ocidental, a ponto de se formar um ano e meio mais cedo, por que precisaria de recuperação em matemática?

Com dezoito anos e temperamental, Mickey, como todos o chamam, perseguiu a reitora, insistindo para que ela revisse seu exame de admissão. A reitora permaneceu firme. A revolta de Walton cresceu. Ele refez o exame. Mesmo resultado.

"Eu fiquei muito irritado", disse Walton.

Como dispunha de condições financeiras, ele pagou por um bom curso de matemática. Mas mal podia se lembrar do teorema de Pitágoras e tinha dificuldade para aplicar seno, cosseno e tangente para determinar ângulos em questões de geometria.

Walton não é um caso incomum. À medida que tem início o ano letivo, as 1.200 faculdades comunitárias do país estão tomadas por centenas de milhares de estudantes despreparados para o ensino universitário.

Apesar do ensino superior ser atualmente uma aspiração quase universal, pesquisadores sugerem que quase metade dos estudantes que ingressam em faculdades necessita de cursos de recuperação.

As deficiências persistem apesar dos grandes esforços das universidades públicas para lidar com estudantes despreparados.

Desde que a Universidade Municipal de Nova York, a maior universidade pública urbana, proibiu estudantes que precisavam de recuperação de freqüentar seus cursos de quatro anos em 1999, outras adotaram medidas semelhantes.

A Universidade Estadual da Califórnia estabeleceu a meta ambiciosa de reduzir a proporção de calouros despreparados para 10% até 2007, em grande parte os testando no penúltimo ano do ensino médio para fazê-los compensar as deficiências no último ano.

A universidade não perece mais próxima de sua meta. Apenas em leitura, quase metade dos alunos do colegial parecem despreparados para o ensino universitário.

Além do sistema de ensino superior de Nova York, pelo menos 12 Estados proíbem explicitamente as universidades de fornecerem cursos de recuperação ou adotar medidas como não aceitar a matrícula ou barrar estudantes que precisam de ajuda para ingressar em escolas técnicas ou faculdades comunitárias.

Em alguns campi, os estudantes precisam tirar o atraso freqüentando cursos de dois e quatro anos simultaneamente.

Os esforços, disseram educadores, não reduziram o número de estudantes que carecem do conhecimento básico. Em vez disso, as universidades reuniram tais estudantes em faculdades comunitárias, onde suas chances de serem bem-sucedidos é baixa e onde os contribuintes pagam dobrado para recuperá-los para o ensino universitário.

O fenômeno tem feito os educadores lutarem com as questões fundamentais como acesso ao ensino, padrões e oportunidades iguais.

Michael W. Kirst, um professor de Stanford que foi co-autor de um relatório sobre a defasagem entre as aspirações e o sucesso no ensino superior, disse que 73% dos estudantes que entram em faculdades comunitárias esperam obter seu diploma em quatro anos, mas que 22% conseguem apenas após seis anos.

"Você consegue ingressar na escola", disse Kirst. "Isto não é um problema. Mas não consegue ser bem-sucedido."

Quase metade dos 14,7 milhões de estudantes em cursos de dois e quatro anos nunca recebem seus diplomas. As deficiências surgem não apenas em matemática, ciência e engenharia, áreas onde um crescente coro alerta sobre as dificuldades diante da concorrência global, mas também em áreas fundamentais, como leitura e redação.

Segundo as notas do exame de admissão universitária de 2006, apenas 21% dos candidatos a instituições de quatro anos estão prontos para os trabalhos de nível superior em todas as quatro áreas testadas: leitura, redação, matemática e biologia.

Para muitos estudantes, a perspectiva não melhora após a faculdade. Os Fundos de Caridade Pew revelaram recentemente que três quartos dos estudantes que se formam em faculdades comunitárias não são letrados o suficiente para lidar com tarefas cotidianas como comparar pontos de vista em editoriais de jornais ou calcular o custo por grama de alimentos.

As estatísticas inflexíveis mostram uma profunda desconexão entre o que os professores colegiais pensam que seus alunos precisam saber e o que professores, mesmo em cursos superiores de dois anos, esperam que saibam.

Na Estadual da Califórnia, o sistema aceita apenas alunos com um média B no ensino médio. Todavia, 37% dos estudantes que ingressaram no ano passado precisaram de recuperação em matemática e 45% precisaram de recuperação em inglês.

"Os estudantes ficam chocados quando são informados que precisam de aulas de recuperação", disse Donna McKusick, a diretora sênior de ensino de recuperação na Faculdade Comunitária do Condado de Baltimore. "Eles acham que por terem se formado no colégio, eles estão prontos para a faculdade."

Por todo o país, autoridades de ensino federais e estaduais estão pressionando por um plano de ensino que vá do jardim de infância à formatura na faculdade. Tal abordagem, dizem as autoridades, ajudaria os colégios a prepararem melhor os estudantes para a faculdade.

Na Flórida, o governador Jeb Bush nomeou um comissão para supervisionar o ensino em todas as instituições públicas, do primário até os programas de bacharelado. Na Estadual da Califórnia, os professores estão orientando os professores do último ano do ensino médio a prepararem os alunos para terem sucesso na faculdade.

Começando em um déficit

Enquanto prossegue o debate, quase metade de todos os estudantes que buscam diplomas começa sua jornada em faculdades comunitárias como o campus de Dundalk da Faculdade Comunitária do Condado de Baltimore, prédios simples de dois andares batizados por letras, sem doadores ou ex-alunos renomados. Maryland é um Estado que obriga que os estudantes que precisam de recuperação a obtenham nas faculdades comunitárias.

O vice-reitor interino da faculdade para aprendizado e ensino de recuperação, Alvin Starr, disse que já encontrou estudantes que se formaram no colégio sem nunca terem lido um livro na íntegra.

"Eles escutam as aulas, fazem anotações e realizam provas apenas com isto", disse Starr.

Apesar da necessidade de recuperação ser alta, disse Starr, os cursos oferecem algo de grande valor, a chance de superar deficiências básicas em leitura, redação ou matemática.

"É preciso calcular o custo para a sociedade caso estes estudantes não sejam educados", ele disse.

A maioria dos estudantes espera que a transição para a faculdade comunitária seja suave. Mas a primeira parada, e às vezes última, para muitos são as aulas de recuperação de matemática.

"É a matemática que está nos matando", disse McKusik.

O simples número de inscritos como Walton para recuperação em matemática é assustador, como 8 mil no ano passado entre os quase 30 mil matriculados em cursos superiores em todo o sistema. Nem todos estes estudantes vêm diretamente do colégio. Muitos esperam alguns anos entre o fim do colégio e o ingresso na faculdade e esquecem o que aprenderam, disse McKusik.

Mais de um em quatro estudantes de recuperação necessita de aritmética básica e de ensino médio.

A matemática é onde os estudantes freqüentemente perdem a confiança e desistem.

"Isto provoca muita atribulação emocional para eles", disse McKusik.

Ela contou sobre 20 alunos que caíram em prantos ao receberem suas notas de matemática do exame de admissão e desistiram da faculdade.

Walton disse lembrar de um amigo que não entregou um exercício de matemática pela quarta vez na última semana de aula e que soube que seria reprovado. O estudante saltou sobre o professor e ameaçou: "Eu vou matar você".

"Você pode dizer o que quiser, mas isto realmente não vai ajudar em sua nota", disse o professor.

O estudante deixou a sala xingando, deixando o professor abalado.

O maior desafio, disseram professores, é tentar envolver os estudantes, persuadi-los de que idéias importam. McKusik suspeita que por trás da apatia está o medo de parecer ignorante.

"Tudo na sociedade visa celebrar e valorizar o vencedor", ela disse. "Estes não são estudantes que estiveram no topo. Eles não se permitem parecer vulneráveis."

Com muitos estudantes comprometidos com empregos e família, as faculdades comunitárias geralmente oferecem pouca vida social ou espírito escolar. De forma que precisam encontrar meios de alcançar seu público menos tradicional.

"É o motivo para tentarmos usar a cultura pop na sala de aula, para atrair a atenção deles", disse Betsy Gooden, uma professora de inglês, que em uma sala de recuperação em leitura, no primeiro semestre, tentou atrair os estudantes para discutirem um documentário de televisão.

Duas ou três estudantes em uma classe de 10 mulheres conduziram grande parte da discussão, que parecia mais um programa de auditório do que literatura básica, com as estudantes reagindo ao filme quase que exclusivamente com base em suas experiências pessoais.

Elas abordaram amor, sexo e traírem seus namorados. Antes do fim da classe, duas mulheres revelaram que foram estupradas. Aproximadamente metade das estudantes não disse nada.

Karen Olson, uma professora de história, e David Truscello, que ensina inglês, estão tentando outra estratégia comum, misturar recuperação com outras matérias. Eles são professores de um curso que combina história afro-americana com redação.

Olson diz que os professores devem deixar de pedir "tarefas irrealistas" como capítulos de "livros didáticos de 600 páginas" e devem descer até o nível dos alunos, elevando a capacidade deles aos poucos.

Na classe dela, ela passa leituras mais simples e divide a carga, de forma que nenhum aluno é responsável por fazer tudo sozinho.

"Não é como se estivessem vivendo quatro anos em um dormitório", disse Truscello.

A maioria trabalha, às vezes em mais de um emprego.

"Isto influencia tudo", ele acrescentou. "Eu tenho estudantes que tomam dois ônibus para vir à escola. É surpreendente o que fazem."

Outra parte da solução nas faculdades comunitárias está nos Centros para Sucesso do Estudante. Eles são na verdade centros de monitoramento. O de Dundalk fica aberto 63 horas por semana.

Em uma parede se encontra uma estante de folhetos explicando questões de gramática que provavelmente foram ensinadas pela última vez no ensino médio, uma medida do imenso terreno que precisa ser compensado. Um trata adjetivos comparativos, explicando a diferença entre, por exemplo, "mais esperto que" e "o mais esperto". Outro discute o uso de pronome e conjugação verbal.

Em uma mesa, Kirn Shahzadi, 20 anos, antes uma aluna nota A no colégio Parkville, estava sendo orientada poucas horas antes de seu exame final de recuperação em álgebra. Além de matemática, Shahzadi precisou de recuperação em leitura e em tarefas básicas como anotações, pesquisa e organização de horários. Na segunda semana daquele curso, ela disse, metade dos alunos tinha desistido.

Os sucessos

Ainda assim, a escola possui vencedores que concluíram o curso e sentem que precisam se adaptar a um mercado de trabalho em constante mutação.

Walton disse que carreiras como a de seu pai, um metalúrgico para uma grande construtora, estão cada vez mais difíceis de encontrar. Seu pai foi promovido a supervisor de obras, o que permitiu ao irmão mais velho de Walton cursar a Universidade Johns Hopkins.

Walton, que se casou assim que concluiu o colégio, pagou pela faculdade comunitária de Baltimore trabalhando como segurança por US$ 7,80 a hora. Ele já foi atacado com faca e spray por clientes que furtavam na loja, ele disse.

Seu salário cobria as contas de água, luz, gás e telefone, enquanto sua esposa, uma secretária na Johns Hopkins, pagava a hipoteca. Ele acrescentou que às vezes suspeitava que ela se sentia mais uma babá dele do que uma esposa e temia pelo futuro do casal.

"Eu sei que ela está cheia e cansada de cuidar de mim", ele disse em maio. "É muito difícil."

Mas Walton concluiu o curso de recuperação de matemática há quatro anos, no final elogiando a reitora por ter permanecido firme. Em junho, ele atravessou o palco para receber seu diploma de dois anos em ciência da computação. No próximo anos ele planeja obter outro diploma em, quem diria, matemática.

Ele disse que gostaria de obter o grau pleno de bacharel, mas hesitava.

"Eu tenho pavor de ir à faculdade", ele disse. "Eu me enterraria em dívidas."

Neste ano ele enviou seu currículo até mesmo para empregadores que exigem grau de bacharel e vários anos de experiência, na esperança de que seu entusiasmo compensasse a falta de credenciais. Ele buscava posições que incluíssem ajuda de custo para ensino para funcionários.

Sua estratégia vingou com duas ofertas, uma em digitação de dados em uma faculdade comunitária daqui, uma função que ele já exerceu antes de se formar, e outra para trabalhar em assistência técnica de copiadoras. Walton optou pelo segundo.

O emprego oferece benefícios, reembolso das despesas com ensino e um salário de US$ 22.850 por ano, com dinheiro extra para compra de um carro novo a cada dois anos.

"Eu me sinto um pouco mais, eu não diria confiante, mas talvez digno", disse Walton. "Agora eu me sinto bem melhor." George El Khouri Andolfato

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