UOL Notícias Internacional
 

03/09/2006

Como tornar-se cidadão do mundo antes de começar a faculdade

The New York Times
Tanya Mohn
Quatro empregos, 70 horas por semana, o verão inteiro. Essa foi a agenda de Erin Sullivan desde que se formou no colégio. O almoço era muitas vezes em seu carro, dirigindo entre o trabalho de salva-vidas e o de babá.

Jon Gilbert Fox/The New York Times 
Caitlin Thurrell, 18, trabalha em uma sorveteria para juntar dinheiro para viajar para a Índia


















Mas valeu a pena, disse Sullivan, 18, de Lawrenceville, Nova Jersey, que neste fim de semana viajaria para a América Latina para um "ano de intervalo" -- voluntariado, hospedagem em casas de família e aulas de espanhol --, pago principalmente por ela mesma, antes de começar a faculdade no outono de 2007. "Quero ter uma idéia melhor do que vou escolher", disse Sullivan, que adiou a matrícula na Universidade Americana.

Muitos formandos no colegial este ano já estão se instalando nos dormitórios de faculdades, mas um número crescente de estudantes de classe média, como Sullivan, está optando por um ano de intervalo antes ou durante a faculdade. Essa experiência de transição já foi considerada privilégio dos abastados, mas muitos estudantes de vários níveis financeiros hoje pagam todo o custo ou parte dele. E com o aumento dos custos das faculdades um número maior de famílias vê essa decisão como um bom investimento, porque seus filhos geralmente voltam mais concentrados.

Hoje um grande número calouros não fica muito na faculdade. "Cerca de 30% dos calouros não chegam ao segundo ano. É como a guerra de trincheiras na Primeira Guerra Mundial", disse Brian R. Hopewell, um consultor de faculdade em Cape Cod. "Esse é o pequeno segredo sujo que muitos não levam em conta."

Dados do Centro Nacional de Estatísticas da Educação indicam que somente 35% dos alunos se formam em quatro anos. Muitos levam cinco ou seis.

"Os pais estão pensando duas vezes antes de preencher os cheques de matrícula", disse Holly Bull, presidente do Centro para Programas Interinos em Princeton, Nova Jersey, que ajuda estudantes a planejar esses intervalos na educação. Apesar da crescente pressão para que seus filhos freqüentem boas faculdades, os pais da geração "baby-boom" parecem mais abertos para as opções de interrupção dos estudos que seus antecessores.

Economicamente faz sentido que os alunos explorem seus interesses antes de entrar na faculdade, dizem os defensores dos intervalos; os calouros que o fazem têm menor probabilidade de freqüentar festas demais, de ser reprovados nos cursos ou mudar de opções repetidamente - o que resulta em mais tempo para se formar e mais gastos.

E esse ano de viagem pode ajudar a melhorar o currículo: estudantes interessados em medicina têm mais contato com pacientes sendo voluntários em clínicas na Costa Rica, por exemplo, do que nos EUA, disse Bull. E em várias viagens ao exterior eles podem obter certa fluência em uma nova língua.

Muitos estudantes aprendem habilidades valiosas para a vida ganhando seu dinheiro e cuidando dele nessas viagens, disse Gail Reardon, diretora e fundadora da Taking Off, uma firma de consultoria em Boston que também ajuda estudantes a planejar esses períodos.

"Uma mãe me disse: 'Não sei o que você fez com ela, mas antes ela não usava transporte público. Agora vai a qualquer lugar, muitas vezes escolhendo a maneira mais barata de se locomover'", disse Reardon. "Nós damos comida na boca de nossos filhos e eles não desenvolvem o senso de que podem fazer as coisas. E, quando fazem, tudo muda."

Muitas famílias não consideram um ano de interrupção uma extravagância.

"Foi o melhor investimento que poderíamos ter feito na vida dela", disse Dale B. Krieger, um assessor financeiro. Ele estimou em US$ 30 mil o custo dos seis meses que sua filha passou na Índia, mais um mês na Itália e um semestre em Nova York, tendo aulas de arte e servindo como estagiária em um museu. Citando o mês que ela viveu num quarto com uma família tibetana exilada na Índia, Krieger disse que sua filha se transformou de uma "liberal de limusine" em uma "cidadã do mundo responsável".

"Isso foi realmente bem colocado", disse a filha, Casey Krieger, 19. "A experiência foi definitivamente esclarecedora e fascinante. Realmente mudou minha vida." Hoje ela está no primeiro ano na Escola do Museu de Belas Artes em Boston.

O custo médio de um ano de intervalo é de US$ 10 mil a 12 mil, incluindo taxas de consultores.

As viagens ao estrangeiro, é claro, podem representar despesas além da passagem aérea, taxas de programas e dinheiro para despesas. Entre os gastos extras possíveis estão seguro de saúde (cerca de US$ 350), vacinas e outros custos médicos antes da partida (cerca de US$ 150) e gastos em equipamentos especiais e documentos como passaporte e vistos.

Os estudantes muitas vezes combinam um programa de grupo dispendioso no exterior no outono com um mais barato na primavera. Entre os menos caros estão os programas de serviços ou estágios.

Mas alguns programas são gratuitos, com exceção das despesas de viagem. Um estágio recente em uma escola para surdos em Vermont oferecia hospedagem e alimentação em troca do trabalho e da oportunidade de aprender a Linguagem Americana de Sinais.

Alguns estudantes podem ter inicialmente expectativas irreais.

"Um cara me disse que um ano em uma tenda na natureza custaria US$ 1 mil" na Nova Zelândia, disse Sam Coggeshall, 20, de Princeton, sobre um neozelandês que ele conheceu. Seus pais o dissuadiram. "Ele pensou que chegaria ao aeroporto e pediria um emprego para alguém ou encontraria trabalho na Internet", disse sua mãe, Susan Henoch. "Eu não penso assim." Eles contrataram um consultor.

Depois de se formar no colégio em 2004, seu filho foi para a Nova Zelândia, onde passou um ano cuidando de carneiros, trabalhando em conservação e num programa chamado Trabalhadores Voluntários em Fazendas Orgânicas -- indo de fazenda em fazenda e trabalhando em troca de hospedagem e comida. Um ano custou aproximadamente US$ 7 mil, incluindo passagens. Mas um ano não foi suficiente, disse Coggeshall, que voltou para a Nova Zelândia e passou um segundo ano como voluntário numa escola elementar em Wellington, morando num apartamento alugado. O custo foi de cerca de US$ 5 mil, incluindo as passagens.

Nos dois anos ele comprou um cartão de identidade de estudante internacional através da STA Travel, que oferece passagens aéreas com descontos e políticas de flexibilidade para o retorno. Este mês ele começa seu primeiro ano na Universidade do Oregon em Eugene.

"Se você pesquisar, há uma grande variedade de oportunidades financeiras", disse Rae Nelson, que com seu marido, Karl Haiger, escreveu "The Gap-Year Advantage" [A vantagem do ano de intervalo] (ed. St. Martin's Griffin, 2005). O livro cita recursos para programas de baixo custo, descontos para estudantes e outras dicas para gastar menos.

"Os obstáculos financeiros continuam sendo a principal barreira para pelo menos 50% dos estudantes que se candidatam", disse John Eastman, diretor-executivo da Global Learning Across Borders, um grupo sem fins lucrativos baseado em Nova York que se dedica a programas internacionais.

O grupo iniciou recentemente um programa piloto para estudantes de baixa renda, que historicamente são subrepresentados nos programas de estudos no exterior.

"Isso não pode ser considerado um luxo", disse Eastman, acrescentando que as viagens ao exterior são importantes para ajudar os jovens americanos a tornar-se "culturalmente competentes e globalmente conscientes". Eastman tornou-se presidente dessa organização depois da experiência positiva de sua filha no exterior.

Caitlin Thurrell, 18, de Meredith, New Hampshire, ganhou bolsa de metade da taxa do programa para um semestre na Índia, oferecido pela Global Learning Across Borders, ao concordar em ser uma estudante-embaixadora quando voltar, visitando as escolas para falar sobre suas experiências. Ela também procurou apoio de organizações locais, como o Rotary Club e o jornal da cidade, oferecendo-se para ser correspondente estrangeira.

"Eu trabalhei muito, mais de 60 horas por semana", disse Thurrell, que vai passar mais um tempo na Índia com um tio que mora lá. Ela teve dois empregos de verão - incluindo um preparando sanduíches e sorvetes em Center Harbor, perto do lago Winnipesaukee.

Ela estava preocupada que não recebesse ajuda financeira se adiasse a matrícula na faculdade. Pouco depois que a Universidade Brown aceitou seu pedido para esperar um ano, ela soube que teria de se recandidatar à ajuda. "Mas eles disseram que posso contar com o mesmo pacote que me ofereceram este ano", ela disse, "desde que não haja mudanças substanciais na situação financeira da minha família."

Algumas pessoas têm reservas sobre os programas de serviços, que custam ainda menos.

"É um serviço importante, mas o modo como é montado, com alguns programas de voluntários pedindo altas taxas, impede que a experiência seja amplamente acessível", disse Abigail Falik, que trabalhou no campo de educação global durante dez anos e hoje faz mestrado em Harvard.

Certa manhã no mês passado, Dalit Gulak, 23, que cresceu em Harpswell, Maine, estava a caminho de Estelí, Nicarágua, com 200 quilos de equipamento médico doado para ser aprendiz de parteira, antes de voltar a Georgetown em janeiro para fazer mestrado em saúde feminina e enfermagem de obstetrícia.

Gulak terminou um ano de intervalo de serviços na América Latina, quatro anos atrás. Ela concorda que as taxas de voluntários deveriam ser menores, mas diz que sua experiência em um pavilhão de oncologia no Peru fez aumentar seu interesse pelos tratamentos de saúde.

"Isso faz você crescer", ela disse. "A torna completamente responsável, especialmente no sentido financeiro. É uma coisa que muda sua vida e faz você querer ainda mais a faculdade." Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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