UOL Notícias Internacional
 

03/09/2006

Equipamentos de revista demoram a chegar aos aeroportos americanos

The New York Times
Eric Lipton

Em Egg Harbor, Nova Jersey
Citando problemas inesperados de confiabilidade, a Administração de Segurança nos Transportes (TSA) está suspendendo a instalação do único equipamento de aeroporto que revista automaticamente os passageiros em busca de explosivos escondidos.

A implementação dos dispositivos, portais para detecção de vestígios, apelidados de "puffers" (sopradores) por soprarem ar enquanto procuram por resíduos de explosivos, já estava bastante atrasada. Agora, a agência de transportes está avaliando se modificará os "puffers", os atualizará ou aguardará a disponibilidade de aparelhos melhores.

"Nós estamos encontrando alguns problemas que não previmos", disse Randy Null, o diretor chefe de tecnologia da agência, na semana passada.

Os problemas com o portal são parte de um padrão no qual o governo federal tem sido incapaz de transferir com sucesso tecnologias de detecção de bombas do laboratório para o aeroporto. Enquanto os técnicos do laboratório do Departamento de Segurança Interna se ocupam construindo bombas para testar o equipamento de ponta, a agência ainda depende basicamente de medidas de baixa tecnologia para enfrentar a ameaça de explosivos nos aeroportos, particularmente nos checkpoints.

Membros do Congresso e ex-funcionários de segurança interna atribuem à má administração, disputas territoriais, troca de pessoal e mau financiamento os problemas na pesquisa. Algumas iniciativas também enfrentaram a oposição das companhias aéreas ou foram retardadas pela burocracia. Entre os esforços atrasados ou com problemas estão:

- A agência conduziu testes no ano passado que membros do Congresso e um ex-funcionário do Departamento de Segurança Interna chamaram de "desastrosos" e "estúpidos", porque não testaram o equipamento menor e mais barato de revista de bagagem da forma que deveria ser usado.

- Após passar anos avaliando um scanner de documento que procuraria por traços de explosivos em papéis carregados por um passageiro, a agência agora percebeu que é preferível checar as mãos do passageiro. Mas não há nenhum plano para isto.

- A agência concedeu subvenção para um fabricante de equipamento encontrar uma forma de acelerar as máquinas de detecção de explosivos que revistam bagagens e para reduzir a freqüência de falsos positivos. Apesar do trabalho ter sido concluído com sucesso há um ano, a agência não realizou a atualização de software necessária para as centenas de aparelhos já presentes nos aeroportos do país.

"Continuar seguindo o caminho lento, atrapalhado e desconexo adotado pela TSA e pela Segurança Interna nos últimos cinco anos não é mais aceitável", disse o deputado John L. Mica, republicano da Flórida e presidente do comitê da Câmara que supervisiona a segurança na aviação. "Todo o programa é acidental. E o resultado é que até hoje temos uma série de tecnologias ultrapassadas que apenas servem para busca de metais e armas."

Apesar da agência de transportes ter sido indicada pelo Congresso para realizar a revista de toda a bagagem em busca de explosivos, em dezembro de 2002, mesmo as autoridades de segurança concordam que o esforço de pesquisa, que já custou US$ 450 milhões nos últimos quatro anos, precisa ser mudado.

"Este departamento não pode arcar em não estar na vanguarda da inovação tecnológica", disse Michael P. Jackson, vice-secretário de segurança interna, em uma entrevista nesta semana. "Os bandidos estão constantemente avaliando quão bem estamos em impedir seus esforços; nós temos que sempre estar um passo à frente deles."

Espalhados em uma mesa no Laboratório de Segurança nos Transportes, nos arredores de Atlantic City, na semana passada, pequenos pratos continham amostras dos explosivos que as pessoas dali estavam buscando derrotar. Eles incluíam Semtex, TNT, C4, RDX britânico e dinamite -vários populares entre homens-bomba e já usados com sucesso em planos envolvendo aviões de passageiros- juntamente com explosivos líquidos em garrafas marcadas apenas como "A", "A1" e "B".

Os cientistas e técnicos inserem cuidadosamente estes materiais em computadores, aparelhos eletrônicos pequenos, calçados e maços de cigarro, construindo toda bomba imaginável e então as testando no equipamento de detecção.

"Nós fazemos o melhor para imaginar todas as opções antes que outra pessoa o faça", disse um técnico do laboratório que se identificou apenas como Sr. T, de acordo com a política do laboratório de não identificação de seu pessoal.

As críticas ao Departamento de Segurança Interna e à Administração de Segurança nos Transportes não é dirigida diretamente aos 190 funcionários federais e prestadores de serviço do laboratório, ou a Susan Hallowell, a química que dirige a instalação.

Em vez disso, disseram vários ex-altos funcionários do departamento, o problema é o conflito entre a TSA, que cuida da segurança nos aeroportos, e a divisão de Ciência e Tecnologia do Departamento de Segurança Interna, que supervisiona a pesquisa.

A administração de segurança, buscando impedir outro ataque aos aviões comerciais, está à procura de aparelhos que possam ser transferidos rapidamente do laboratório para os aeroportos, disseram ex-funcionários. Tal abordagem tende a resultar na busca por equipamento visando detectar o mais recente plano -aquele empregando facas, armas ou explosivos plásticos- não os novos planos que um terrorista poderia conceber, disseram especialistas em segurança.

Enquanto isso, a divisão de Ciência e Tecnologia se concentra em encontrar formas que revolucionem a maneira como o país protege seus aeroportos, cidades, indústrias e outros alvos, apesar de, até o momento, o esforço ter gerado poucos resultados práticos. Nos cinco anos que se seguiram aos ataques terroristas de 2001, as agências não descobriram como equilibrar suas metas freqüentemente conflitantes.

"É preciso ter uma estratégia de longo prazo e uma estratégia de curto a médio prazo", disse Stephen J. McHale, ex-vice-administrador da TSA. "O que temos feito é transferir recursos de um lado para outro entre estas duas metas. O resultado é que não estamos obtendo progresso em nenhuma."

O laboratório de Nova Jersey também sofreu com enormes altos e baixos em seu orçamento e com mudanças constantes de supervisão; ele já foi supervisionado pelo Departamento de Transportes, pela TSA e atualmente pela Ciência e Tecnologia.

Para piorar ainda mais, disseram ex-funcionários, às vezes leva meses para aprovação pelo Congresso do orçamento do Departamento de Segurança Interna, impedindo que o dinheiro chegue ao laboratório e atrasando o trabalho. As exigências intensas envolvidas na simples criação da TSA --compra de equipamento e contratação de dezenas de milhares de revistadores nos checkpoints- levou as autoridades a usarem a certa altura mais da metade do orçamento anual da agência, mais de US$ 61 milhões.

Membros do Congresso, autoridades de segurança interna e mesmo altos funcionários da TSA reconhecem os resultados decepcionantes. O Senado, no relatório do comitê orçamentário deste ano para as verbas da Segurança Interna, descreveu a divisão de Ciência e Tecnologia como um "navio sem direção sem uma forma clara de voltar ao curso".

Hallowell disse estar razoavelmente satisfeita com o progresso obtido pelo seu laboratório. "Como americanos, nós tendemos a nos concentrar em medidas 100%, em soluções completas", ela disse. "Mas para mim, se você empregar um dispositivo que não seja 100% bem-sucedido, mas que possa encontrar a maioria das bombas, isto é ótimo. Então você prossegue trabalhando para melhorá-lo."

Mas a história das máquinas "puffers" demonstra quão problemáticas podem ser até mesmo estas soluções parciais.

As máquinas, desenvolvidas pelos Laboratórios Nacionais Sandia em 1997 e fabricadas pela General Electric e Smiths Detection ao custo de cerca de US$ 160 mil cada, coletam partículas liberadas pelos jatos de ar e então as analisa para identificar quaisquer ingredientes para fabricação de bombas. Os puffers são os únicos aparelhos que examinam automaticamente os passageiros em busca de explosivos, levando apenas cerca de 15 segundos para checar uma pessoa da cabeça aos pés.

Desde 2001, o laboratório da TSA vem trabalhando para melhorar os aparelhos, testando repetidas vezes protótipos para assegurar que possam detectar explosivos e suportar o uso constante nos aeroportos. Um modelo anterior era muito mais lento e barulhento, assim como consumia muito mais energia, disse Mark Laustra, um vice-presidente da Smiths Detection, com sede em Londres.

Mas com problemas orçamentários e outras distrações, levar o aparelho aos aeroportos demorou demais, disseram McHale, o ex-vice-diretor da TSA, e outros.

"Por que os 'puffers' não estão lá fora sendo testados?" o ex-consultor de ciência da agência de transportes, Anthony Fainberg, disse ter perguntado repetidas vez.

Quando dois homens-bomba tchetchenos usaram explosivos para explodir jatos russos em 2004, os "puffers" ainda não estavam prontos para uso disseminado. Assim, a agência de transportes começou a pedir aos passageiros nos checkpoints que tirassem seus casacos e outras peças pesadas de vestuário na esperança de melhorar as chances de verem um volume que poderia ser uma bomba.

Assim que passaram a ser usadas -- cerca de 95 máquinas foram instaladas em 34 aeroportos, bem menos do que a meta de 350 implementadas em 81 aeroportos até o final deste ano -- as limitações das máquinas se tornaram mais óbvias.

Os portais não incluem sensores para explosivos líquidos, apesar dos terroristas há muito demonstrarem interesse neles. E apesar do trabalho em laboratório para assegurar confiabilidade, os "puffers" quebram com grande freqüência ou apresentam outros problemas de performance devido, talvez, à poeira e sujeira nos aeroportos, disse Null, o diretor de tecnologia da TSA.

Outros esforços de segurança nos aeroportos também provocaram críticas. A agência de transportes concedeu uma subvenção de US$ 2,4 milhões para a Reveal Imaging Technologies de Bedford, Massachusetts, para o desenvolvimento de uma máquina menor, mais barata, para detecção de explosivos, capaz de revistar as malas durante o check-in. A agência gastou US$ 3,3 milhões para comprar oito delas, mas os testes dos aparelhos no Newark Liberty International Airport resultaram no que Mica chamou de "um fiasco absoluto, uma farsa", porque as máquinas não foram instaladas como parte de uma rede que, se bem-sucedida, poderia economizar bilhões de dólares como forma alternativa de lidar com a revista em grandes aeroportos.

Funcionários da agência reconheceram o problema, mas disseram que os testes mesmo assim foram úteis. Mas Mica não ficou satisfeito. "Isto é apenas um desperdício inacreditável de tempo e dinheiro", ele disse em uma audiência na Câmara, em junho. "É um incrível revés para nós nacionalmente."

De forma semelhante, após conceder uma subvenção de US$ 5,3 milhões para desenvolvimento por duas empresas de software para acelerar e aumentar a precisão de 650 máquinas para inspeção de bagagem, a TSA ainda não fez as mudanças de fato nas máquinas. Funcionários da agência disseram que precisam resolver detalhes contratuais, mas concordaram que a demora é inaceitável.

Autoridades da agência prometeram em 2004 que um aparelho para analisar documentos em busca de traços de explosivos estaria nos aeroportos neste ano. Apesar da agência ter investido vários anos no projeto, sua implementação também está suspensa.

"O que descobrimos é que uma análise do dedo pode ser uma forma mais eficaz", disse Null, apesar da ausência de medidas visíveis para a execução de tais testes.

Null e Hallowell, a diretora do laboratório, disseram que muitos dos atrasos foram inevitáveis, pois tentavam encontrar o equilíbrio certo entre o desenvolvimento de nova tecnologia e a garantia de que funcionaria de forma confiável.

Jackson, o vice-secretário de segurança interna, disse que as dificuldades provaram para ele que o departamento precisa mudar radicalmente a forma como trata da compra de equipamento para segurança na aviação e outros dispositivos de alta tecnologia.

A agência precisa contratar empresas que ajudem a testar os novos equipamentos, ele disse, o que poderia reduzir o tempo necessário para garantir que um aparelho funcione. E, ele disse, o departamento deve considerar a aquisição de equipamento de segurança dos fabricantes na forma de serviço, como o leasing de um carro em vez de sua compra, o que permitiria ao governo atualizar a tecnologia mais rapidamente à medida que novos produtos sejam lançados.

"Nós precisamos fazer com que o cientista maluco na garagem, a corporação multibilionária, os laboratórios federais e os pesquisadores das universidades encontrem uma forma de levar rapidamente uma idéia ao mercado", disse Jackson.

As idéias de Jackson podem provocar protesto, particularmente a noção de permitir que empresas independentes verifiquem o funcionamento de um equipamento de detecção de bombas.

Independente disso, o senador Judd Gregg, republicano de New Hampshire e presidente da comissão que supervisiona o orçamento da Segurança Interna, disse esperar que o departamento esteja falando sério na reformulação de seus esforços de pesquisa e desenvolvimento.

"Ele tem sido lento, ineficiente e de muitas formas simplesmente incompetente", disse Gregg. "Infelizmente, as aeronaves, especialmente os vôos comerciais, continuam sendo um alvo oportuno que estes terroristas claramente ainda visam." George El Khouri Andolfato

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